Atualizado em outubro/2026.

O que você vai aprender aqui

  • Cidades inteligentes usam câmera, sensor, conectividade e dado para que o serviço público decida mais rápido: abrir o semáforo, mandar a viatura, trocar a lâmpada antes de queimar.
  • O que a Huawei mostrou na Futurecom de 2016, feira de tecnologia e telecomunicações, e o que daquela demonstração já roda nas ruas, a começar pelas 50 mil câmeras do Smart Sampa.
  • O que ficou no slide: a integração entre todos os órgãos da cidade e a central de processamento que a prefeitura dividiria com o hospital.
  • Como está a regra: a LGPD, lei de proteção de dados pessoais, deixa a segurança pública de fora, a Câmara aprovou em agosto de 2026 limites ao reconhecimento facial e a Europa proíbe o uso policial em tempo real desde 2025, salvo exceções.
  • Quatro perguntas para fazer antes de apoiar, vender ou operar um projeto de cidade inteligente.

Cidades, setor público e justiça formam um dos capítulos do meu livro O Mapa do Explorador, que reúne mais de 200 tendências de tecnologia que não envelhecem com a próxima manchete. No capítulo, eu mostro onde o Brasil saiu na frente em governo digital e onde ainda anda devagar em cidade inteligente.


Em outubro de 2016, a convite da Huawei Brasil, acompanhei a Futurecom, evento de tecnologia da informação e telecomunicações em São Paulo. Numa das palestras, um vídeo mostrava uma câmera de trânsito achando um carro suspeito, seguindo o veículo de câmera em câmera e voltando nas gravações para descobrir de onde ele tinha saído.

Escrevi naquela mesma semana que as cidades inteligentes iam mudar nosso futuro. Dez anos depois, a câmera que segue o carro já roda nas ruas de São Paulo. Na maioria das cidades, aquela em que polícia, trânsito e hospital trabalham no mesmo sistema continua no slide.

O que é uma cidade inteligente, na prática

Pense no semáforo da esquina da sua casa. Numa cidade comum, ele abre e fecha no mesmo ritmo o dia inteiro. Numa cidade inteligente, um sensor conta os carros, a central percebe a fila e o tempo do verde muda sozinho.

Cidade inteligente é isso em escala: coletar dado em tempo real, cruzar numa plataforma e devolver uma decisão ao serviço público. Plataforma, aqui, é o sistema que junta num só lugar os dados de várias fontes. O dado vem de câmera, sensor de trânsito, medidor de energia ou aplicativo do cidadão. Smart city é o mesmo conceito em inglês.

Qual cidade brasileira chega mais perto disso? A referência mais citada no Brasil é o Ranking Connected Smart Cities. Na edição de 2025, que avaliou os 5.570 municípios em 13 áreas, Vitória (ES) ficou em primeiro lugar, à frente de Florianópolis, Niterói, São Paulo e Curitiba. A edição 2026 do ranking tem lançamento marcado para 16 de novembro, segundo a ABES.

Repare nas áreas: saúde, educação, saneamento, habitação e segurança pesam ao lado de telecomunicações e inovação. Traduzindo: cidade que ainda não resolveu esgoto e posto de saúde não vira inteligente comprando câmera.

O que eu vi na Futurecom de 2016

A palestra que me fez escrever o post original foi a de Edwin Diender, na época executivo da Huawei responsável por cidades inteligentes.

Ele começou pela ligação para a polícia. Imagine que você precisa fazer uma: explica quem é, onde está e o que está acontecendo, e quase todo o tempo da ligação vai nessas explicações.

A proposta dele era um aplicativo que já mandasse identidade e localização e deixasse o cidadão enviar foto, vídeo ou transmissão ao vivo. Num segundo passo, a central acessaria as câmeras públicas mais próximas, as de segurança e as de trânsito, para ver a cena.

O terceiro passo foi o que mais me impressionou. Um sistema de reconhecimento de imagem identificava pessoas e veículos e os seguia pelas câmeras da região. Filmei parte da demonstração:

Diender também falou de hospital. Uma máquina de ressonância magnética que leva 45 minutos para processar as imagens atrasa o diagnóstico e deixa o médico esperando. Com uma central de processamento compartilhada pela cidade, a máquina ganharia capacidade extra e o exame sairia antes.

Como prova, ele apresentou Hefei, na China, onde o sistema de segurança estava em teste. Segundo os números do próprio fornecedor, mostrados no palco, a taxa total de crimes caiu 30% e o tempo de resposta da polícia passou de 10 para 4,5 minutos.

Slide da huawei na futurecom 2016 com resultados de segurança pública em hefei, caso de cidades inteligentes
Slide da apresentação da Huawei na Futurecom 2016 com os resultados de Hefei.

A internet das coisas, os objetos conectados que mandam dado sozinhos, apareceu em quase todo debate do evento:

Fechei o texto de 2016 com uma frase que continua de pé: cidades inteligentes vão exigir gestores e orçamentos inteligentes.

O que avançou nas cidades inteligentes do Brasil em dez anos

O que avançou mais rápido foi exatamente a demonstração que me impressionou. O Smart Sampa, da Prefeitura de São Paulo, reúne 50 mil câmeras e chegou em agosto de 2026 a 3.500 foragidos da Justiça identificados e presos desde que começou a operar, em 2024.

Das 50 mil câmeras, 20 mil são da prefeitura, com reconhecimento facial, e 30 mil são privadas e integradas ao sistema. O rosto captado é comparado com bancos oficiais de mandados de prisão, e o alerta vai para a Guarda Civil Metropolitana. A maior parte do que o sistema enxerga vem de câmeras privadas.

No Rio, o Centro de Operações e Resiliência (COR), criado em 2010, põe na mesma sala trânsito, guarda municipal, ordem pública, limpeza urbana e polícia militar para acompanhar a cidade em tempo real. É a central integrada que o Diender descrevia, aplicada à operação do dia a dia.

A conectividade também mudou de dono. No debate da Futurecom de 2016, ouvi que uns 2.200 pequenos provedores atendiam 4,5 milhões de brasileiros. Hoje, segundo a Anatel, a agência que regula as telecomunicações, os provedores de pequeno porte são os únicos a oferecer banda larga fixa em cerca de 33% dos municípios. Banda larga fixa é a internet por cabo que chega a casas e empresas.

Sem esse provedor do interior, o sensor de uma cidade pequena não teria por onde mandar o dado. Num projeto de cidade pequena, eu começaria perguntando quem leva o dado do sensor até a central e o que acontece quando essa conexão cai.

A rede elétrica começou a ganhar medidores que enviam o consumo sozinhos e sistemas que preveem quanta energia a cidade vai usar, num ritmo mais lento do que se prometia. Carro elétrico, carregador e robotáxi, o táxi sem motorista, formam outra frente urbana que andou.

O que ficou no slide

Pense num acidente com vítima numa avenida. A câmera de trânsito registra, o pedido de ambulância chega por telefone, a polícia é chamada por outro canal e cada órgão anota o caso no próprio sistema. A principal promessa de 2016 era acabar com isso, pondo polícia, trânsito, bombeiros, hospitais e escolas no mesmo sistema. A maioria das cidades ainda está no básico, com câmera e sensor instalados e cada órgão lendo os seus.

Por que a integração não saiu? Cada secretaria tem o próprio cadastro, com o mesmo cidadão escrito de jeitos diferentes e sem um dono claro do dado. Integrar sistemas sem resolver o cadastro só espalha o erro mais depressa.

Antes de qualquer integração, eu recomendo duas perguntas: o mesmo cidadão tem um identificador único em todas as secretarias, e quem corrige o dado quando ele está errado? Se ninguém responde pelo dado, o primeiro projeto é arrumar o cadastro.

E a ressonância que demorava 45 minutos? A capacidade extra chegou por outro caminho. O hospital que precisa de mais processamento hoje aluga de um fornecedor privado pela internet, na chamada nuvem, sem esperar a prefeitura montar uma central. A nuvem resolve a espera do exame e abre outra pergunta: quem controla essa infraestrutura.

O bairro inteligente construído do zero também recuou. Em maio de 2020, a Sidewalk Labs, empresa do grupo do Google, desistiu do projeto Quayside em Toronto. A desistência veio depois de anos de disputa sobre quem seria dono do dado coletado nas ruas. A empresa atribuiu a decisão à incerteza econômica da pandemia.

Para quem planeja um projeto no Brasil, a lição está na disputa: quem fica com o dado das ruas se decide antes da obra.

Algumas ideias pequenas sobreviveram melhor que as grandes. No SXSW de 2015, festival de inovação em Austin, nos Estados Unidos, vi um palestrante mostrar um semáforo que espera mais quando passa alguém com dificuldade de locomoção. Em Singapura, o Green Man+ faz isso há anos: o idoso ou a pessoa com deficiência encosta o cartão no poste e ganha até 13 segundos a mais de sinal verde, em mais de mil travessias.

O preço da cidade que enxerga tudo

Imagine sair do metrô e ser parado pela Guarda porque o sistema confundiu o seu rosto com o de um foragido. O mesmo sistema que acha o foragido pode levar a Guarda até a pessoa errada. Isso acontece com imagem ruim, com banco de procurados desatualizado e com programa que acerta menos em alguns rostos do que em outros.

No primeiro ano de uso do reconhecimento facial pela polícia em cinco estados, em 2019, 90,5% dos presos identificados pelas câmeras eram negros, segundo levantamento da Rede de Observatórios da Segurança. A câmera reproduz, em escala, o padrão do policiamento que já existia.

E a LGPD, a Lei Geral de Proteção de Dados, não protege o cidadão nesse caso? Ela não se aplica ao tratamento feito para fins exclusivos de segurança pública. Tratamento, na lei, é qualquer uso do dado pessoal, e o artigo 4º deixa a segurança pública para uma lei própria. Na prática, o reconhecimento facial nas ruas cresceu antes de existir uma regra nacional para ele.

Essa regra começou a andar. Em agosto de 2026, a Câmara aprovou o PL 1828/2023, projeto de lei que autoriza câmeras com reconhecimento facial em transporte, vias e prédios públicos. O texto aprovado também:

  1. Proíbe a vigilância em massa.
  2. Exige validação humana antes de qualquer punição.
  3. Pede tecnologia certificada contra erro de identificação.

O projeto está no Senado, ainda no início da tramitação.

Para quem vende ou opera esse tipo de sistema, eu recomendo tratar desde já a validação humana e a certificação como requisito do projeto. Se o texto virar lei, o sistema que não tiver as duas vai precisar ser refeito.

A lei geral de inteligência artificial anda mais devagar. O PL 2338/2023, aprovado no Senado em dezembro de 2024, segue na Câmara à espera do parecer do relator.

Lá fora e aqui: dois caminhos para a mesma câmera

A Europa decidiu antes de escalar. O regulamento europeu de inteligência artificial proíbe desde 2 de fevereiro de 2025 que a polícia identifique pessoas em tempo real, em espaço público, por traços do corpo como o rosto captados à distância. As exceções são busca de vítima e de desaparecido, risco imediato à vida e suspeito de crime grave, sempre com autorização prévia de juiz ou autoridade independente.

Aqui, a câmera chegou primeiro. São Paulo já tinha dezenas de milhares de câmeras com reconhecimento facial quando a Câmara votou o primeiro projeto de lei nacional sobre o tema. A conta do erro, por enquanto, fica com quem é abordado por engano.

Por onde começar

Para entrar nessa discussão, basta estar na sala quando o projeto for apresentado, como servidor, fornecedor ou empresa que vai ligar as próprias câmeras a um programa público. Eu recomendo levar quatro perguntas para essa reunião.

Qual decisão esse dado vai acelerar, e quem toma essa decisão hoje? A resposta boa nomeia uma decisão concreta, como abrir o semáforo ou mandar a viatura, e o cargo de quem a toma. Se a resposta for “melhorar a gestão”, ou se ninguém souber quem decide, o dado vai ser coletado sem ter para onde ir.

Qual é a taxa de erro medida do sistema, e o que acontece com quem ele aponta por engano? Eu só aceitaria um número medido na própria cidade e o nome de quem confere o alerta antes da abordagem. Número de catálogo do fornecedor, ou um “o sistema é muito preciso”, não serve para decidir.

Quem é dono do dado e da plataforma, e quanto custa trocar de fornecedor daqui a cinco anos? A resposta boa está no contrato: o dado pertence ao órgão público, sai num formato que outro sistema consegue ler e o custo de saída foi estimado antes da assinatura. Sem isso, o projeto vira dependência de um fornecedor só.

Qual número vai dizer, no fim do piloto, se o projeto funcionou? Piloto é o teste em pequena escala antes de levar o projeto à cidade inteira. Peça quatro coisas por escrito: o valor de hoje, a meta, quem mede e o que acontece se a meta não vier, inclusive encerrar o piloto. Eu recomendo que quem mede seja alguém de fora do fornecedor.

Os números de Hefei vieram de quem vendia o sistema. Projeto público sem métrica definida antes do piloto acaba avaliado pelo próprio fornecedor.

Se uma pergunta ficar sem resposta, eu recomendo segurar a aprovação ou a renovação até a resposta existir. Quem não decide pode pedir que a pergunta entre na ata da reunião, com um responsável por responder. Do lado de quem vende, o melhor é chegar à reunião com as quatro respostas prontas, porque são elas que o comprador cuidadoso vai cobrar.

Como cidadão, você pode fazer as mesmas perguntas à sua prefeitura pela Lei de Acesso à Informação. O pedido vai pelo serviço de informação ao cidadão, em geral no portal da transparência.

Mande uma pergunta por pedido, para não receber resposta genérica. Se o pedido for negado, a lei garante recurso em até 10 dias. A resposta da prefeitura fica registrada como documento oficial, e serve para cobrar a gestão na próxima eleição municipal.

Comunidade no WhatsApp: as tecnologias que vão pesar nos próximos anos, além da IA, saem todo dia no grupo Inovação e Tendências, sempre com a fonte. Veja como entrar no grupo.

Perguntas frequentes

O que é uma cidade inteligente? Cidade inteligente é a que coleta dado em tempo real, por câmera, sensor, medidor ou aplicativo. Ela junta esses dados num mesmo sistema e devolve uma decisão ao serviço público, como trocar a lâmpada do poste antes de ela queimar.

Quais são as cidades mais inteligentes do Brasil? No Ranking Connected Smart Cities 2025, que avaliou os 5.570 municípios brasileiros em 13 áreas, Vitória (ES) ficou em primeiro lugar, seguida de Florianópolis, Niterói, São Paulo e Curitiba. A edição 2026 do ranking tem lançamento marcado para 16 de novembro de 2026. As áreas incluem saúde, educação, saneamento e segurança, além de tecnologia.

Como funciona o Smart Sampa? O Smart Sampa é o programa de monitoramento por câmeras da Prefeitura de São Paulo. Reúne 50 mil câmeras: 20 mil da prefeitura, com reconhecimento facial, e 30 mil privadas ligadas ao sistema. Os rostos captados são comparados com bancos oficiais de mandados de prisão. Até agosto de 2026, a prefeitura informou 3.500 foragidos identificados e presos com ajuda do sistema.

Reconhecimento facial em espaço público é permitido no Brasil? Hoje não existe lei nacional específica, e a LGPD, lei de proteção de dados pessoais, não vale para o uso de dados feito só para segurança pública. Em agosto de 2026 a Câmara aprovou o PL 1828/2023, que autoriza o uso em transporte, vias e prédios públicos, proíbe a vigilância em massa e exige validação humana antes de qualquer punição. O projeto está no Senado.

Quais são os riscos das cidades inteligentes? Os três riscos que mais aparecem são o erro de identificação, que pode levar a Guarda até a pessoa errada, o dado pessoal concentrado sem regra de acesso e a dependência de um único fornecedor, que passa a controlar o sistema da cidade. Antes de apoiar um projeto, pergunte qual é a taxa de erro medida, quem é dono do dado e quanto custa trocar de fornecedor.

Smart city e cidade inteligente são a mesma coisa? Sim. Smart city é o termo em inglês e cidade inteligente é a tradução usada no Brasil.


Edney “InterNey” Souza atua com tecnologia desde 1990 como professor, palestrante e Conselheiro Consultivo em Tecnologia, IA, Dados e Inovação. Participou da criação de sete startups ao longo da carreira. É professor na ESPM, Insper, PUCRS, USP e IBGC. É autor de vários e-books gratuitos sobre tecnologia, marketing, liderança e inovação, disponíveis aqui.


Descubra mais sobre Edney "InterNey" Souza

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

3 comentários em “Cidades inteligentes: o que a promessa de 2016 entregou dez anos depois”

  1. Excelente post….Realmente a tecnologia tem transformado o modo de vida das pessoas e essas mudanças ocorrem cada vez mais rápido.

  2. Muito bom o artigo. Tornar as tarefas mais fáceis de executar e em menor tempo… Não há dúvidas de que a tecnologia inteligente vai trazer mais qualidade de vida para a humanidade!

Os comentários estão encerrados.