Estou começando meu terceiro dia no South by Southwest. Dois dias de evento já permitem algumas impressões iniciais.
Este texto é um registro dessas primeiras percepções. Uma caminhada pelas salas de palestra, pelos corredores, pelas conversas e por um documentário que acabou conectando muitas das reflexões que surgiram nesses dias.
Quando a tecnologia deixa de ser novidade
A análise da programação já indicava um padrão. Algumas tecnologias emergentes praticamente desapareceram da agenda. Computação quântica por exemplo sumiu, enquanto que Inteligência artificial está presente em 20% das sessões de forma direta ou indireta.
Quem estuda tecnologia todos os dias percebe outro efeito. O evento deixa de ser um lugar para descobrir novidades tecnológicas no sentido mais técnico.
A conversa muda de lugar: o foco passa a ser entender como essas tecnologias estão impactando trabalho, educação, liderança, consumo e relações humanas.
Existe uma razão simples para isso: empresas não podem mais esperar um grande evento anual para anunciar inovações. O ciclo competitivo encurtou. Produtos precisam ser lançados, testados e ajustados rapidamente para conquistar mercado.
Quando uma tecnologia chega ao palco de uma conferência, muitas vezes ela já está no produto, no mercado e na conversa pública.
O SXSW deixa de ser apenas um lugar para assistir palestras. Ele passa a ser um lugar para observar pessoas.
O valor das conversas fora das salas
Nada substitui as conversas que acontecem fora das salas.
Corredores. Cafés. Filas. Encontros improvisados.
Tenho aproveitado esses momentos para perguntar duas coisas muito específicas.
1) Quais problemas as pessoas estão vivendo nas suas áreas no Brasil? Muitos brasileiros estão aqui. Uma comunidade bastante presente no evento.
2) O que cada um veio buscar no SXSW?
A partir do segundo dia surge outro tipo de conversa. As pessoas já assistiram palestras, painéis e debates. Começam a aparecer interpretações, incômodos e entusiasmos.
Ontem ouvi uma pergunta simples (mas poderosa) durante uma conversa.
Como você se sentiu com isso?
Existe uma dimensão frequentemente ignorada nas discussões sobre tecnologia.
Sentimento.
Como as pessoas se sentem em relação à tecnologia costuma ser um dos maiores obstáculos dentro das empresas. Estratégias tecnológicas são desenhadas de forma racional. A adoção acontece em um território muito mais humano.
Consumidores também têm sentimentos sobre tecnologia. Esses sentimentos influenciam confiança. Influenciam adoção. Influenciam expectativa.
AI nas empresas: a menor barreira é a técnica
Ontem de manhã participei de um café da manhã como convidado. Dois palestrantes do SXSW estavam sendo entrevistados. A conversa foi interessante. Muitas das ideias apresentadas ali eu já tinha ouvido antes. Acompanho esses palestrantes online faz alguns anos.
Usei aquele momento de outra forma. Comecei a conversar com os profissionais que estavam ali. Perguntei sobre suas dores, suas dúvidas e suas experiências dentro das empresas.
As conversas chegavam ao mesmo ponto.
Cultura.
Vivemos claramente a era da AI. Pouca gente duvida isso. O desafio aparece quando a empresa tenta incorporar AI no trabalho real.
Para usar AI de forma produtiva, as empresas precisam inovar. Nem sempre com grandes rupturas. Muitas vezes com inovação incremental. Pequenas mudanças na forma de executar tarefas que já existiam.
Uma atividade que antes era feita manualmente passa a ser feita em colaboração com AI.
O humano continua trazendo repertório, julgamento e contexto. A AI acelera, organiza, sintetiza e amplia a capacidade de produção.
O resultado tende a ser um trabalho melhor e mais rápido.
Esse movimento depende de uma cultura de experimentação.
Testar. Ajustar. Aprender.
Empresas que nunca desenvolveram cultura de inovação encontram dificuldade nesse processo.
Sem cultura de dados não existe cultura de AI
Outro ponto de resistência aparece com frequência nas conversas.
Cultura de dados.
Modelos de AI podem alucinar. Existe uma prática simples para reduzir bastante esse risco. Fornecer os dados que devem ser utilizados.
Em vez de pedir que a AI produza algo apenas com base no seu repertório geral, você fornece o material que ela precisa usar.
Uma transcrição de reunião. Um documento interno. Um relatório. Uma base de dados. Um conjunto de normas.
Advogados já usam esse método ao elaborar petições ou contratos. Em vez de confiar que o modelo conhece a legislação atualizada, anexam a lei que deve ser utilizada.
Esse tipo de prática exige outra base cultural.
Dados organizados. Dados atualizados. Dados estruturados.
Essa é a lógica da cultura data-driven.
Essa cultura foi uma das últimas grandes ondas da transformação digital antes da fase atual dominada por inteligência artificial. Muitas empresas também pularam essa etapa. Agora o efeito aparece.
Fala-se muito em AI First.
Uma cultura de AI depende de outras camadas que vieram antes.
Cultura digital. Cultura de inovação. Cultura data-driven.
Quando essas bases não existem, as empresas tentam dar um salto direto para a AI.
O resultado costuma ser previsível. Uso fraco da tecnologia. Expectativas irreais. Aplicações que não melhoram o desempenho da empresa nem a relação com os clientes.
Nas conversas que tive até agora no SXSW, cultura aparece repetidamente como o maior obstáculo.
Um documentário que traz profundidade para essa perspectiva
Ontem à noite decidi explorar outra parte do festival.
Durante muitos anos eu vim ao SXSW focado quase exclusivamente nas palestras. O evento sempre foi mais amplo. Música, cinema, ativações culturais pela cidade. Historicamente ele nasceu como um festival de música e cinema.
Este ano resolvi experimentar o festival de forma mais completa.
Shows. Ativações de rua. Filmes.
Ontem assisti a um documentário que começou com uma história simples.
Um pai prestes a ter o primeiro filho começa a refletir sobre os impactos da inteligência artificial no mundo em que essa criança vai crescer. O que começa como uma inquietação pessoal acaba se transformando em uma investigação que entrevista alguns dos maiores especialistas em AI do mundo.
As opiniões aparecem quase sempre divididas em dois grupos.
1) Os que acreditam que a AI pode levar a humanidade ao colapso.
2) Os que acreditam que a AI pode resolver todos os grandes problemas da humanidade.
A realidade raramente vive nos extremos.
O diretor tenta entrevistar os líderes das empresas que estão construindo as inteligências artificiais mais avançadas do mundo.
Cinco CEOs são convidados.
Sam Altman (OpenAI – ChatGPT), Dario Amodei (Anthropic – Claude), Demis Hassabis (Google Deepmind – Gemini), Elon Musk (xAI – Grok) e Mark Zuckerberg (Llama, Manus – Meta).
Três aceitam participar. Sam Altman, Dario Amodei e Demis Hassabis.
Não vou dar spoilers.
Duas frases do filme ficaram muito fortes.
“We must upgrade the society.” Nós precisamos atualizar a sociedade.
“We must upgrade ourselves.” Nós precisamos atualizar a nós mesmos.
A atualização não é só tecnológica
Essa ideia conectou imediatamente com muitas das conversas que tive nos últimos dias.
Empresas tentando implantar AI sem atualizar suas culturas.
Profissionais tentando usar AI sem atualizar suas habilidades.
A tecnologia em si é uma ferramenta. Ela pode ampliar capacidades humanas ou amplificar problemas existentes.
As decisões das grandes empresas de tecnologia têm impacto enorme nesse processo. Existe outra dimensão menos discutida.
As escolhas individuais.
Quando alguém decide qual sistema de AI utilizar no dia a dia, essa escolha também tem impacto.
Cada escolha fortalece um ecossistema tecnológico.
Cada escolha reforça uma visão de como essa tecnologia deve evoluir.
Esse tipo de decisão consciente exige compreensão. Exige entender como esses sistemas funcionam. Exige observar como seus líderes estão conduzindo o desenvolvimento dessas tecnologias.
Vivemos uma época em que algoritmos influenciam cada vez mais decisões.
Uma forma de reduzir o risco de manipulação é compreender esses algoritmos.
Inteligência artificial também é um tipo de algoritmo.
Quem está no comando?
Outra consequência aparece no mundo do trabalho.
Muitas pessoas utilizam AI apenas fazendo perguntas.
Perguntas produzem respostas que direcionam o pensamento.
Comandos produzem execução.
Quem aprende a comandar sistemas de AI passa a utilizá-los como ferramentas de ampliação de capacidade.
Quem apenas pergunta tende a ser conduzido pelas respostas.
A tecnologia não é neutra. Ela amplia a intenção de quem a utiliza.
Ao caminhar pelo SXSW nesses primeiros dias, uma pergunta ficou mais forte do que qualquer palestra.
Como você está se sentindo em relação à tecnologia hoje.
Esse sentimento nasce da compreensão ou da confusão.
Da autonomia ou da dependência.
Da intenção ou da passividade.
No final, a questão central talvez seja mais simples do que parece.
Você entende tecnologia o suficiente para usá-la como ferramenta.
Ou ela já começou a usar você…
