O que você vai encontrar aqui:

  • O que o professor já pode fazer com inteligência artificial na educação sem expor aluno nenhum, com os comandos prontos para copiar e o que conferir em cada um.
  • Por que a correção de redação com IA continua possível, desde que o professor leia o texto inteiro e a nota seja dele.
  • O que o aluno pode usar em cada etapa, da educação infantil ao ensino médio, e quando a escola precisa avisar as famílias, com um modelo de bilhete.
  • Os quatro níveis de risco das diretrizes do CNE para IA na educação, com os usos comuns da escola em cada um, e o prazo de 12 meses para se ajustar depois que o texto final for publicado.
  • Por que a plataforma que prevê evasão está no nível de risco alto, e o que a escola precisa ter antes de ligar uma.
  • O que a universidade precisa colocar no plano institucional, na tutoria a distância e na pesquisa.

Este artigo complementa o e-book gratuito O Mapa do Explorador, que reúne mais de 200 tendências de tecnologia que não envelhecem com a próxima manchete. O capítulo de Educação, RH e Carreira mostra para onde vão o tutor com IA e a avaliação adaptativa, o que ajuda a decidir o que a escola adota agora e o que espera amadurecer.


Imagine uma coordenadora pedagógica na primeira semana de aulas. O professor de história pede para usar IA com o 7º ano, e a secretaria quer responder às famílias pelo WhatsApp com um robô. A mantenedora mandou a proposta de uma plataforma que avisa quais alunos estão perto de abandonar a escola. E a escola não tem nenhuma regra escrita sobre nada disso.

Esse retrato é comum. Na pesquisa TIC Educação 2025 do Cetic.br, 53% dos gestores escolares disseram usar IA generativa, a que escreve textos e cria imagens a partir de um comando, em tarefas de gestão. Só 22% relataram que a escola tem um guia de orientação sobre o uso. Traduzindo: a IA entrou na escola pela mesa de quem administra, antes de existir regra para ela.

Estudei em escola pública do começo ao fim e hoje dou aula em pós-graduação na ESPM, no Insper, na PUCRS e na USP. A dúvida sobre o que pode e o que não pode com IA vale para os dois lados da sala, e agora ela tem uma resposta oficial no Brasil, que muda o trabalho de quem ensina, de quem coordena e de quem compra tecnologia para a escola.

Inteligência artificial na educação: quem já usa e o que a regra nova pede

A mesma pesquisa do Cetic.br mostra o que os gestores fazem com a IA. Entre os que usam, 83% criam conteúdo visual, 80% escrevem convites e comunicados e 75% organizam atividades. Até aí, é rotina de escritório.

O número que pede atenção vem mais abaixo na lista: 51% dos gestores que usam IA analisam com ela dados de desempenho dos alunos, de práticas pedagógicas ou do funcionamento da escola. Dos usos citados, é o que pode levar dado de aluno para a ferramenta.

Do lado do aluno, 37% das escolas permitem que os estudantes usem IA em atividades educacionais, e o número sobe para 52% nas escolas que vão até o ensino médio.

Três documentos oficiais tratam do assunto:

  1. O Referencial para Desenvolvimento e Uso Responsáveis de Inteligência Artificial na Educação, lançado pelo Ministério da Educação em março de 2026, da creche à pós-graduação. Ele orienta e não obriga.
  2. O documento orientador “Inteligência Artificial na Educação Básica”, que o MEC publicou, voltado a currículo e prática docente.
  3. As Diretrizes para a Utilização da Inteligência Artificial na Educação Brasileira, do Conselho Nacional de Educação. Esse é o texto que vira regra e muda a rotina da escola.

As diretrizes valem para escolas e faculdades, públicas e privadas, e organizam tudo por nível de risco.

IA para professores: preparar aula, adaptar material e corrigir com segurança

O professor é quem mais ganha tempo com IA, e quem menos precisa esperar a escola decidir alguma coisa. Planejar aula, adaptar material, revisar texto e escrever comunicado estão no nível de risco baixo das diretrizes. Nenhum desses usos envolve dado de aluno, se você fizer do jeito certo.

