O que você vai aprender aqui:

  • O que é computação quântica e como ela difere do computador que você usa hoje
  • Por que o qubit e a superposição são mais simples de entender do que o jargão faz parecer
  • Quais setores e empresas já usam computação quântica na prática, com dados verificados de 2025 e 2026
  • Por que um Reels sobre o IBM Quantum System Two que devia passar de 2 mil visualizações chegou a 200 mil, e o que as perguntas dos espectadores revelam sobre as dúvidas mais reais do mercado
  • Por que a criptografia que protege seu banco tem data de validade e o que fazer antes que ela chegue
  • Como o Brasil está posicionado nessa corrida, do CBPF em 2025 ao CIQuanta na Paraíba em 2026

Este artigo complementa o e-book gratuito O Mapa do Explorador. Ele mapeia 17 setores, 81 verticais de tecnologia e 207 tendências para quem decide sem estar no time técnico. A computação quântica tem um capítulo inteiro dentro de Deep Tech e Fronteira Computacional.


Posto Reels no Instagram duas ou três vezes por semana. Quando um passa de 2 mil visualizações, já é muito acima da média. Quando publiquei o vídeo do IBM Quantum System Two, filmado no VivaTech 2026 em Paris, não esperava que chegasse a 2 mil. Chegou a 200 mil.

Os comentários confirmaram: “Isso é real ou ficção científica?”, “Quando vai chegar para as empresas?”, “O que preciso entender antes que meu chefe me pergunte?”. E uma pergunta que apareceu em variantes: “O espaço é ideal para computadores quânticos?”

A resposta para essa última é não. O espaço tem uma temperatura média de 2,7 kelvin, o que ajudaria como ponto de partida, mas o problema real é a radiação: o ambiente espacial bombardeia os qubits com partículas que destroem o estado quântico. Seria necessário blindar contra radiação e ainda assim manter infraestrutura criogênica para chegar aos 0,01 kelvin que os supercondutores exigem. Mais o custo e a inviabilidade de manutenção em órbita.


O que é computação quântica, sem o jargão que não ajuda

Para entender computação quântica, é preciso primeiro entender o problema que ela resolve.

O computador que você usa trabalha com bits. Cada bit é um interruptor: ou está ligado (1) ou desligado (0). Um processador moderno tem bilhões desses interruptores mudando de estado bilhões de vezes por segundo. Para a maioria das tarefas do cotidiano, isso é mais do que suficiente.

O problema aparece quando o desafio computacional cresce de forma exponencial. Simular como uma molécula se comporta em nível atômico, por exemplo, exige calcular todas as interações entre todos os elétrons, prótons e partículas envolvidos. Para uma molécula de complexidade média, como a cafeína com seus 24 átomos pesados, a simulação quântica exata está além da capacidade de qualquer supercomputador clássico. O número de combinações explode mais rápido do que qualquer hardware convencional consegue acompanhar.

A computação quântica ataca exatamente esse tipo de problema.

Em vez de bits, ela usa qubits. A diferença não é só de nome. O qubit explora duas propriedades da física quântica que o bit clássico não tem: superposição e entrelaçamento.

Superposição significa que o qubit pode representar 0, 1 e todas as combinações entre eles ao mesmo tempo, até o momento em que é medido. Uma forma de visualizar: imagine uma moeda girando no ar. Enquanto ela gira, ela é cara e coroa simultaneamente. Quando você a pega na mão, ela resolve para um lado. O qubit funciona assim, em superposição até ser medido.

Entrelaçamento é o segundo fenômeno. Quando dois qubits ficam entrelaçados, o estado de um afeta instantaneamente o outro, independentemente da distância entre eles. Einstein chamava isso de “ação fantasmagórica a distância”, expressando seu ceticismo sobre o fenômeno. Décadas de experimentos mostraram que é real.

A combinação dessas duas propriedades permite um tipo de paralelismo computacional que o computador clássico não consegue replicar. Para certos problemas, um computador quântico com cerca de 50 qubits já explora um espaço de estados maior do que qualquer supercomputador clássico consegue representar na memória: simular exatamente esses 50 qubits exige cerca de 2 petabytes de armazenamento, o que já excede a capacidade de qualquer sistema clássico individual.

