Atualizado em outubro/2026.

O que você vai encontrar aqui:

  • As visitas de uma imersão em Israel, de fundo de venture capital (que investe em startups em troca de participação) a kibutz (comunidade agrícola coletiva)
  • Por que o país ganhou o apelido de Startup Nation, com os números da época da viagem e os de 2025
  • O caso da Facetrom, startup que estima o risco de crédito a partir de uma foto do rosto, e os resultados que ela apresentou
  • As perguntas que eu faria hoje à empresa, com base na LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados) e na lei europeia de IA
  • O que significam tachles, chutzpah, centauro e chief of staff, quatro termos que ouvi o tempo todo na viagem
  • O que o jeito israelense de inovar ensina a uma empresa brasileira, e um teste de um mês para começar esta semana

Cultura é um dos quatro blocos do meu livro Transformação Digital, ao lado de mentalidade, negócios e liderança na era digital. Em Israel, vi esse bloco funcionando por dentro.


Em fevereiro de 2023, passei cinco dias numa imersão no ecossistema de inovação de Israel. Como parte dela, conheci diversos componentes da cultura israelense:

Quer conhecer toda essa jornada? Baixe meu e-book sobre Israel.

Os outros dias da série:

  • Dia 2: Tel Aviv Tech, o exército que deixa o soldado discordar do comandante e a startup Plaiview
  • Dia 3: o kibutz Hatzerim e a irrigação por gotejamento da Netafim
  • Dia 4: as ONGs Yad Sarah e United Hatzalah

Por que Israel é chamado de Startup Nation?

O apelido vem do livro Start-up Nation: The Story of Israel’s Economic Miracle, de Dan Senor e Saul Singer, lançado em 2009. Os números da época da viagem mostram por que ele pegou:

Para fins de comparação, o Brasil tinha mais de 12 mil startups com uma população de 214 milhões, o que representa uma startup a cada 16.800 pessoas.

Como eles fazem isso? É o que eu vim descobrir! Vou falar mais sobre Israel nos próximos dias, já que toda a viagem é sobre a cultura de inovação deles. Por hoje quero compartilhar a apresentação da Facetrom, que na minha opinião foi o ponto alto da programação.

O que mudou desde a viagem

O peso do setor na economia israelense cresceu desde 2023. Em 2025, a alta tecnologia respondeu por 18,3% do PIB e por 58% de tudo o que o país exportou, segundo o relatório anual da Autoridade de Inovação de Israel. Na prática, mais da metade do que Israel vende lá fora é tecnologia.

O mesmo relatório coloca o país como o quarto maior polo de investimento em startups do mundo, atrás só de três polos americanos, com quase US$ 15 bilhões recebidos em 2025.

O número que mais pesa é outro: cerca de 775 startups novas foram fundadas em 2025, a primeira alta depois de uma década de queda. Sem empresa nova entrando, os outros números param de crescer.

Facetrom: crédito a partir de uma foto do rosto

A Facetrom é uma empresa que ajuda pessoas sem histórico de crédito, como os desbancarizados, a terem seu crédito aprovado.

Rosto com marcadores faciais na divulgação da facetrom, startup visitada na startup nation
Imagem de divulgação da Facetrom

Muitas pessoas criaram contas em bancos e começaram a fazer pagamentos digitais durante a pandemia. Ainda assim, segundo o Banco Mundial, existia 1,4 bilhão de pessoas desbancarizadas no mundo em 2021. Na edição de 2025 da mesma pesquisa, ainda eram 1,3 bilhão.

No Brasil, 84% dos adultos tinham conta em 2021, segundo o Banco Central, a partir do Global Findex. Na apresentação, a Facetrom estimou que 46% dos adultos no Brasil têm pouco histórico de crédito para ser analisado.

A Facetrom ajuda essas pessoas através de soluções de análise de risco de crédito usando tecnologias de inteligência artificial e reconhecimento facial. Ou dizendo isso de uma forma mais simples: ela analisa o seu rosto e diz se você é um bom pagador ou não, sem nenhum outro tipo de informação.

Num primeiro momento eu confesso que achei um completo absurdo, mas os dados e pesquisas da empresa são fascinantes. Segundo a apresentação, eles conseguem aumentar a taxa de aprovação de crédito de 20% para 67% e, mesmo aumentando a aprovação, diminuem o percentual de inadimplência de 4% para 2,3%.

Ou seja, na prática a Facetrom realmente está ajudando mais pessoas a serem aprovadas ao solicitar crédito e ao mesmo tempo está diminuindo o risco dos bancos. Uma relação totalmente ganha-ganha.

Ido Peleg, fundador e presidente da Facetrom, afirma que temos marcadores biológicos que representam nossa confiabilidade, mas as análises subjetivas são sempre discriminatórias. Em outras palavras, achamos que alguém é ou não bom pagador por causa dos nossos preconceitos.

O que a pesquisa dele aponta e os clientes da Facetrom estão comprovando na prática é que essa análise funciona. E que, ao contrário do que parece numa primeira leitura, a tecnologia visa remover o preconceito, e não perpetuá-lo.