O cuidado começa por uma regra simples: o que entra no comando é a turma, nunca a criança. “Turma de 7º ano com dois alunos com dislexia” serve. O nome do aluno, o laudo e a nota da última prova não servem.

Plano de aula com IA

A IA acerta mais quando recebe o que você sabe e ela não sabe: a série, o que a turma já viu, quanto tempo você tem e o que costuma dar errado. Este comando funciona no ChatGPT, no Gemini e no Claude:

Você é um professor experiente de [disciplina] do [ano/série].
Preciso de um plano para uma aula de [duração] sobre [tema].
Contexto da turma:
- O que eles já estudaram: [conteúdos anteriores]
- Onde costumam errar: [dificuldade comum]
- Recursos disponíveis: [lousa, projetor, sem internet, etc.]
Entregue:
1. Objetivo de aprendizagem em uma frase, ligado à habilidade [código da BNCC, se usar].
2. Abertura de 5 minutos com uma situação do dia a dia do aluno.
3. Atividade principal em duplas, com a instrução que eu leio para a turma.
4. Três perguntas de checagem para o fim da aula, da mais fácil para a mais difícil.
Não invente dado, data ou citação. Se precisar de um fato que você não tem certeza, marque com [CONFERIR].

O que conferir antes de usar: todo fato histórico, data e número que o plano trouxer, e se a atividade cabe mesmo no tempo da aula. A IA erra mais nos detalhes que soam certos.

Material adaptado para quem precisa

A IA também ajuda a adaptar texto para aluno com dificuldade de leitura. As diretrizes tratam recurso de acessibilidade como prioridade, e o simples (transcrever, legendar, ampliar, simplificar) fica no risco baixo. O comando abaixo descreve a dificuldade da turma, sem nome nem laudo: usar o diagnóstico de um aluno específico já é dado de deficiência ou saúde, que está no risco alto.

Reescreva o texto abaixo para alunos do [ano/série] com dificuldade de leitura.
Regras:
- Frases de no máximo 15 palavras.
- Troque palavras difíceis por palavras comuns e coloque a palavra original entre parênteses na primeira vez.
- Mantenha todos os conceitos e fatos do original. Não acrescente nada.
- No fim, faça três perguntas de compreensão com resposta no próprio texto.
Texto:
[colar o texto]

Confira se nenhum conceito sumiu na simplificação, que é o erro mais comum. Num texto sobre o ciclo da água, por exemplo, a condensação pode desaparecer só para a frase ficar curta, e o aluno que mais precisa do conteúdo é justamente quem recebe a versão incompleta.

Comunicado à família

Bilhete, convite para reunião e aviso de mudança de horário estão entre os usos que mais aparecem entre os gestores na pesquisa do Cetic.br. Dê à IA o fato, o tom e o que a família precisa fazer, e peça duas versões: uma para o WhatsApp e outra para o papel que vai na mochila.

Escreva um comunicado da escola [nome] para as famílias do [ano/série].
Fato: [o que vai acontecer, data, horário, local].
O que a família precisa fazer: [ação e prazo].
Tom: [cordial e direto / formal].
Entregue duas versões: uma para WhatsApp, em até cinco linhas, e outra para bilhete impresso.
Não inclua nome de aluno. Não acrescente informação que não está acima.

Confira data, horário e local contra o calendário da escola antes de enviar.

Correção de redação com IA: o que a máquina adianta e o que fica com você

A rede estadual de São Paulo usa IA na plataforma de redação da Secretaria da Educação desde o fim de 2023. Segundo a reportagem da Folha sobre o lançamento, a IA propõe a correção por critério e o professor valida ou altera cada um antes de a nota chegar ao aluno. A fila de redações acumuladas era o problema que a secretaria queria resolver.