Computação quântica não é melhor em tudo. Para abrir um e-mail, editar uma planilha ou rodar um jogo, o computador clássico continua sendo a ferramenta certa. A quântica é dramaticamente superior em classes específicas: simulação molecular, otimização combinatória e quebra de criptografia clássica.

Quem está curioso com o próximo passo da computação pessoal não vai encontrar a resposta aqui. O próximo paradigma para dispositivos e computação de borda aponta para chips neuromórficos, processadores que imitam a arquitetura do cérebro humano e consomem uma fração da energia dos chips convencionais. Intel (série Loihi) e IBM (NorthPole) pesquisam esse caminho. É um campo diferente, com uma lógica diferente, e merece um post próprio.


Como funciona por dentro: os quatro paradigmas de hardware

Há mais de uma forma de construir um computador quântico, e cada abordagem tem vantagens distintas. Quem precisa tomar decisões sobre fornecedor precisa entender o que separa cada paradigma.

Diagrama dos quatro paradigmas de hardware de computação quântica: supercondutor, íon aprisionado, átomo neutro e fotônico

Supercondutor usa circuitos elétricos resfriados a temperaturas próximas ao zero absoluto (cerca de menos 273 graus Celsius, mais frio que o espaço sideral). Nessa temperatura, a resistência elétrica desaparece e o circuito adquire propriedades quânticas. É a abordagem usada pela IBM e pelo Google. A desvantagem é a infraestrutura criogênica pesada.

Íon aprisionado prende átomos carregados com campo eletromagnético e manipula seus estados quânticos com lasers. Produz qubits de alta fidelidade para problemas menores e precisos. É a abordagem da IonQ e da Quantinuum.

Átomo neutro organiza átomos sem carga elétrica usando redes de lasers. Escala para um número maior de qubits e é especialmente bom em problemas de otimização. A francesa Pasqal e a americana Atom Computing seguem esse caminho.

Fotônico computa com fótons de luz em vez de partículas materiais, dispensando parte da infraestrutura criogênica. A PsiQuantum e a Xanadu apostam nessa direção.

O que filmei no VivaTech 2026 foi um IBM Quantum System Two: três torres de resfriamento, três processadores quânticos conectados num único sistema. Cada torre resfria os qubits a 15 milikelvin (180 vezes mais frio que o espaço sideral). As estruturas em cobre e dourado são cabos e blindagens de radiofrequência. Os discos empilhados em formato de lustre são os estágios de resfriamento progressivo, cada andar mais frio que o anterior. A proposta do System Two é escalar conectando processadores, sem precisar de um único chip gigante.

O acesso a todos esses paradigmas já está disponível por nuvem. IBM Quantum, AWS Braket, Azure Quantum e Google Quantum AI oferecem tempo de processamento por hora, sem exigir que a empresa monte um laboratório criogênico. Já em 2024, no SXSW, Charina Chou, pesquisadora do Google, ressaltou esse ponto: você não precisa comprar a máquina, só aprender a programar para ela.

Diagrama da arquitetura híbrida de processamento: cpu central orquestrando gpu e qpu em paralelo na computação quântica

Em produção, o cenário mais provável não é um paradigma eliminando os outros, mas uma arquitetura híbrida com CPU, GPU e QPU trabalhando em paralelo, cada um nos problemas onde é mais eficiente. A CPU orquestra o processo todo. A GPU continua treinando modelos de IA com grandes volumes de dados. A QPU entra em partes específicas que o clássico trata mal: otimização combinatória, simulação molecular, geração de aleatoriedade quântica. A ordem e a combinação variam por caso de uso — não é uma linha de montagem sequencial. A mesma lógica de especialização de hardware que redesenhou o mercado de chips de IA.


Linha do tempo: das origens científicas ao momento atual

Computação quântica tem raízes acadêmicas que antecedem em décadas o debate corporativo. Antes de chegar nos palcos de eventos de negócio, o campo passou por marcos fundamentais que explicam por que o assunto ganhou urgência agora.

1994. Peter Shor, no Bell Labs, publicou o algoritmo que leva seu nome: uma forma de usar computação quântica para fatorar números grandes de maneira exponencialmente mais rápida que qualquer algoritmo clássico. Isso colocou a criptografia RSA em rota de colisão com o futuro quântico.