Aqui vale um parêntese: a maioria das tecnologias de reconhecimento facial do mundo apresentam riscos diversos, desde condenar uma pessoa injustamente até hackear o celular de alguém. Para garantir que a tecnologia da Facetrom não apresente esses riscos, Ido deu algumas informações:

  • Os dados são completamente anonimizados: ele recebe apenas a foto, sem nenhuma outra informação daquele indivíduo, e converte no seu banco de dados para vetores que analisam os marcadores biométricos. Depois de convertido para vetor, o dado não pode ser convertido novamente em imagem, o que garante a anonimização.
  • Antes de entrar em um novo mercado, o modelo é treinado com dados positivos e negativos, através de algoritmos supervisionados e não supervisionados, de forma a garantir confiabilidade dentro do perfil étnico-racial daquele país.
  • Ele não garante 100% de acurácia: na melhor das hipóteses, combinado com outras análises, a acurácia chega a 90%.

Até agora os clientes da Facetrom têm usado o sistema para aumentar a oferta de crédito para pessoas que normalmente teriam seu crédito negado por falta de informações. Ou seja, na prática o sistema realmente está sendo utilizado para dar crédito para quem antes não tinha, democratizando o acesso ao dinheiro e, consequentemente, a oportunidades.

E quando essa tecnologia chegará ao Brasil? Surpresa, já chegou! Em 2019 a startup ganhou uma competição de fintechs realizada pela Febraban.

Tem toda a cara de algo que tem o potencial de ser usado para o mal, como toda tecnologia, mas no momento a Facetrom está criando oportunidades e mudando a vida das pessoas.

Olhando de 2026: o que eu perguntaria à Facetrom hoje

Mais de três anos e meio depois, as perguntas que eu faria à Facetrom são outras, porque as regras em volta dela avançaram.

A primeira pergunta é sobre a lei que já vale. A LGPD classifica dado biométrico como dado pessoal sensível, e o artigo 11 limita os casos em que ele pode ser coletado e usado. Em Tel Aviv, ouvi que os dados eram anonimizados, ou seja, desligados da identidade da pessoa. É isso que eu conferiria primeiro. A foto chega junto com um pedido de crédito, e esse pedido tem nome e CPF. Então eu perguntaria ao fornecedor: em que momento a foto deixa de estar ligada a essa pessoa?

Se o vetor continuar ligado ao CPF de quem pediu o crédito, ele segue sendo dado pessoal sensível. Nesse caso, antes de qualquer piloto, eu levaria uma pergunta ao jurídico: em qual dos casos do artigo 11 esse uso se encaixa?

A segunda é sobre o que vem por aí. Na União Europeia, o AI Act, a lei europeia de inteligência artificial, trata como alto risco todo sistema que avalia se uma pessoa física é boa pagadora ou define o score de crédito dela. Quem fornece e quem usa esse tipo de sistema precisam documentá-lo, manter uma pessoa supervisionando as decisões e controlar a qualidade dos dados.

Eu perguntaria ao fornecedor se o sistema já cumpre essas três exigências. No Brasil, o projeto de lei 2338/2023, que propõe regras para a IA, já passou pelo Senado e ainda espera a análise de uma comissão da Câmara. Se o projeto avançar, o fornecedor que já atende ao padrão europeu vai dar menos retrabalho.

A terceira é sobre a prova. Os números de aprovação e inadimplência que citei acima, apresentados como comprovados pelos clientes, são da própria empresa. Hoje eu perguntaria quem validou esses resultados de fora, em qual país e com qual perfil de cliente. Também perguntaria qual é a taxa de erro em cada grupo da população, já que a empresa diz ajustar o sistema ao perfil étnico-racial de cada país.

Se a única prova for o material comercial, eu recomendo um teste pequeno antes de levar o assunto ao comitê de crédito. Use os seus próprios clientes e compare quem passou pelo sistema com quem não passou.

Nenhuma dessas perguntas desfaz o que senti na visita. Elas são o passo seguinte para qualquer empresa que queira usar uma tecnologia assim no Brasil. O setor financeiro já enfrenta a mesma decisão com agentes de IA na análise de crédito, sistemas que executam tarefas sozinhos.

Os quatro termos que aprendi em Israel

Na lista do começo, citei quatro palavras que voltavam em toda conversa. Juntas, elas explicam boa parte do jeito israelense de trabalhar:

  • Tachles: gíria que veio do iídiche, a língua dos judeus da Europa Central e Oriental, e quer dizer ir direto ao ponto, o “vamos ao que interessa” de uma reunião (origem e uso).
  • Chutzpah: ousadia, para o bem e para o mal (verbete). No ecossistema de startups, é a coragem de questionar quem manda e de tentar o que parece impossível.
  • Centauro: empresa de tecnologia com receita acima de US$ 100 milhões por ano. A Autoridade de Inovação de Israel usa o termo ao lado de unicórnio, startup avaliada em mais de US$ 1 bilhão (relatório de 2025).
  • Chief of Staff corporativo: o braço direito executivo do CEO, que coordena o trabalho da diretoria e faz a ponte com o resto da empresa, como um controlador de tráfego aéreo (Harvard Business Review).