As diretrizes do CNE tratam esse uso como pré-correção e o colocam no nível de risco alto. A nota é sempre do professor, e duas condições valem para qualquer escola que faça o mesmo:

  1. Ler o texto inteiro do aluno, e não só os comentários que a IA gerou.
  2. Decidir redação por redação. Você não pode aprovar em bloco o que a máquina sugeriu nem confirmar a nota dela sem analisar o texto.

Na prática, use a IA para o que ela faz bem: apontar erro de ortografia e concordância, sinalizar parágrafo fora do tema e sugerir comentário de devolutiva. A avaliação de argumento, de autoria e de criatividade continua sendo sua.

Esse uso também não começa pela decisão de um professor sozinho. Antes que a primeira redação vá para uma ferramenta, confirme com a coordenação quatro coisas: que esse uso está no inventário de usos de IA da escola (o passo 1 de “Por onde começar”), que alguém já analisou por escrito os riscos para o aluno, como viés e privacidade (a chamada avaliação de impacto), que existe um responsável nomeado e que o aluno tem como contestar a correção.

Até lá, use a IA só no que é risco baixo e não leva texto de aluno, como montar os critérios da correção ou modelos de comentário de devolutiva.

Fluxo da pré-correção de redação com inteligência artificial na educação: aluno, ia, leitura do professor, nota e devolutiva
Na pré-correção, a IA trabalha antes do professor, e a nota só sai depois da leitura dele.

Detector de texto feito por IA

O resultado de um detector não serve de prova. As diretrizes proíbem punir o aluno, com nota ou com medida disciplinar, só porque essa ferramenta apontou texto feito por IA, e ela erra justamente com quem escreve bem. A saída está em mudar o que se pede ao aluno.

Peça que parte do trabalho seja feita em sala, receba a entrega em etapas com o rascunho junto, reserve alguns minutos para o aluno explicar em voz alta o que escreveu e cobre a lista das fontes que ele usou. Se a dúvida aparecer mesmo assim, ela vira conversa com o aluno sobre o texto, e não processo disciplinar aberto pelo número que a ferramenta mostrou.

Coordenação pedagógica: o que o aluno pode usar e como ensinar sobre IA

A pergunta que chega à coordenação toda semana é “o aluno pode usar?”. A resposta das diretrizes depende da idade: no 3º ano, o aluno não conversa com IA generativa, mesmo com a professora ao lado, e no 8º ano ele já pode, numa atividade que ela conduz e acompanha. A tabela abaixo vale para o uso pelo estudante; o professor pode usar IA para planejar em qualquer etapa.

EtapaO que o aluno podeO que está vetado
Educação infantilNenhum uso direto. Só recurso de acessibilidade para eliminar barreiraQualquer uso pela criança, mesmo com o professor ao lado
Anos iniciais (1º ao 5º ano)Atividade planejada e conduzida pelo professor, com material que ele preparou com IA, sem a criança digitar ou falar com IA generativaUso autônomo e qualquer conversa com IA generativa, mesmo supervisionada
Anos finais (6º ao 9º ano)IA generativa em atividade conduzida e acompanhada pelo professorUso individual sem supervisão
Ensino médioUso progressivo, com orientação, em projetos e pesquisaOs usos vedados da tabela de níveis de risco e o que mais a política da escola vetar

Duas regras valem em todas as etapas: nenhuma ferramenta pode usar dado de aluno para publicidade ou para montar perfil comercial dele, e o que a criança ou o adolescente produz não pode ser usado por outra empresa para treinar, ou seja, aprimorar, o próprio sistema de IA.

Existe ainda o limite de idade de cada ferramenta. A OpenAI, por exemplo, diz na própria central de ajuda que o ChatGPT não é para menores de 13 anos e que, dos 13 aos 18, o uso pede consentimento dos pais. Numa turma de 6º ou 7º ano, em que parte dos alunos ainda não tem 13 anos, isso significa escolher uma ferramenta que aceite essa idade ou deixar o professor operando a ferramenta na frente da turma.