1996. Lov Grover publicou o algoritmo de busca quântica, demonstrando aceleração quadrática em bases de dados não estruturadas. Na prática: em vez de revirar um arquivo inteiro entrada por entrada, o algoritmo chega ao resultado certo em muito menos tentativas, o que o torna útil em qualquer problema de busca e otimização.

2007. A D-Wave demonstrou o Orion, processador quântico de 16 qubits, no Computer History Museum em Mountain View. O ceticismo foi alto e a comunidade acadêmica debateu se o hardware realmente explorava mecânica quântica. O que importa em retrospecto: foi a primeira vez que uma empresa tentou vender capacidade quântica para clientes.

2016. A IBM disponibilizou o IBM Quantum Experience, acesso gratuito via nuvem a um processador quântico de 5 qubits. O campo passou do laboratório para o navegador de qualquer pessoa com conta no IBM Cloud. A porta de entrada para negócios estava aberta.

A partir de 2019, acompanhei o campo de perto em eventos internacionais. O que segue é uma linha do tempo do que eu vi, com contexto do que estava acontecendo no mercado em cada momento.

2019, SXSW. Primeira vez que vi computação quântica num palco de evento de tecnologia. O tom era exploratório: a tecnologia existia, mas nenhum problema prático de negócio havia sido resolvido com ela. O acesso via nuvem já era discutido como porta de entrada para empresas experimentarem sem comprar hardware.

2022, SXSW. Na sessão “A revolução quântica do transporte”, whurley, CEO da Strangeworks, apresentou os primeiros casos reais de uso em logística: a Volkswagen havia usado computação quântica para otimizar tráfego em Lisboa, a Mitsubishi reduziu rotas de coleta de lixo de 2.300 km para 1.000 km, e a Deutsche Bahn testava otimização de frota para 40.000 trens em mais de 5.700 estações. O ponto central da apresentação: a revolução quântica não ia acontecer de uma vez, mas gradualmente, problema por problema.

2024, SXSW. Charina Chou e Erik Lucero (Google Quantum AI) trouxeram o título “Quantum Computing: Facts, Fiction, and the Future”. Afirmação direta: nenhum computador quântico havia vencido supercomputadores em aplicações práticas de negócio até então. O acesso via nuvem já estava disponível como porta de entrada real.

2025, SXSW. Novidade concreta: o chip Willow, do Google, demonstrou correção de erro abaixo do limiar, marco esperado há 30 anos. Isso significa que adicionar mais qubits reduz, em vez de aumentar, a taxa de erros. Charina Chou atualizou o prazo para aplicações comerciais: encurtou. Perguntei ao vivo sobre aplicações comerciais. A resposta: interesse real em otimização de mercado financeiro, logística e precificação, sem ganhos comprovados ainda. A IBM demonstrou simulação da molécula de sulfeto de ferro em modelo híbrido CPU-GPU-QPU com o supercomputador Fugaku, tarefa impraticável para computadores clássicos.

Junho de 2025, MCTI/CBPF. Inauguração do Laboratório QuantumTec no CBPF (Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas), no Rio de Janeiro, com investimento de R$ 46 milhões. O laboratório fabrica chips quânticos supercondutores e pesquisa criptografia quântica.

Março de 2026, MCTI. Anúncio da criação do CIQuanta em João Pessoa, na Paraíba, com dois computadores quânticos operacionais previstos para o segundo semestre de 2026, os primeiros da América Latina.

Maio de 2026, Google I/O. Hartmut Neven (Google Quantum AI) e James Manyika (pesquisa do Google) dedicaram uma sessão ao tema. O ponto central: quantum computing vai ser sempre ferramenta especialista, não substituto da computação clássica na maioria das tarefas. O valor está nos problemas que o computador clássico estruturalmente não resolve. O Google publicou um cronograma de migração recomendando que empresas concluam a transição para sistemas pós-quânticos até 2029.

Junho de 2026, VivaTech (Paris). O tom mudou. O Quantum Technology Monitor 2026 da McKinsey registrou US$ 12,6 bilhões em investimento em startups quânticas em 2025, 6,3 vezes o ano anterior. O setor ultrapassou US$ 1 bilhão em receita. O governo americano anunciou US$ 2 bilhões para nove empresas quânticas, entrando como sócio minoritário. Quântica virou política industrial com sócio público, classificada como segurança nacional nos EUA.


