Tive uma conversa muito enriquecedora com Daniel Chicote no podcast Reflexões Criativas, e decidi transformar essa troca em um artigo para que mais pessoas possam acessar essas ideias.
Minha história se confunde com a própria história da internet no Brasil e ao longo dessas décadas pude observar de perto as transformações, os desafios e as oportunidades que surgiram.
Aqui quero aprofundar alguns pontos que considero fundamentais para entender o presente e o futuro do marketing digital e inteligência artificial, conectando minha experiência pessoal com reflexões sobre carreira e criatividade.
Minha trajetória em marketing digital e inteligência artificial: do início da internet até hoje
Quando comecei, a internet ainda era um território pouco explorado no Brasil. O mundo corporativo engatinhava no digital, e eu já estava lá, desbravando, testando, escrevendo e conectando pessoas.
Sempre entendi que a internet não era apenas uma questão tecnológica, mas sim um fenômeno de comportamento, cultura e, principalmente, um poder de transformação imenso. Ao perceber isso, essa visão me guiou ao longo de toda a minha carreira. Criei um dos blogs mais influentes do país antes mesmo de a palavra “influencer” existir, e tive o privilégio de ser uma peça-chave no desenvolvimento do marketing digital e no alcance da inteligência artificial no Brasil, não só como praticante, mas também como pensador, educador e provocador.
Para mim, a tecnologia sempre começa pelas pessoas. É por isso que falo de tecnologia como quem fala de gente. Essa perspectiva me tornou uma referência em educação, cultura de rede e no impacto das plataformas digitais em nosso cotidiano.
Nunca perdi o bom humor, a curiosidade e o prazer de compartilhar o que sei. E é exatamente isso que pretendo fazer aqui: compartilhar reflexões que considero essenciais para navegar neste cenário em constante mudança.
Internet, gente e arte digital: reflexões de quem viveu a transformação
Uma das coisas que mais me surpreende positivamente na evolução da criatividade digital é a maturidade de entender que o digital oferece novas ferramentas que podem ser utilizadas dentro do contexto criativo.
Não é uma surpresa disruptiva, mas um acalento ver que as pessoas compreendem que o digital é o meio, e não o fim, do processo criativo. Isso já aconteceu com outras mídias antes da internet.
A fotografia, por exemplo, quando surgiu, foi vista com certo desdém, pois “arte é pintar”. Mas com o tempo, percebeu-se que a instantaneidade da fotografia permitia capturar nuances e ângulos que a pintura não conseguia.
Ela se tornou uma arte em separado para aqueles que a enxergavam como um instrumento tecnológico. Da mesma forma, as interfaces em sistemas, as realidades virtuais e imersivas, e agora a inteligência artificial, são ferramentas que permitem novas formas de expressão artística.
Vejo gente do meio artístico questionando se a inteligência artificial é arte. Minha resposta é clara: sim, a inteligência artificial pode ser arte. É uma ferramenta. Se você consegue dar vazão a ideias que conectam o ultra-realístico e o impossível, criando experiências que antes só existiam na imaginação, você está utilizando o potencial da inteligência artificial como expressão artística e criativa.
Isso também reflete o que aprendemos em marketing digital e inteligência artificial: tecnologia é meio, não fim.
Se ela permite expressar sentimentos, emoções, desejos, captar uma nuance, ela é arte. Para mim, esse entendimento de que a realidade virtual, o design digital e a inteligência artificial são ferramentas que permitem novas formas de expressão artística é a evolução mais interessante dentro do contexto da criatividade digital.
Assim como nem toda fotografia é arte, nem toda criação com IA é arte. Porém algumas fotografias são arte sim, assim como também alguns trabalhos criados com IA.
Profissionais ansiosos em vez de criativos em marketing digital e inteligência artificial
Ao longo da minha carreira, acompanhei diversas ondas tecnológicas e seus impactos na publicidade e no marketing. É importante entender que, no mundo digital, as coisas não “morrem” de forma abrupta; elas vão perdendo relevância gradativamente. O rádio e o jornal impresso ainda existem, por exemplo.
A questão é que, dentro de cada área de atuação, algumas técnicas e mídias podem se tornar irrelevantes, enquanto novas surgem com força. Um exemplo claro disso é o TikTok, que foi muito imporante para a campanha eleitoral de Donald Trump nos Estados Unidos. Um político conservador percebeu a relevância de uma mídia nova para alcançar seu objetivo, mostrando que a experimentação é fundamental.
Hoje, as empresas têm uma infinidade de opções: podcasts, webinars, TikTok, Instagram, LinkedIn, Pinterest, X (Twitter). São muitas redes, muitos meios, muitas técnicas. O segredo é voltar às bases: entender o público, pesquisar sobre ele, compreender seu uso de mídias e seus valores, e criar uma estratégia que esteja em conexão com o que esse público é hoje.
Não dá para fazer apostas gerais. Uma aposta óbvia é que a inteligência artificial vai “bombar”. Já uma aposta talvez não tão óbvia é que as redes sociais vão encolher. Por quê? Porque as redes sociais estão gerando uma crise de saúde mental.