Para qualquer sistema liberado à turma, confira no termo de uso a idade mínima, se ele pede consentimento dos pais e se usa o que os alunos escrevem para treinar o modelo. Confira também se a turma vai entrar pela conta institucional da escola.

Avisar as famílias

As diretrizes pedem que a escola conte com clareza a estudantes, professores e, quando couber, às famílias que usa IA. Nos anos iniciais, esse aviso é obrigatório sempre que a escola usar IA numa atividade com os alunos. O plano de aula que a professora prepara sozinha, sem dado de aluno, não entra nessa conta. Um bilhete curto resolve: qual ferramenta, para quê, que dado ela vê e quem responde por ela na escola.

Senhores responsáveis,
a partir de [data], a turma do [ano] vai fazer a atividade [atividade] com apoio de [ferramenta], operada ou acompanhada pela professora [nome].
A ferramenta [não recebe nenhum dado do aluno / recebe só (qual dado)].
Dúvidas: [nome e cargo], pelo [canal].

Letramento em IA: ensinar sobre a ferramenta, além de ensinar com ela

As diretrizes pedem que a escola que adota IA também ensine sobre IA: como esses sistemas funcionam, por que erram, de onde vem o viés, como conferir uma fonte e qual a diferença entre usar uma ajuda e entregar um trabalho que não é seu. O nome disso é letramento em IA.

O Piauí saiu na frente. Desde 2024, segundo o currículo da Secretaria da Educação do estado, mais de 120 mil estudantes cursam a disciplina de Inteligência Artificial na rede estadual. A cobrança também vem de fora: o PISA de 2029, a prova internacional da OCDE para alunos de 15 anos, vai medir pela primeira vez o letramento em mídia e em IA.

Para a coordenação, a decisão prática é onde isso entra no currículo. Uma disciplina própria, como no Piauí, ou um tema que atravessa língua portuguesa, ciências e história. O que não funciona é liberar a ferramenta sem ensinar a desconfiar dela: a resposta pronta pula a parte de comparar fontes e errar caminho, que é onde o aluno aprende.

Secretaria e gestão escolar: atendimento, rotina e previsão de evasão

Na mesma semana, a secretaria pode ligar um robô que responde no WhatsApp a data da rematrícula e receber da mantenedora uma plataforma que aponta quem vai abandonar a escola. Os dois usam IA, e as diretrizes colocam cada um num nível de risco diferente.

Atendimento a famílias e rotina administrativa. Um tira-dúvidas que responde sobre matrícula, calendário e documentos, alimentado pelo regimento e pelas circulares da escola, fica no risco moderado. As diretrizes pedem quatro coisas para esse nível:

  1. Avisar a comunidade que existe uma IA no atendimento, para que serve e quem é o responsável por ela na escola.
  2. Registrar o uso: finalidade, público, dados tratados e responsável.
  3. Ter um canal humano para quando a resposta não resolver.
  4. Revisar de tempos em tempos se a resposta está certa e se trata todos igual.

Dá para montar a primeira versão sem contratar plataforma. O ChatGPT e o Claude têm um recurso chamado Projetos, em que você deixa instruções fixas e anexa documentos. O projeto só abre para quem está na conta da escola, então essa versão serve à equipe da secretaria: ela consulta o tira-dúvidas e responde à família pelo canal de sempre, conferindo cada resposta antes de enviar.

Você é o tira-dúvidas da secretaria da escola [nome].
Responda só com base nos documentos anexados (regimento, calendário, circulares).
Se a resposta não estiver nos documentos, diga que não encontrou e indique o contato da secretaria: [telefone/e-mail].
Nunca peça nem registre nome de aluno, nota, laudo ou dado de saúde.
Responda em até cinco linhas, em linguagem simples.