O que levo de Israel para a cultura de inovação

Quando levo Israel para treinamentos de inovação, abro com duas perguntas: quais fatores da cultura brasileira favorecem o empreendedorismo, e que componentes de inovação já temos aqui? A comparação fica mais útil quando sai do “eles são melhores” e vai para o que cada cultura treina.

Os dois países se encontram no improviso e nas redes de confiança: brasileiros e israelenses resolvem muita coisa pelo contato pessoal e pela capacidade de dar um jeito.

Eles se separam em dois pontos. Lá, contestar abertamente quem manda é esperado, a ponto de um militar contestar o superior sem punição, como conto no Dia 2. E o erro de quem tentou é tratado como aprendizado, não como culpa.

Quando o orçamento aperta numa empresa brasileira, o pouco que existe dessas duas atitudes é o primeiro a sumir. Para medir a primeira, repare se alguém discorda de quem manda antes da próxima decisão difícil, ou se o chefe fala primeiro e o resto só concorda. Para a segunda, lembre o que aconteceu com a última pessoa que tentou algo e não deu certo: o caso foi revisado ou virou caça ao culpado?

Detalhei como medir cada uma delas, sem pesquisa de clima, em A cultura da inovação que sobrevive ao aperto.

Por onde começar

Escolha uma proposta que a sua equipe já descartou por parecer absurda, do jeito que eu torci o nariz para a Facetrom nos primeiros minutos da apresentação. Antes de dar o veredito de novo, faça uma pergunta: qual teste pequeno mostraria se ela funciona?

O teste deve durar um mês e ser barato o bastante para que quem o propôs possa aprová-lo sozinho. Escreva antes o resultado que confirma a ideia e o que a derruba, como a Facetrom fez ao mostrar aprovação e inadimplência lado a lado.

Se ninguém conseguir desenhar o teste, a proposta provavelmente era fraca mesmo. Se ele aparecer em dez minutos, o descarte anterior pode ter sido preconceito. Nesse caso, rode o teste e leve o resultado, não a opinião, para a reunião seguinte.

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Perguntas frequentes sobre a Startup Nation

Por que Israel é chamado de Startup Nation?

O apelido vem do livro Start-up Nation: The Story of Israel’s Economic Miracle, de Dan Senor e Saul Singer, lançado em 2009. O nome pegou porque Israel tem uma das maiores quantidades de empresas de tecnologia por habitante do mundo. Em 2022, eram mais de 9 mil empresas de tecnologia ativas num país de cerca de 9 milhões de pessoas. Israel também é o terceiro país com mais empresas na Nasdaq, atrás de Estados Unidos e China.

Quantas startups existem em Israel?

Depende da régua. Israel tinha 9.484 empresas de tecnologia ativas em 2022, número que inclui empresas que já faturam mais de US$ 10 milhões por ano. No ritmo de criação, cerca de 775 startups novas foram fundadas em 2025, a primeira alta depois de uma década de queda.

O que a Facetrom faz?

A Facetrom é uma startup israelense que estima o risco de crédito de uma pessoa a partir de uma única foto do rosto. O alvo são pessoas sem histórico de crédito, que costumam ter o empréstimo negado por falta de dados. Na apresentação que vi em 2023, a empresa afirmou elevar a aprovação de crédito de 20% para 67% e reduzir a inadimplência de 4% para 2,3%.

Usar reconhecimento facial para conceder crédito é permitido no Brasil?

Não há proibição específica, mas a LGPD trata dado biométrico como dado pessoal sensível, que só pode ser coletado e usado nos casos previstos no artigo 11. O Brasil ainda não tem lei geral de IA: o projeto de lei 2338/2023 espera análise na Câmara. Na União Europeia, o AI Act classifica a avaliação de crédito de pessoas físicas como uso de alto risco. Na prática, quem bate o martelo é o jurídico, com as respostas do fornecedor na mão.

O que uma empresa brasileira pode aprender com a cultura de inovação de Israel?

Duas coisas que o Brasil faz menos: discordar de quem manda antes da decisão, e tratar a tentativa que falhou como aprendizado, não como culpa. No serviço militar, o soldado pode contestar o comandante sem punição, e o hábito chega às empresas. O Brasil tem a seu favor o improviso e as redes de confiança. O teste mais simples é pegar uma ideia que parece absurda e pedir os dados antes do veredito, ou testar por um mês.


Edney “InterNey” Souza atua com tecnologia desde 1990 como professor, palestrante e Conselheiro Consultivo em Tecnologia, IA, Dados e Inovação. Participou da criação de sete startups ao longo da carreira. É professor na ESPM, Insper, PUCRS, USP e IBGC. É autor de vários e-books gratuitos sobre tecnologia, marketing, liderança e inovação, disponíveis aqui.


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