Este artigo é cobertura presencial do Google I/O 2026, nos dias 19 e 20 de maio em Mountain View, Califórnia, a convite do Google. Leia o artigo do Dia 1 aqui.
TL;DR
- Demis Hassabis estima AGI por volta de 2030. O critério não é benchmark: é se a IA consegue fazer descobertas científicas originais como Einstein fez em 1905.
- A missão declarada do DeepMind é resolver todas as doenças da humanidade usando IA. Isso não é PR: é a razão pela qual um dos maiores cientistas do mundo trabalha para uma empresa de tecnologia.
- Antigravity transforma o Google Search em um gerador de aplicativos sob demanda: você pergunta, ele constrói a interface interativa.
- SynthID e C2PA chegam ao Search, Chrome e Lens: rastreabilidade de conteúdo gerado por IA vira padrão de indústria.
- Na robótica, o maior desafio não é fazer o robô caminhar, é ensiná-lo a abrir uma garrafa. A destreza é o novo frontier.
- O grupo de Builders brasileiros que o Google reuniu foi uma das melhores surpresas do evento.
O homem que quer curar todas as doenças
Na tarde do segundo dia, o Google reservou lugar para o grupo de Builders no palco Dialogues, um espaço menor e mais intimista dentro do campus. Demis Hassabis estava lá.
Demis não é o tipo de pessoa que preenche o ambiente com carisma de palestrante. Ele fala devagar, escolhe as palavras com cuidado, e você percebe que cada frase foi pensada. É o fundador do Google DeepMind, ganhou o Nobel de Química de 2024 pelo AlphaFold, e passa boa parte do tempo falando sobre o que vai fazer quando a IA finalmente permitir.
A missão que ele descreveu não é vender mais anúncios. É resolver todas as doenças humanas.
Não disse isso como retórica. Disse como objetivo concreto de pesquisa. O AlphaFold já dobrou a estrutura de todas as proteínas conhecidas (cerca de 200 milhões) e colocou esse banco de dados gratuito na internet. Isso acelerou pesquisa em doenças que antes levavam décadas para avançar. A pergunta que orienta o DeepMind agora é: o que mais a IA consegue resolver se aplicarmos a mesma lógica a outros problemas da biologia, da física, da matemática?
Em mais de 35 anos de tecnologia, você vai se cansando de hypes e promessas vazias. O que o Demis descreveu é diferente: alguém com os recursos, a posição e o histórico para sustentar cada palavra. Alguém que acabou de ganhar o Nobel por fazer exatamente o que havia prometido, falando sobre o próximo problema que quer resolver. Ouvir isso de alguém com os recursos e a posição para fazer acontecer foi uma das experiências mais marcantes dos dois dias.
AGI em 2030: o que Demis realmente quis dizer
No palco Dialogues, em conversa com Mike Allen, do Axios, Demis Hassabis deu o número que todo mundo queria: AGI por volta de 2030, com margem de um ano.
O que importa não é o número. É o critério.
Demis não usa benchmark de mercado como definição de AGI. Ele usa o que chama de “teste Einstein”: a IA seria capaz de produzir descobertas originais equivalentes às que Einstein publicou em 1905? Naquele ano, entre os 25 e 26 anos, Einstein publicou quatro papers que mudaram a física. A Relatividade Especial. O efeito fotoelétrico. O movimento browniano. A equivalência massa-energia.
O teste não é “acerta provas de QI” nem “passa no BAR do advogado” (o BAR é o equivalente americano da prova da OAB no Brasil). A pergunta real é outra: a IA consegue produzir insight científico original que a humanidade não teria sem ela?
Esse critério importa para qualquer executivo ou gestor que toma decisões baseado em “quanto tempo a IA vai demorar para mudar minha área”. A resposta do Demis é: dependendo de como você define AGI, pode ser que ela já tenha chegado em alguns domínios estreitos, e nos próximos quatro anos essa fronteira se expande para o conhecimento generalizado.
