Hoje estive na inauguração do Google Campus IPT, em São Paulo. Na entrada do Edifício Adriano Marchini, uma placa de granito com o nome do engenheiro que foi superintendente do IPT de 1939 a 1949, o responsável pela transferência da instituição para a Cidade Universitária. Ao lado da placa, o logotipo do Google iluminado. Essa combinação resume bem o que o lugar é.

TL;DR

  • O Brasil sedia o primeiro Google Safety Engineering Center (GSEC) da América Latina, integrado à rede global de Munique, Dublin e Málaga
  • Tempo médio de detecção de invasão na América Latina: 193 dias (média global: 14 dias)
  • Déficit de ~500 mil profissionais de cibersegurança no Brasil; Google lança trilha SecOps Black Belt em PT-BR
  • Recursos de proteção contra roubo de celular desenvolvidos no Brasil viram padrão global no Android 17
  • Accessibility Discovery Center e Family Link reforçam agenda de segurança de famílias e crianças online

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O prédio histórico, o IPT e o acordo

O Google assinou um acordo de cooperação técnica com o IPT e o governo do estado de São Paulo em 2024, reformou o Edifício 1 do instituto e em troca cedeu ao IPT os espaços que a instituição precisava: biblioteca, maker space e área de arquivo. São 7 mil metros quadrados num prédio que o poder público não teria condição de reformar sozinho. O anúncio original da parceria saiu em fevereiro de 2024.

O resultado é um centro de engenharia para 400 pessoas, que começa a receber os primeiros profissionais em julho de 2026. O Google for Startups Campus, que estava no Paraíso, se muda junto, agora focado em startups de IA, com capacidade para 120 pessoas por semana.

A localização pesa a favor. O IPT fica dentro da Cidade Universitária, ao lado da USP. Engenheiros do Google, pesquisadores e empreendedores vão dividir o mesmo ecossistema. Esse tipo de proximidade física tem histórico de gerar colaboração que não acontece em videochamada.

Edney interney ao lado da totem google campus no pátio interno do edifício adriano marchini, ipt são paulo — maio de 2026
Pátio interno do Google Campus IPT: o prédio histórico dos anos 1940 com a identidade visual do Google.

O Brasil como laboratório de cibersegurança global

O Brasil foi escolhido para sediar o primeiro Google Safety Engineering Center (GSEC) da América Latina, integrado à rede global de GSECs que já existe em Munique, Dublin e Málaga. A escolha tem razão de ser: o Brasil é um dos países mais digitalizados do mundo, com PIX, Gov.br e identidade digital amplamente adotados. Essa penetração cria vetores de ataque que simplesmente não existem em mercados menos digitais.

Os números apresentados hoje colocam o problema em perspectiva. Em 2025, o relatório M-Trends da Mandiant registrou tempo médio global de permanência de um invasor numa rede corporativa em 14 dias. Na América Latina, esse número sobe para 193 dias. Em 22 segundos após o acesso inicial, o atacante já passou o controle para outro ponto da rede. O setor de tecnologia lidera as investigações com 17% dos casos, seguido de serviços financeiros com 14,6%.

Empresas brasileiras ficam quase 14 vezes mais tempo expostas a invasores não detectados do que a média global. A diferença não é de tecnologia disponível. É de equipe, processo e cultura de detecção.

O Android como fronteira de segurança

Uma das apresentações mostrou o que está sendo desenvolvido aqui para depois escalar ao mundo. O Brasil foi o país piloto de vários recursos de proteção contra roubo de celular. Os dados contextualizam por quê: foram 917 mil dispositivos roubados em 2024 só no Brasil.

A cobertura é em camadas: detecção automática de roubo por movimento (Theft Detection Lock), travamento remoto por número de telefone (Remote Lock), bloqueio de apps por fontes desconhecidas com permissões sensíveis, e proteção contra ligações bancárias fraudulentas, desenvolvida em parceria com Itaú e Nubank. O histórico dessas proteções no Android documenta como o Brasil virou laboratório de recursos que hoje chegam ao mundo.