Para o teste, junte as perguntas mais frequentes, envie cada uma ao projeto do jeito que um responsável escreveria e marque o resultado como certo, errado ou “não encontrou”. Os erros se corrigem nos documentos anexados ou nas instruções, e a lista fica guardada para repetir a checagem na revisão periódica.

Para a família conversar direto com a IA, no WhatsApp ou no site da escola, é preciso uma plataforma de atendimento, comprada ou construída com um parceiro. O projeto interno vira o ensaio dela: as instruções, os documentos e a lista de perguntas testadas mostram ao fornecedor o que a escola precisa e servem de teste antes de o canal entrar no ar.

Previsão de evasão. Aqui a conversa muda de nível. Um sistema que cruza faltas, notas e contexto socioeconômico para apontar quem está perto de abandonar a escola é, nas diretrizes, aplicação de risco alto. A ferramenta continua permitida, desde que a escola tenha, antes de ligá-la:

  1. Avaliação de impacto antes de contratar, com foco nos direitos do aluno. Se a plataforma já está contratada, a avaliação entra na fila do passo 2 de “Por onde começar”. Por escrito, ela responde que dados entram e de onde vêm, quem vê cada alerta, o que acontece com o aluno sinalizado, como o sistema foi testado com alunos parecidos com os da escola e o que a escola faz quando ele erra.
  2. Uma pessoa responsável por cada alerta, que confere o caso e decide o que fazer.
  3. Canal para o aluno ou a família contestar e corrigir o que o sistema concluiu.
  4. Monitoramento para ver se o sistema erra mais com um grupo de alunos do que com outro. Para isso, a pessoa responsável anota em cada alerta se o risco se confirmou no contato com a família. Na revisão periódica, ela separa os alunos por turno, série, sexo, raça e cor e deficiência, e compara em cada grupo quantos foram sinalizados e quantos alertas se confirmaram. Grupo com muito alerta sem confirmação leva o sistema de volta para revisão com o fornecedor.

E duas coisas ficam vetadas: decidir sozinho sobre permanência ou retenção do aluno, e separar ou tratar diferente um estudante por causa do rótulo que a máquina deu a ele. O alerta serve para abrir uma conversa com a família, e a decisão fica com a escola.

Um exemplo: o sistema marca um aluno do 8º ano que falta toda segunda-feira. A orientadora liga para a família e descobre que é o dia em que ele leva o irmão menor ao médico. A escola combina com a família um novo horário para a recuperação, e ninguém mexe na matrícula dele por causa do alerta.

Volte agora àqueles 51% de gestores que analisam dados da escola com IA. Uma análise da turma, sem nome e numa ferramenta contratada pela escola, é rotina.

O mesmo cruzamento com nome de aluno, feito para classificar quem “vai mal”, numa conta pessoal de chat, chega perto do que as diretrizes chamam de perfilização individual: rotular cada aluno pelo que a máquina conclui sobre ele. A diferença está no que entra e no que sai da ferramenta, e quase nunca está escrita em lugar nenhum.

Os quatro níveis de risco das diretrizes do CNE

As Diretrizes para a Utilização da Inteligência Artificial na Educação Brasileira foram aprovadas pelo Conselho Nacional de Educação em 1º de setembro de 2026, e um resumo da decisão saiu no Diário Oficial em 6 de outubro. Esse resumo ainda não é a resolução que faz o prazo começar a contar.

Elas passam a valer depois que o Ministério da Educação confirma o texto aprovado (a homologação) e a versão final sai publicada como resolução. A partir dessa data, escolas e faculdades têm 12 meses para ajustar regras internas, práticas e contratos já assinados, e as proibições valem no mesmo dia.

O texto das diretrizes classifica cada uso pelo dano que ele pode causar ao aluno. Um professor pode passar por três níveis em poucos dias: baixo quando prepara a aula, moderado quando a turma usa um tutor que não dá nota e alto quando a IA adianta a correção das redações.