A reflexão é que, no contexto do marketing digital e inteligência artificial, é importante treinar profissionais criativos e não apenas ansiosos. As ferramentas digitais aumentam a produtividade, mas também a pressão sobre quem trabalha com elas. Saber dosar e escolher as estratégias certas é uma habilidade essencial.
As pessoas estão viciadas em recompensas rápidas, em dopamina, e se iludem de que estão aprendendo, mas acabam em ansiedade e crise existencial. Quanto mais você se informa por rede social, mais descobre que há coisas acontecendo que você não sabe, e mais quer ficar na rede social para saber. Precisamos romper com essa ilusão de que estaremos bem informados por elas.
Na minha juventude, nos anos 80 e 90, se você assinava um jornal, via o noticiário noturno e lia uma revista semanal, tinha a ilusão de que sabia tudo o que acontecia no mundo. Hoje, qualquer indivíduo tem o potencial de criar uma mídia, e todo país publica sua mídia na internet.
É humanamente impossível absorver tudo isso. Não precisamos saber o que acontece na nossa área de atuação na Croácia ou no Zimbábue. O mercado brasileiro é influenciado pelo que acontece na Europa, China, Estados Unidos, mas não conseguimos olhar tudo.
O processo de curadoria de informação muda, e a rede social não ajuda nisso. Minha forma de me organizar hoje é com newsletters, onde alguém já faz a curadoria. Sei que estou perdendo coisas, e por isso, de tempos em tempos, faço imersões, participando de eventos como o VivaTech Paris, viagens a Israel e China, e o SXSW. Mesmo assim, terei pontos cegos.
Procuro estar muito informado, mas limito isso pelo meu tempo, para regular minha ansiedade. A rede social desregula a ansiedade e não otimiza o tempo na informação.
Embora não vá desaparecer rapidamente, como o jornal e o rádio não desapareceram, sua frequência de uso diminuirá, pois as pessoas perceberão o mal que faz e buscarão outras mídias para se informar com mais qualidade e profundidade, algo que a rede social não oferece.
Concordo que estamos formando profissionais mais ansiosos do que criativos, e tirar a rede social deles para tirar a ansiedade é um desafio que vai além de remédios.
Entre especialistas e generalistas: estratégias em marketing digital e inteligência artificial para construir relevância
Em um mundo com excesso de conteúdo e escassez de atenção, a pergunta que fica é: como construir relevância?
Minha experiência e o que tenho aconselhado a pessoas e marcas que buscam se manter relevantes é o seguinte: você precisa entender onde será profundo e buscar ser o mais profundo possível para o seu público-alvo.
Por exemplo, hoje, a maior parte da minha receita vem de treinamentos para líderes. O que um líder precisa saber sobre inovação, dados e tecnologia, incluindo inteligência artificial? Aqui, aplicar conceitos de marketing digital e inteligência artificial permite conectar conhecimento técnico com a prática de liderança.
Eu preciso saber muito sobre isso, mas no nível suficiente para dar treinamento para a liderança. Não preciso saber treinar uma IA, mas preciso saber explicar o suficiente para um líder entender como uma IA é treinada e o necessário para ele conversar com o cientista de dados que fará isso. Ele precisa saber como se comunicar com os profissionais.
Ou seja, você precisa ter um conhecimento mais transversal. Aquilo que você sabe em profundidade, você precisa comunicar com o mundo.
Preciso conhecer o suficiente sobre como a IA impacta meu negócio, o suficiente para conversar com o cientista de dados.
Para um profissional de marketing conversa, com o financeiro para liberar a verba para investimento, preciso entender um pouco de finanças, um pouco de marketing, um pouco de dados para poder conectar esses tópicos.
Meu cliente está em um contexto onde ele tem que cuidar da saúde, da educação, dos filhos, resolver dilemas como comprar ou alugar, ter carro próprio ou usar Uber.
Tenho que compreender esses dilemas da sociedade no nível mínimo do meu público-alvo para me conectar com ele. Então, há coisas em que preciso ser mais generalista.
Existe uma defesa um pouco exagerada hoje sobre a importância de ser generalista. Ser generalista é importante porque, se não me conecto com o mundo, não entendo qual é a minha proposta de valor para ele. Mas se todo mundo é generalista, quem será profundo? Todo mundo será superficial. Então, você precisa ter profundidade em alguma coisa.
A marca precisa ser a melhor em algo, o profissional precisa ser o melhor em algo. Em algo, você busca altíssima competitividade. Até onde? Esse “profundo” pode ir ao nível de um PhD. Preciso ter PhD em todas as áreas? Não. Tenho que parar onde preciso para conversar com meu público.
Quando a discussão se torna muito técnica em cibersegurança, IA ou dados, e fica complicado para a média e alta liderança da empresa (com quem eu converso), não preciso ir tão fundo.
Preciso ir um degrau a mais, talvez para trocar com alguém mais “nerd”, mas não preciso ir tão fundo, não preciso achar petróleo em todo lugar que entro em profundidade. Essa diversificação é o que recomendo para pessoas e marcas que precisam se manter relevantes no mundo de hoje.