Dois marcos anunciados hoje:

  • A partir do Android 17, os recursos de proteção contra roubo ficam habilitados por padrão em todos os aparelhos do planeta. O que começou como projeto piloto no Brasil vira infraestrutura global.
  • A partir de setembro de 2026, o Brasil está entre as primeiras regiões a receber a verificação de desenvolvedores para apps instalados em dispositivos certificados. Todos os apps precisarão ser registrados por desenvolvedores verificados, dificultando a distribuição de malware anônimo.

O déficit de profissionais e a trilha SecOps Black Belt

O déficit de profissionais de cibersegurança no Brasil chega a aproximadamente 500 mil postos não preenchidos. A trilha Google SecOps Black Belt, disponível em português e espanhol, foi apresentada como parte da resposta. São três níveis: fundamentos (2h), avançado (8h) e a certificação Black Belt (8h), cobrindo arquitetura de operações de segurança, caça a ameaças (threat hunting), construção de playbooks e uso do Gemini no SecOps. O caminho de certificação em Google Cloud Security Operations está disponível para quem quiser começar.

O GSEC também vai colaborar com centros de pesquisa brasileiros. Um exemplo concreto apresentado hoje foi a parceria com o CESAR (Recife), com foco em AI safety e pesquisa em língua portuguesa.

Cobri os anúncios de segurança e IA do Google I/O em Dia 1 e Dia 2. O que aconteceu hoje no IPT é a camada de engenharia e pesquisa que sustenta esses produtos.


Acessibilidade e segurança de famílias online

Acessibilidade e proteção de crianças online raramente aparecem na mesma agenda. O Google colocou os dois no mesmo bloco, e a lógica faz sentido: os dois falam de tecnologia que só funciona quando quem a constrói se preocupa com quem fica de fora.

Accessibility Discovery Center

O Accessibility Discovery Center, também o primeiro da América Latina, tem cinco estações interativas: mobilidade, audição, visão, cognição e gaming. O trabalho é desenvolvido com pesquisadores residentes e diretamente com pessoas com deficiência, não sobre elas. Produto construído com o usuário final tende a resolver o problema real, não a versão que a equipe de engenharia imaginou que era o problema.

Famílias e crianças online

Existem 2,5 bilhões de crianças e adolescentes no mundo. 68% das crianças de 8 anos já têm tablet próprio. A maioria começa a usar dispositivos aos 4 anos. O tempo médio de tela de crianças de 5 a 8 anos é de 3h28 por dia.

A resposta do Google passa pelo Family Link, mas a novidade anunciada hoje vai além do app. A partir do Android 17, os controles parentais ficam integrados diretamente ao sistema operacional: um PIN dá acesso a limite de tela, filtros de apps, horário escolar e filtros de conteúdo Web, sem precisar de aplicativo separado. Os pais também passam a decidir se compartilham a faixa etária do filho com desenvolvedores no Google Play, para que os apps ofereçam experiências adequadas à idade.

O Gemini ganha controle parental no Android e no iOS: os pais decidem se o filho pode usar o assistente de IA, com orientações sobre como apresentar a ferramenta com responsabilidade, incluindo deixar claro que o Gemini não é uma pessoa.

Da apresentação sobre moderação de conteúdo, um número que ficou: o Gemini aplicado à moderação do Google Maps atingiu 99,7% de acurácia contra spam com redução de 90% no custo computacional em relação ao sistema anterior. IA sendo usada para melhorar a qualidade da informação, não só para gerar conteúdo.


O que fica desta inauguração

Trabalho com tecnologia desde 1990. Já vi muita empresa chegar ao Brasil para extrair mercado. O que vi hoje foi diferente: engenharia sendo feita daqui para fora, com o Brasil como piloto, como parceiro de pesquisa, como referência.

Um prédio dos anos 1940 que ganhou nova função sem perder a identidade. Um investimento em segurança digital que começa aqui e escala para o mundo. Uma agenda de acessibilidade que trata tecnologia como infraestrutura, não como diferencial de produto.

Pode não ser garantia de nada. É, ainda assim, um tipo de presença que não existia antes.


Edney “InterNey” Souza atua com tecnologia desde 1990 como professor, palestrante e conselheiro consultivo de empresas em tecnologia e inovação. Fundou sete startups ao longo da carreira. Leciona na ESPM, Insper, USP, PUCRS e IBGC. É autor de vários e-books gratuitos sobre tecnologia, marketing, liderança e inovação, disponíveis aqui.

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