Uso comumNívelO que exige
Plano de aula, adaptação de material, revisão de texto sem nota, tradução, resumo, legenda e leitura de telaBaixoRegistro simples da finalidade, segurança da informação e proteção de dados
Tutor automatizado, devolutiva formativa sem nota, tira-dúvidas de atendimento, recomendação de estudo que só sugere e não muda sozinha nada na vida escolar do alunoModeradoAviso à comunidade, registro do uso, revisão humana do que orienta o aluno, canal de contestação e monitoramento de erro e viés
Pré-correção de redação e prova dissertativa, correção automática com efeito em nota, monitoramento de prova, previsão de evasão, uso de dado de deficiência ou saúde, detector de IA em apuração disciplinarAltoAvaliação de impacto prévia, supervisão humana documentada, validação humana antes de qualquer efeito, contestação e correção, monitoramento de viés
Reconhecimento de emoção, pontuação social, perfil psicológico para disciplina, decisão só automática sobre aprovação ou permanência, nota de redação dada só pela IA, punição baseada só em detector, dado de criança treinando modelo de terceiroVedadoNão pode ser usado

Quando um uso cabe em dois níveis, vale o mais alto. O tutor que começa sem nota e passa a influenciar a nota sobe de moderado para alto, e a escola precisa reclassificar quando a ferramenta ganha função nova.

Lá fora, o movimento é parecido. Nos Estados Unidos, o estado de Ohio obrigou cada rede pública a ter uma política de IA até 1º de julho de 2026. A diferença do Brasil é que as diretrizes do CNE já dizem o que a política precisa cobrir, por nível de risco, em vez de deixar cada rede inventar os próprios critérios.

Fazer sozinho, comprar pronto ou pedir para construir

Para cada uso, a escola escolhe um de três caminhos: o professor resolve sozinho com a conta institucional, a escola compra uma plataforma pronta ou constrói a ferramenta com um parceiro, como a secretaria de educação, no caso da escola pública, ou uma universidade.

UsoCaminho que costuma servirPor quê
Plano de aula, material adaptado, comunicadoO professor faz sozinho, com a conta institucionalRisco baixo e nenhum dado de aluno
Tira-dúvidas da secretariaComeça como projeto interno da secretaria, com os documentos da escola; abrir para as famílias pede plataforma compradaTesta a ideia sem contrato
Correção de redação em escalaCompra ou desenvolve com a rede, com a pré-correção desenhada desde o inícioRisco alto e volume grande
Previsão de evasãoCompra só depois da avaliação de impacto, ou constrói com a secretaria de educação ou a universidade parceiraRisco alto, dado sensível e decisão sobre trajetória
Plataforma adaptativa para o alunoCompra com contrato que cubra os cinco pontos listados abaixoModerado se só sugere estudo, alto se o resultado afeta nota ou progressão do aluno

Conta institucional é a que a escola contrata e administra, com termo de uso que garanta que o conteúdo não é usado para treinar o modelo. Se a escola ainda não tem uma, o professor fica na conta pessoal só nos usos sem nenhum dado de aluno.

No Referencial de 2026, o próprio MEC cita um estudo sobre a rede estadual de São Paulo em que o uso de plataformas digitais não veio acompanhado de mudança relevante no número de escolas que bateram as metas do SARESP, a prova estadual.

A plataforma só ajuda se resolve um problema que a escola nomeou antes de assinar. Um exemplo hipotético: “no 9º ano, a redação volta corrigida quando a turma já mudou de tema”. Sem a métrica de sucesso e a linha de partida medidas antes do piloto, ninguém prova depois que a ferramenta ajudou.

O que o contrato com o fornecedor precisa ter

As diretrizes e a lei já dizem boa parte do que vai no contrato:

  1. Como o fornecedor presta contas: quem fiscaliza a ferramenta, como a escola acompanha o funcionamento dela e quem responde quando ela erra.
  2. Proibição de usar o que professores e alunos produzem para treinar modelo de terceiros sem autorização específica, e proibição total quando o conteúdo for de criança ou adolescente.
  3. Proibição de usar dado educacional para publicidade, perfil comercial ou exploração comercial.
  4. A ferramenta já vem com as configurações de fábrica no nível que mais protege o aluno, sem a escola precisar mudar nada. O Estatuto Digital da Criança e do Adolescente, já em vigor, exige isso de todo produto de tecnologia usado por criança e adolescente.
  5. Onde o dado fica armazenado, quem é dono do que a ferramenta produz e como a escola recebe tudo de volta quando o contrato acabar.

IA no ensino superior: política institucional, educação a distância e pesquisa

Para a universidade e a faculdade, as diretrizes trazem uma obrigação concreta: ter política própria de uso de IA no ensino, na pesquisa, na extensão e na gestão acadêmica, incorporada ao Plano de Desenvolvimento Institucional (PDI), aos projetos pedagógicos de curso (PPC), ao regimento e aos regulamentos acadêmicos. Esses são os documentos que o MEC lê quando avalia a instituição ou o curso, e é neles que a política de IA precisa aparecer.

O que essa política precisa responder, pelo texto das diretrizes:

  1. Quando o aluno e o professor declaram que usaram IA, e como. Um modelo, inspirado na declaração que o CNPq, órgão federal que financia pesquisa, já exige: “Usei [ferramenta] para [finalidade] na etapa [etapa do trabalho]. Conferi o conteúdo, e a autoria e a responsabilidade são minhas.”
  2. O que é prática incompatível com a honestidade acadêmica em cada tipo de trabalho.
  3. Quem acompanha, revisa e atualiza as regras.
  4. Nos cursos de licenciatura, como o futuro professor aprende a usar e a ensinar IA na educação básica.

Na pesquisa, a regra já está em vigor para quem recebe recurso do CNPq. A Portaria CNPq nº 2.664, de março de 2026, obriga esses pesquisadores a declarar o uso de IA generativa em qualquer etapa do trabalho, com a ferramenta e a finalidade. As diretrizes do CNE seguem esse princípio: a IA pode entrar na revisão bibliográfica, na análise de dados e na escrita, e a autoria e a responsabilidade continuam com quem assina.

A educação a distância traz um ponto que mexe com o modelo de negócio de muita instituição: o atendimento feito por IA não conta como a tutoria e a interação com o aluno que a regulação exige dos cursos a distância. A tutoria que o curso comprova continua com tutores e professores, e o uso da IA entra na verificação dos instrumentos de avaliação e supervisão do MEC.

Na gestão acadêmica, vale o mesmo limite da escola: a máquina não decide sozinha nada com impacto relevante na trajetória do aluno, como desligamento, bolsa ou aprovação. O sistema pode avisar que um bolsista caiu de rendimento, e uma pessoa avalia se o benefício continua. Se a instituição ainda não tem um comitê que olhe para isso, o roteiro de governança de IA para quem assina embaixo serve de ponto de partida para montar um.

Por onde começar

Você não precisa esperar a resolução sair para agir. Eu recomendo estes passos, nesta ordem, e eles cabem no próximo mês em escola de qualquer tamanho.

  1. Faça o inventário. Liste todo uso de IA que já existe: ferramenta, quem usa, para quê e que dado entra. Inclua as contas pessoais que professores e secretaria usam no trabalho.
  2. Classifique cada uso. Encaixe cada item da lista num dos quatro níveis da tabela das diretrizes. O que estiver no nível vedado sai de uso no mesmo dia. O alto que já funciona entra na fila da avaliação de impacto, começando pelo que afeta nota ou trajetória do aluno, e o alto novo só começa depois dela. O moderado ganha aviso à comunidade, registro, canal de contestação e acompanhamento de erro, e o baixo, o registro simples da finalidade.
  3. Liste o que nunca vai para a IA. Numa página, escreva o que fica fora de qualquer ferramenta: nome de aluno com nota, laudo, dado de saúde, dado de família.
  4. Revise os contratos. Confira se os fornecedores já atendem os cinco pontos do contrato. O que não atende entra numa lista de renegociação.
  5. Escreva o guia e avise as famílias. Uma página por etapa de ensino, dizendo o que o aluno pode, o que o professor faz e quem responde.
  6. Forme a equipe. Comece pelos professores que já usam IA por conta própria: eles sabem onde a ferramenta erra na sua escola.