O impacto que ele projeta: a IA vai comprimir para anos o progresso científico que levaria décadas. Se isso se confirmar, não é uma curva de produtividade. É uma inflexão comparável à Revolução Industrial, mas muito maior em escala e muito mais rápida.
A posição do Demis não é otimismo ingênuo. Ele se descreve como “otimista cauteloso”: acredita que os benefícios da IA para a humanidade são reais, mas que precisam ser desenvolvidos com responsabilidade e segurança. Essa tensão, entre o quanto a tecnologia pode fazer e o quanto ela pode fazer errado, ficou clara em cada resposta que ele deu.
A fronteira da IA agora é física

Fui à sessão de Physical AI curioso com o que considero hoje a nova fronteira da inteligência artificial: corpos sintéticos que agem no mundo real.
Na sala estavam Kanishka Rao, Diretor de Pesquisa em Robótica do Google DeepMind, e Alberto Rodriguez, Diretor de Robótica Comportamental do Atlas no Boston Dynamics, mediados por Jacklyn Dallas, fundadora do canal NothingButTech. O Boston Dynamics é hoje parte do grupo Google.
O que aprendi nessa sessão me fez avaliar diferente.
Quando alguém mostra um vídeo de cem robôs dançando sincronizados, aquilo é engenharia de locomoção bem resolvida, não inteligência geral. O equilíbrio e a caminhada de robôs humanoides já são problemas essencialmente resolvidos. O que ainda não foi resolvido, e que é o problema mais difícil da robótica física, é a destreza: a capacidade de manipular objetos do mundo real com a precisão e a adaptabilidade de um ser humano.
Abrir uma garrafa. Separar a roupa branca da colorida sem rasgar nada. Pegar uma chave de fenda com força adequada sem apertar demais. Descascar um ovo. Essas tarefas que qualquer criança aprende entre dois e cinco anos são, hoje, desafios de pesquisa aberta em robótica.
O motivo é contraintuitivo: nós usamos o tato muito mais do que a visão para manipular objetos. Você abre um pote sem olhar para a mão. Você sente quando a pressão está certa. Os modelos de robótica atuais são todos baseados em visão, porque há muito mais dados de imagem do que dados de toque. E simular a física do contato com precisão suficiente para treinar destreza ainda está fora do alcance.
A conexão com o que o Demis disse ficou visível ali. Os modelos Omni do Gemini, que entendem física do mundo real para gerar vídeos consistentes, são os mesmos que vão eventualmente dar às mãos de um robô a intuição que hoje está só nos dedos humanos. A IA de vídeo e a robótica física não são projetos separados: são o mesmo projeto, avançando em paralelo.
Estimativa honesta dos pesquisadores: 5 a 10 anos para robôs humanoides em ambientes domésticos, com as tarefas mais simples primeiro.
Antigravity: o Google Search vira uma fábrica de aplicativos

O anúncio com maior impacto estratégico para quem trabalha com produto, UX e marketing foi o Antigravity no Search.
O conceito é simples de explicar e difícil de assimilar: quando você pesquisa algo no Google hoje, recebe links. Em breve, vai receber uma interface interativa construída para a sua pergunta específica.
A resposta deixa de ser um link para um dashboard de fitness: vira um dashboard de fitness gerado para você, com as academias do seu bairro, sincronizado com seu calendário, na hora em que você pediu. A resposta para “como planejar um casamento” deixa de ser uma lista de links: vira o planejador montado ali, com os dados que o Google já tem.
A tecnologia que viabiliza isso é o Antigravity, a plataforma de agentes do Google, agora integrada ao Search com o Gemini 3.5 Flash. O Gemini 3.5 Flash, por sinal, é o melhor modelo que o Google já lançou, e ele supera o Gemini 3.1 Pro em quase todos os benchmarks, mesmo sendo um modelo da linha Flash, mais rápido e mais barato.