Onde a computação quântica já gera resultado

A frase “daqui a cinco anos” foi repetida sobre computação quântica por tanto tempo que virou piada interna no setor. O que mudou em 2025 e 2026 é que esse mantra começou a ter prazo de validade.

Espectro de maturidade da computação quântica por setor: fármacos e segurança em estágio avançado, finanças em testes, logística e energia em fase inicial

Fármacos e simulação molecular

A Boehringer Ingelheim firmou parceria com o Google Quantum AI para simular o comportamento de moléculas antes de qualquer teste em laboratório, encurtando a fase mais cara do desenvolvimento de medicamentos.

A Moderna, com a IBM, usou um chip quântico de 80 qubits para simular o dobramento de uma sequência de mRNA, o passo que define se uma vacina vai funcionar antes de qualquer experimento físico.

IonQ, AstraZeneca, AWS e NVIDIA demonstraram um fluxo híbrido quântico-clássico que reduziu o tempo de simulação de reações químicas usadas no desenvolvimento de medicamentos em mais de 20 vezes. O que levava meses passou a levar dias.

No VivaTech 2026, o painel “Speeding Past Safety” reuniu executivos da Sanofi, da Phare Bio, da divisão QuantumBlack da McKinsey e da Algorithmiq. Kaoutar Sghiouer, head global de dados e IA da Sanofi, apresentou o estado atual da empresa: 70% das moléculas pequenas já são viabilizadas por IA, e relatórios que levavam seis meses para chegar ao regulador saem em semanas. A quântica entra depois disso, nos cálculos onde a IA usa aproximações e a física exige precisão real.

Martina Stella, da Algorithmiq, foi realista sobre o prazo: a quântica não vai entrar no pipeline das grandes farmacêuticas nos próximos dois anos. Mas já dá para construir pipelines prontos para receber esse dado quântico quando o hardware amadurecer. Quem começa agora forma repertório antes que o hardware esteja pronto.

Setor financeiro

O JPMorgan Chase investe em algoritmos quânticos para otimização de portfólios, precificação de opções e gestão de risco. Em maio de 2025, demonstrou aceleração quântica verificável em otimização combinatória com aplicação direta a logística e modelagem financeira.

O HSBC, em parceria com a Quantum Dice, implementou geradores quânticos de números aleatórios em simulações de Monte Carlo para precificação de seguros, substituindo algoritmos pseudoaleatórios clássicos por fontes de aleatoriedade física.

A vantagem da quântica em finanças está nos problemas de otimização combinatória: decidir como alocar bilhões de dólares entre centenas de ativos considerando múltiplas restrições simultâneas é exatamente o tipo de problema que a quântica ataca bem.

No Brasil, o Itaú e o Bradesco conduzem experimentos com algoritmos quânticos para otimização de portfólio e retenção de clientes, ainda em fase exploratória.

Logística e otimização

A Volkswagen foi pioneira no uso em logística real: em 2019, otimizou o tráfego de ônibus em Lisboa durante a WebSummit, calculando a rota mais rápida de cada veículo em tempo quase real com um computador quântico da D-Wave.

Na SXSW 2022, a mesma lógica apareceu em escala industrial, com cases da Mitsubishi e da Deutsche Bahn descritos na linha do tempo acima.

A DHL e a Airbus participam de consórcios europeus de otimização de rotas e manutenção, ainda em fase de pesquisa aplicada.


Os grandes players e o que cada um está construindo

IBM publicou um roadmap detalhado e o segue com disciplina. O chip Nighthawk, com 120 qubits supercondutores, atingiu uma taxa de complexidade 30% maior que a geração anterior com menor taxa de erro. O alvo declarado: o sistema Starling, com 200 qubits lógicos rodando 100 milhões de operações, até 2029, ponto em que a IBM projeta vantagem quântica verificável sobre computação clássica em problemas reais. Em meados da década de 2030, a meta é uma máquina de 2.000 qubits lógicos.