Para o professor que quer começar hoje, o atalho é o comando de plano de aula. Escolha a próxima aula que você vai preparar, use o modelo com o contexto da sua turma e confira cada fato que a resposta trouxer. Se quiser escrever comandos melhores, o guia de como fazer um prompt mostra a estrutura completa.

Comunidade no WhatsApp: as novidades de ferramentas, modelos e uso de dados no trabalho saem todo dia no grupo IA e Dados, sempre com a fonte. Veja como entrar no grupo.

Perguntas frequentes

O aluno pode usar ChatGPT na escola?

Depende da etapa. Pelas diretrizes do CNE, na educação infantil e nos anos iniciais do ensino fundamental o aluno não conversa com IA generativa. Nos anos finais, só em atividade conduzida e acompanhada pelo professor, e no ensino médio o uso pode ser direto, com orientação e regras da escola. Vale também o termo de uso da ferramenta: o ChatGPT não é para menores de 13 anos e pede consentimento dos pais até os 18.

A IA pode corrigir redação?

Pode adiantar a correção, e a nota continua sendo do professor. É uso de risco alto: cada texto precisa ser lido por inteiro e avaliado um a um, sem confirmar de uma vez as sugestões da máquina. Dar nota só pela IA está vetado.

Detector de texto feito por IA pode ser usado para punir aluno?

Não. O apontamento de um detector, sozinho, não pode virar nota baixa nem punição. Numa apuração disciplinar, ele é uso de risco alto e pode servir, no máximo, como mais um indício avaliado por uma pessoa.

Quando as diretrizes do CNE passam a valer?

Depois de dois passos: a homologação pelo Ministério da Educação e a publicação da versão final como resolução. O texto foi aprovado pelo CNE em 1º de setembro de 2026. Da publicação em diante, as instituições têm 12 meses para se adequar, e as proibições valem desde o primeiro dia.

Escola particular também precisa seguir as diretrizes?

Sim. As diretrizes valem para todos os níveis e modalidades de ensino, em instituições públicas e privadas, e alcançam também os contratos com fornecedores.

Prever evasão escolar com IA é proibido?

Não. É uso de risco alto, que exige avaliação de impacto antes de contratar, uma pessoa responsável por cada alerta, canal de contestação e monitoramento de viés. Fica proibido o sistema decidir sozinho sobre a permanência do aluno ou separá-lo dos colegas pelo rótulo que deu a ele.

O professor pode usar a conta pessoal de IA no trabalho?

Só nos usos sem nenhum dado de aluno, como planejar aula ou adaptar material. O que envolve dado de aluno pede a conta institucional, contratada pela escola com a garantia de que o conteúdo não treina o modelo. Enquanto ela não existe, a conta pessoal usada no trabalho entra no inventário da escola.

A universidade precisa ter uma política de IA?

Sim. As diretrizes pedem política própria para ensino, pesquisa, extensão e gestão acadêmica, incorporada ao PDI, aos projetos pedagógicos de curso e ao regimento. Para quem tem financiamento do CNPq, a declaração de uso de IA generativa já é obrigatória desde março de 2026.


Edney “InterNey” Souza atua com tecnologia desde 1990 como professor, palestrante e Conselheiro Consultivo em Tecnologia, IA, Dados e Inovação. Participou da criação de sete startups ao longo da carreira. É professor na ESPM, Insper, PUCRS, USP e IBGC. É autor do livro gratuito Engenharia de Prompts na Prática: do Zero ao Avançado com ChatGPT, Gemini e Claude.


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