Na Fireside Chat com Builders, Logan Kilpatrick (que lidera o Google AI Studio), Tulsee Doshi (Senior Director e Head of Product do modelo Gemini no Google DeepMind), Josh Woodward (VP de Google Labs, Gemini e AI Studio) e Robby Stein (VP de Produto do Search) descreveram esse movimento de uma forma que ficou comigo: “O Search está se tornando um gerador de aplicativos sob demanda.” Qualquer usuário, sem código, sem ferramenta nova, pode pedir ao Search para construir um dashboard de energia elétrica da casa conectado às suas contas. E o Search vai fazer.
Para quem pensa em SEO: o tráfego via links azuis vai continuar caindo. Esse não é mais um risco futuro. É a direção oficial do produto.
Para quem pensa em produto e UX: o Search está absorvendo o trabalho que antes demandava equipe de desenvolvimento, design e infraestrutura.
Disponibilidade: UI generativa básica no Search chega no verão americano de 2026 (junho a agosto, no Brasil), gratuita para todos. Mini-apps com Antigravity completo chegam nos próximos meses para assinantes Google AI Pro e Ultra nos EUA.
SynthID e C2PA: a rastreabilidade de conteúdo gerado por IA vira padrão
Anunciado no Dia 1 da keynote, este foi o item que reservei para aprofundar aqui: o anúncio mais silencioso do Google I/O tem o maior impacto regulatório de médio prazo.
O SynthID marca conteúdo gerado por IA com uma marca d’água invisível. O C2PA, padrão aberto da indústria, vai um passo além: registra o histórico completo de criação de uma imagem, vídeo ou áudio com assinatura criptográfica verificável: quem criou, quando, com qual ferramenta, o que foi editado.
A partir do Google I/O 2026, essas tecnologias chegam ao Google Search (já a partir desta semana), Chrome desktop e mobile, Circle to Search e Google Lens. Para empresas, o Google Cloud lança uma API de detecção enterprise. A adoção da indústria é crescente: OpenAI, Nvidia, ElevenLabs e Kakao já adotaram SynthID. O Meta firmou parceria com o Google para que imagens capturadas por Pixel recebem label automático de autenticidade no Instagram.
A escala já é impressionante: mais de 100 bilhões de imagens e vídeos marcados desde o lançamento, o equivalente a 60 mil anos de áudio processado.
Para quem trabalha em comunicação corporativa, jurídico ou compliance: rastreabilidade de conteúdo gerado por IA vai entrar nas agendas de governança nos próximos 12 meses. A pergunta não é “isso vai acontecer”, mas “a empresa está se preparando para quando for obrigatório”.
Docs Live: a barreira entre pensar e registrar some
Também anunciado no Dia 1, este é outro item que ficou para aprofundar aqui. Menor em destaque na keynote, mas com impacto direto para quem trabalha com criação de conteúdo, educação e consultoria.
O Docs Live é um modo de voz no Google Docs que age como um parceiro de pensamento. Você fala e ele estrutura, organiza e já puxa dados automaticamente do seu Gmail e Drive. Diz “cria um roteiro de viagem” e ele já busca as confirmações de reserva no Gmail sem você precisar fazer nada. Aceita comandos verbais para editar: ajustar tom, adicionar seções, cortar trechos. Completamente mãos-livres.
Para professores, consultores, gestores que passam horas transformando pensamentos em documentos: a barreira entre pensar e registrar está desaparecendo.
Disponibilidade: verão americano de 2026 (junho a agosto, no Brasil), no Google Docs para Android e iOS, para assinantes Google AI Pro e Ultra, em inglês globalmente.
O que o Google está construindo, de verdade
No Dia 1, a impressão era de velocidade: muitos lançamentos, modelos melhores, ferramentas mais capazes. No Dia 2, temos outra narrativa.
O Google não está correndo para lançar o mais espetacular. Está construindo o mais útil, o mais seguro, o que vai impactar bilhões de pessoas de forma positiva, e não somente milhares de early adopters.