60 dias de férias por ano: meu luxo na era do marketing digital e inteligência artificial
Com o volume de dados e a ansiedade que nos cercam – o Brasil, por exemplo, é o segundo país com mais burnout, como administro minha produtividade e minha saúde mental com tantos projetos? Minha regra é simples: não marco nada aos finais de semana e à noite. Há exceções, claro.
Tenho dois cursos na ESPM, com duas turmas por ano cada. Poderia fazer mais, há demanda, mas é o máximo de noites que estou disposto a bloquear na minha agenda. Nos finais de semana, nunca marco nada, exceto se surgir uma palestra remunerada, que é um tipo de trabalho que ajuda no fluxo de caixa. Mas isso é, no máximo, um sábado por mês.
Atualmente, tenho um projeto, em experimentação, de tirar 60 dias de férias por ano. Este ano, já tirei. Desligar de verdade. Não atendo clientes, não leio sobre tecnologia. Faço trilhas na natureza, vou à praia, visito cidades históricas, passo tempo com a família. São 60 dias de férias por ano. Esse é o meu super luxo.
Recomendo que parte do ganho de produtividade proporcionado pelo marketing digital e inteligência artificial seja reinvestido no descanso e na saúde mental.
E, diferente de uma Lamborghini, um iate ou uma mansão, talvez os 60 dias estejam mais ao seu alcance do que ser proprietário de um helicóptero ou uma ilha. Estou oferecendo um novo objeto de desejo na sua vida, mais plausível do que algumas coisas que os bilionários tentam vender.
Se você consegue ser bastante rigoroso em nunca invadir os feriados prolongados, os finais de semana e as noites, os 30 dias de férias já funcionam bem. Às vezes, os meus são invadidos, mas eu compenso.
Sinto que, principalmente pela velocidade que a IA permite trabalhar, a produtividade turbinada por IA cansa mais mentalmente o indivíduo. Sinto-me mais cansado depois de uma jornada de trabalho com IA. Fiz muito mais do que faria sem ela, mas também estou muito mais cansado no final do dia.
O tempo que economizamos, temos que viver.
Os três conselhos que transformaram minha carreira em marketing digital e inteligência artificial
Ao longo da minha jornada, recebi conselhos valiosos que moldaram quem eu sou e como atuo. Alguns foram dados com carinho, outros nem tanto, mas todos foram importantes.
1- Um ex-chefe disse que eu não merecia uma promoção para ser líder porque precisava entender mais sobre pessoas.
Foi um conselho dado de forma bem ruim, mas extremamente útil. Fui atrás de entender sobre gente, comunicação, liderança, ciências humanas, e isso me transformou completamente, permitindo-me chegar onde estou hoje.
2- Antônio Carlos Braga, presidente da Divicom, me deu um conselho mais gentil: “a vida precisa de pausas”.
Carrego isso até hoje, tanto que minha ambição atual é ter 60 dias de férias por ano, e não um bem material caro. É um conselho que faz muito mais sentido para mim do que a busca por bens físicos.
3- Bob Wollheim me ensinou a importância da forma na entrega do conteúdo: não é só o que você entrega, mas como entrega.
Esse grande amigo, ao ver a bagunça da minha vida, me deu muitos bons conselhos. Eu era muito técnico, muito nerd, focado no conteúdo e pouco na forma. Aplicar isso em marketing digital e inteligência artificial significa tornar o conteúdo acessível, humano e impactante.
Aprender a lidar com a forma das coisas, como entregar, de que forma entregar o conteúdo, fez muita diferença na maneira como o que eu faço alcança as pessoas. Estou constantemente buscando novas formas: um podcast, um livro, um curso.
Não é só o tipo de mídia, mas como ela será servida. Meu primeiro livro impresso, “Transformação Digital”, é muito bom, mas muito técnico. Agora, estou trabalhando em um novo livro que quero que seja mais humano, mais acessível. Isso tem a ver com a forma.
Essa reflexão me impulsiona a sempre tentar algo novo, a pensar em como o conteúdo pode ser apresentado de uma forma inovadora para que mais pessoas possam se beneficiar dele.
Espero que estas reflexões, baseadas na minha experiência e nas conversas que tive, possam inspirar você a navegar com mais consciência e propósito no vasto e dinâmico universo do marketing digital e da inteligência artificial.
O futuro é construído por aqueles que entendem que a tecnologia é uma ferramenta a serviço do humano, e que a relevância se constrói com profundidade, adaptabilidade e, acima de tudo, cuidado com a nossa saúde mental.
Reflexões finais: o futuro do marketing digital e inteligência artificial
O futuro do trabalho com IA não é utopia nem distopia, mas uma realidade em constante construção. A chave para navegar essa transformação está na adaptabilidade, aprendizado contínuo e valorização das habilidades humanas que a inteligência artificial não pode replicar.
Ao abraçar essa nova era com otimismo pragmático, podemos moldar um futuro profissional mais eficiente, criativo e significativo. Marketing digital e inteligência artificial devem ser sempre ferramentas a serviço das pessoas, para criar valor real e duradouro.
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