Google demonstrou correção de erro abaixo do limiar com o chip Willow: adicionar qubits reduz erros em vez de ampliar. O Willow completou um benchmark de computação aleatória em 5 minutos, tarefa que levaria 10 septilhões de anos no supercomputador mais rápido disponível. A ressalva do próprio Google é importante: esse benchmark foi desenhado para medir capacidade quântica, não para resolver um problema prático de negócio. O roadmap público aponta um computador quântico útil e corrigido de erros dentro da década. O algoritmo Quantum Echoes, publicado na Nature em parceria com a UC Berkeley, foi o primeiro de aprendizado de máquina quântico com utilidade verificável, aplicado a determinação de estrutura molecular.

Microsoft aposta em qubits topológicos, uma abordagem que codifica informação quântica nas propriedades globais do sistema em vez de em partículas individuais. Em junho de 2026, anunciou o Majorana 2 no Build: novo material (chumbo em vez de alumínio, desenvolvido com auxílio de IA), tempo de vida médio do qubit de 20 segundos contra os milissegundos da geração anterior, e meta de computador quântico escalável até 2029. O ceticismo externo persiste: o paper do Majorana 1 foi publicado na Nature em 2025 com uma nota editorial da própria revista ressalvando que os dados não constituem evidência de qubits topológicos, e vários físicos responderam ao anúncio do Majorana 2 dizendo que as objeções fundamentais não foram resolvidas. A Microsoft segue sendo o player com a aposta mais ousada e a validação mais contestada do setor.

IonQ, Quantinuum e Pasqal são as especializadas. IonQ abriu capital na NYSE em 2021 e opera com clientes reais em íon aprisionado. A Quantinuum tem o processador H-Series com as maiores taxas de fidelidade de gate da indústria e publicou um roadmap acelerado com meta de computação quântica universal e tolerante a falhas até 2030, ponto em que projeta superar computação clássica em problemas científicos relevantes. A Pasqal, empresa francesa de átomo neutro, ativou em 2026 o primeiro serviço comercial quântico do Oriente Médio em parceria com a Saudi Aramco, com 200 qubits programáveis em datacenter da Aramco em Dhahran, aplicados a otimização de logística portuária e programação de plataformas de exploração.

Dois sinais ajudam a calibrar as expectativas. Jerry Chow, da IBM, propôs uma definição prática: vantagem quântica se mede por problema de negócio resolvido com resultado verificável, não por benchmark de laboratório. Axel Muller-Groeling, da Fraunhofer, deu o contrapeso: para a indústria, ainda não se resolveu um único problema de importância real que um computador clássico não resolvesse melhor. A confiança de que isso vai acontecer cresce, mas ninguém sabe quando.


A ameaça que já está acontecendo: criptografia com prazo de validade

A criptografia que protege HTTPS, VPNs e certificados digitais usa RSA ou ECC, algoritmos baseados em problemas matemáticos que computadores clássicos não conseguem resolver em tempo útil. Um computador quântico com capacidade suficiente resolve esses mesmos problemas em horas. O AES, usado para proteger dados em repouso, não está na mesma situação: a ameaça quântica contra ele é administrável com ajustes de chave. O problema real é RSA e ECC.

O computador quântico capaz de fazer isso ainda não existe. O Global Risk Institute estima o Q-Day entre 2030 e 2035. Mas chaves RSA menores, como RSA-1024, ainda presentes em sistemas legados de muitas empresas, estão mais próximas desse limiar e já eram consideradas inseguras pelo NIST por critérios clássicos desde 2013.

O ataque já começou antes disso. Chama-se “harvest now, decrypt later”: capturar tráfego criptografado hoje e armazená-lo para decifrar quando o hardware quântico relevante existir. Um prontuário médico que precisa ficar secreto por 30 anos está vulnerável agora, mesmo sem nenhum computador quântico capaz de atacá-lo existir ainda. Qualquer dado com valor de longo prazo, como informações médicas, bancárias ou diplomáticas, já é alvo dessa lógica.

Os padrões de proteção existem. O NIST publicou em 2024 os três primeiros algoritmos pós-quânticos definitivos: ML-KEM para troca de chaves, ML-DSA para assinatura digital e SLH-DSA baseado em hash. O Google publicou um cronograma de migração recomendando que empresas concluam a transição até 2029. O Gartner elevou o tema a prioridade de conselho desde 2025.

O gargalo é execução. Migrar criptografia assimétrica leva anos: há produtos, sistemas e integrações para mapear, testar e atualizar sem quebrar a operação. Quem começa o inventário agora tem tempo. Quem esperar o Q-Day para agir não terá.

O ponto de partida: descubra onde a empresa usa RSA e ECC, classifique quais dados precisam ficar secretos por décadas e monte um cronograma de migração produto a produto.


O mercado: números de quem paga para acompanhar

O mercado de computação quântica estava avaliado em US$ 1,6 bilhão em 2025, segundo a Grand View Research, com projeção de crescimento para US$ 8 bilhões até 2033 a uma taxa composta de 22,3% ao ano. A MarketsandMarkets projeta crescimento mais agressivo, para US$ 20 bilhões até 2030.

O Quantum Technology Monitor 2026 da McKinsey projeta que a computação quântica pode gerar até US$ 2,7 trilhões em valor econômico global até 2035, com concentração em química e ciências da vida, setor financeiro e logística.

Três empresas abriram capital em 2026 (Infleqtion, Xanadu e Horizon Quantum) e outras preparam IPOs. Mais de 300 empresas, incluindo Airbus, Boehringer Ingelheim, JPMorgan Chase e Liberty Mutual, colaboram ativamente com empresas de tecnologia quântica, segundo o mesmo relatório da McKinsey.


Computação quântica no Brasil: o que está acontecendo

O Brasil tem pesquisa de qualidade, mas capital industrial incipiente na área.

Em junho de 2025, o MCTI e o CBPF inauguraram o Laboratório de Tecnologias Quânticas (QuantumTec) no Rio de Janeiro, com investimento de R$ 46 milhões. O laboratório fabrica chips quânticos supercondutores e pesquisa criptografia quântica.

Em março de 2026, o MCTI anunciou a criação do CIQuanta (Centro Internacional de Computação Quântica) em João Pessoa, na Paraíba, em parceria com o Suzhou Quantum Center da China e o governo estadual. O centro vai abrigar dois computadores quânticos operacionais, os primeiros da América Latina, previstos para o segundo semestre de 2026. O investimento é de R$ 150 milhões, e o governo federal planeja aportar R$ 5 bilhões até 2034 na área quântica.

A Rede Rio Quântica, consórcio formado por IME, UFF, CBPF, PUC-Rio e UFRJ, ativou um canal de distribuição quântica de chaves (QKD) com alcance de 120 km, conectando instituições de pesquisa no Rio de Janeiro. Em Recife, a parceria entre UFPE e RNP opera uma rede quântica de 7 km com protocolo QKD em fibras ópticas comerciais, com planos de expansão para 40 km incorporando o Porto Digital.

No setor privado, o Itaú, em parceria com a QC Ware, usou algoritmos quânticos para melhorar modelos de retenção de clientes. O Bradesco integrou a IBM Quantum Network e, em parceria com a USP, conduz experimentos em otimização de portfólio, forecasting macroeconômico e precificação de derivativos desde 2021.

O gargalo é de capital industrial, não de ciência. USP, Unicamp, INPE e CNPEM produzem pesquisa relevante que frequentemente migra para laboratórios estrangeiros por falta de contrato de P&D com a indústria local. O CNPEM sedia o INCT em Dispositivos Quânticos, aprovado pelo MCTI em 2025, com foco em pesquisa de materiais quânticos e fabricação de dispositivos de primeira e segunda geração.


Por onde começar

Esta semana, faça duas perguntas dentro da empresa. A primeira: alguém no time de segurança já sabe onde a empresa usa criptografia RSA e quais dados precisam continuar secretos por mais de dez anos? A segunda: há alguém monitorando o desenvolvimento de algoritmos quânticos no setor onde a empresa atua?

Responder a primeira protege. Responder a segunda coloca a empresa à frente da curva de adoção. São duas perguntas com horizontes distintos: a de segurança tem urgência; a de vantagem competitiva tem oportunidade.

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Perguntas frequentes sobre computação quântica

O que é computação quântica?

Computação quântica é uma forma de processar informação que usa as propriedades da física quântica, especialmente superposição e entrelaçamento. Enquanto o computador clássico opera com bits (0 ou 1), o computador quântico usa qubits, que podem representar 0, 1 e todas as combinações entre eles ao mesmo tempo. Isso permite resolver certos problemas complexos de forma dramaticamente mais rápida do que qualquer computador convencional. A quântica não substitui o computador clássico: é uma ferramenta para classes específicas de problemas.

O que é um qubit?

Qubit é a unidade básica de informação em um computador quântico. Diferente do bit clássico, o qubit pode estar em superposição: em vez de ser 0 ou 1, ele existe em múltiplos estados ao mesmo tempo até ser medido. Quando dois qubits ficam entrelaçados, o estado de um afeta instantaneamente o outro, independentemente da distância. Essas propriedades permitem certos cálculos paralelos impossíveis em computadores convencionais.

Qual é a diferença entre computador quântico e computador clássico?

O computador clássico trabalha com bits em lógica binária sequencial. O computador quântico usa qubits que exploram superposição e entrelaçamento. Isso não o torna melhor em tudo: é dramaticamente superior em simulação molecular, otimização combinatória e criptografia. Para e-mail, planilhas, jogos e tarefas do dia a dia, o clássico continua sendo a ferramenta certa.

Quanto custa um computador quântico?

Um computador quântico próprio custa dezenas de milhões de dólares e exige infraestrutura criogênica complexa. Para empresas, o modelo acessível é o acesso via nuvem: IBM Quantum, AWS Braket e Azure Quantum oferecem tempo de processamento por hora.

Data centers estão indo para o espaço. Um computador quântico poderia ir junto?

A proposta de data centers espaciais ganhou tração recente: Microsoft, Google e startups como Lumen Orbit exploram o espaço como solução para calor e consumo de energia. A lógica faz sentido para servidores clássicos. Para quânticos, o raciocínio não se transfere.

O problema não é chegar ao frio: a temperatura média do espaço (2,7 kelvin) ajudaria como ponto de partida, mas computadores quânticos supercondutores precisam de 0,01 kelvin, o que exige refrigeração criogênica ativa mesmo no espaço. O problema real é a radiação. No ambiente espacial, partículas de alta energia bombardeiam os qubits e destroem o estado quântico em milissegundos, um fenômeno chamado decoerência. Blindar o sistema contra isso e ainda assim manter manutenção viável em órbita está fora do alcance operacional atual. Data centers clássicos no espaço fazem sentido como hipótese de engenharia. Computadores quânticos, ainda não.

Quais empresas já usam computação quântica na prática?

IBM, Google, Microsoft, Amazon e Azure oferecem acesso a computadores quânticos via nuvem. No setor farmacêutico, Boehringer Ingelheim faz simulação molecular em parceria com o Google Quantum AI, e a Moderna usa hardware quântico com a IBM para prever estruturas de moléculas de mRNA. No setor financeiro, JPMorgan Chase e HSBC testam algoritmos quânticos para otimização de portfólios. Em descoberta de fármacos, IonQ, AstraZeneca, AWS e NVIDIA demonstraram aceleração de mais de 20 vezes na simulação de uma reação química real.

O computador quântico já é mais rápido que supercomputadores?

Depende do que se está medindo. O chip Willow do Google completou em 5 minutos um benchmark específico que levaria 10 septilhões de anos no supercomputador mais rápido disponível. O próprio Google ressalvou que esse benchmark foi criado para medir capacidade quântica, não para resolver um problema prático de negócio. Para aplicações reais, a taxa de erro dos computadores quânticos atuais ainda é ordens de magnitude acima do necessário. O horizonte para superação em problemas relevantes é 2029-2030: a IBM projeta vantagem quântica verificável até 2029 com o sistema Starling, e a Quantinuum tem roadmap público para computação quântica universal tolerante a falhas até 2030. Até lá, o modelo mais realista é híbrido: quântico e clássico trabalhando juntos, cada um nos problemas onde é mais eficiente.

O que é o harvest now, decrypt later e por que me preocupar agora?

Harvest now, decrypt later é a estratégia de capturar dados criptografados hoje e armazená-los para decifrar no futuro, quando existir um computador quântico capaz de rodar o algoritmo de Shor e quebrar a criptografia RSA atual. O ataque já está acontecendo, mesmo sem o computador quântico relevante existir, porque dados sensíveis precisam permanecer secretos por décadas. Empresas com dados de longo prazo precisam começar o inventário de criptografia agora.

Quando a computação quântica vai impactar minha empresa?

Depende do setor. Em fármacos e simulação molecular, o impacto já começa em pilotos avançados. Em finanças e otimização, há testes reais em produção. Para a empresa típica fora desses setores, o impacto prático está no horizonte de 3 a 7 anos. A decisão que já precisa ser tomada hoje é a de segurança: começar o inventário de criptografia RSA e planejar a migração para criptografia pós-quântica.

A inteligência artificial vai rodar em computadores quânticos? Como as duas tecnologias trabalham juntas?

Em partes, sim. Pesquisadores já treinam algoritmos de machine learning em hardware quântico, campo chamado de quantum machine learning, e os resultados para classes específicas de problemas são promissores. O modelo mais realista hoje é uma arquitetura híbrida com CPU, GPU e QPU trabalhando em paralelo: a CPU orquestra, a GPU treina modelos com grandes volumes de dados, a QPU resolve as partes que o clássico trata mal. A ordem e a combinação variam por caso de uso — em fármacos, a QPU simula a molécula e a GPU usa esses dados para treinar; em finanças, a QPU resolve a otimização e devolve o resultado para a CPU integrar. Não é uma sequência fixa.

Na prática: GPUs continuam dominando o treinamento de grandes modelos de linguagem, onde a força bruta com dados massivos é o que importa. O QPU entra onde a IA clássica trava, como na simulação de moléculas para descoberta de fármacos, onde a IonQ, AstraZeneca e NVIDIA já demonstraram aceleração de mais de 20 vezes sobre métodos clássicos. A combinação mais poderosa no curto prazo é a IA ajudando a corrigir erros de qubits e o quântico acelerando partes específicas do pipeline de IA que exigem otimização combinatória intensa. São tecnologias que crescem juntas, não em competição.

Um computador quântico seria ainda melhor em xadrez e Go do que a IA atual?

Provavelmente não, pelo menos não da forma que se espera. O AlphaGo e os motores de xadrez modernos são especializados: usam redes neurais treinadas para reconhecer padrões em posições, não para explorar cada ramificação do jogo por força bruta. Esse tipo de tarefa roda muito bem em GPUs com hardware clássico.

A computação quântica tem vantagem em problemas de otimização combinatória onde o número de variáveis simultâneas explode além do alcance clássico. O xadrez tem uma árvore de possibilidades enorme, mas a IA clássica já a navega de forma eficiente com podas e heurísticas. O Go tem complexidade ainda maior, e o AlphaGo já venceu campeões mundiais sem precisar de quântico.

Onde o quântico faria diferença são problemas sem as mesmas âncoras de heurística: roteamento logístico com centenas de restrições simultâneas, otimização de portfólios financeiros com muitas variáveis correlacionadas, simulação de moléculas. Jogos com regras bem definidas e soluções parciais reconhecíveis já têm soluções clássicas suficientemente boas.

O que está acontecendo com computação quântica no Brasil?

Em março de 2026, o MCTI anunciou a criação do CIQuanta em João Pessoa, na Paraíba, com dois computadores quânticos operacionais previstos para o segundo semestre de 2026, os primeiros da América Latina. O governo federal planeja R$ 5 bilhões até 2034 na área. No setor privado, o Itaú, em parceria com a QC Ware, usou algoritmos quânticos para retenção de clientes; o Bradesco integrou a IBM Quantum Network e conduz experimentos em otimização de portfólio e precificação de derivativos desde 2021. A Rede Rio Quântica ativou um canal de distribuição quântica de chaves de 120 km conectando instituições de pesquisa no Rio de Janeiro.


Edney “InterNey” Souza atua com tecnologia desde 1990 como professor, palestrante e conselheiro consultivo de empresas em tecnologia e inovação. Fundou sete startups ao longo da carreira. Leciona na ESPM, Insper, USP, PUCRS e IBGC. É autor de vários e-books gratuitos sobre tecnologia, marketing, liderança e inovação, disponíveis aqui.

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