Essa intenção ficou transparente em todo o segundo dia. No Demis falando sobre resolver doenças, não sobre dominar o mercado. Na Fireside, quando Josh Woodward descreveu como o Gemini está sendo desenvolvido para ser acessível a quem nunca vai usar um modelo diretamente. Na sessão de robótica, quando os pesquisadores foram honestos sobre o que ainda não funciona, em vez de só mostrar o que funciona.
Uma empresa que controla dos chips à interface de usuário, que tem a escala do Google, fazendo essa escolha, consciente ou não, muda a equação.
O grupo que o Google reuniu
Parte do que tornou esses dois dias memoráveis foi o grupo.
O Google reuniu Builders brasileiros que eu não conhecia na maioria dos casos. Em dois dias de sessões, refeições, happy hours e conversas no ônibus, algo aconteceu que há tempos não experimentava: aprendi e ensinei ao mesmo tempo. Ouvi pessoas que me surpreenderam. Descobri projetos que não sabia que existiam. Fui questionado de formas que me fizeram pensar diferente.
Parecia um grupo de amigos que eu tinha escolhido a dedo para uma viagem, mas que o Google tinha escolhido por mim.
Estavam lá: Allan Pscheidt, André Simões, Bruno Farias de Souza, Elisa Terumi, Giselle Santos, Gustavo Guanabara, Hallison Paz, Jony Lan, Kizzy Terra, Leo Candido, Luiz Zaka, Nina Talks, Paulo Aguiar e Paulo Tenório.
O cuidado da equipe do Google com esse grupo, a atenção, o espaço, as conversas abertas com os próprios executivos que desenvolvem os produtos. Josh Woodward comentando sobre o feedback específico que recebeu de brasileiros na plateia. Tulsee (que lidera o time de modelos do DeepMind) sendo direta sobre o que ainda não está resolvido. Esse tipo de coisa não acontece em eventos normais.
Esse é o tipo de coisa que nenhuma transmissão ao vivo, nenhum resumo de newsletter, nenhum artigo consegue substituir. Estava lá. E valeu.
Assista ao documentário sobre o Demis Hassabis
Se você quer entender de onde vem o projeto do Demis, o documentário The Thinking Game está disponível gratuitamente no YouTube, já com mais de 200 milhões de visualizações. Produzido pela mesma equipe do premiado documentário do AlphaGo, acompanha o Google DeepMind ao longo de cinco anos, incluindo o momento em que a equipe descobriu que havia resolvido o AlphaFold, um desafio científico de 50 anos que levou ao Nobel.
São 90 minutos. Recomendo fortemente para quem quer entender o que distingue o DeepMind de qualquer outro laboratório de IA.
Onde começar
O Google I/O 2026 Dia 2 é um bom momento para três exercícios práticos:
1. Teste o Antigravity no Search. Acesse g.ai, o link direto para o AI Mode do Google Search. Faça uma pergunta complexa, peça para ele construir algo interativo. Experimente antes de julgar.
2. Verifique sua política de conteúdo gerado por IA. Com SynthID e C2PA chegando ao Search e Chrome, rastreabilidade vai virar expectativa de mercado antes de virar obrigação regulatória. Vale saber, hoje, que posição sua empresa vai ter quando o marcador for obrigatório.
3. Assista ao documentário. The Thinking Game no YouTube. Gratuito. 90 minutos. A melhor contextualização disponível para entender para onde o DeepMind está indo.
Se quiser descobrir quais cursos da ESPM fazem mais sentido para aprofundar IA e tecnologia na sua trajetória, o Consultor de Carreira é um agente de IA que indica os cursos da minha curadoria conforme o seu perfil.
Edney “InterNey” Souza atua com tecnologia desde 1990 como professor, palestrante e conselheiro consultivo de empresas em tecnologia e inovação. Fundou sete startups ao longo da carreira. Leciona na ESPM, Insper, USP, PUCRS e IBGC. É autor do livro gratuito Engenharia de Prompts na Prática: do Zero ao Avançado com ChatGPT, Gemini e Claude.
Fontes:
