O que percebo neste que é o 5º SXSW que participo é que muitos brasileiros vem aqui buscar um viés de confirmação, por exemplo, se eles acreditam que a melhor abordagem para vender coisas é storytelling acabam vendo diversas palestras que defendem como fazer um storytelling ainda mais incrível.

Quem sou eu para julgar a forma como as pessoas fazem a sua curadoria? Ninguém. Quem me conhece sabe que não busco o papel de juiz. Faço essa observação mais como um aviso ao leitor: geralmente eu busco palestras que confrontem minha visão de mundo ou expandam em uma direção ainda inexplorada.

O 1º dia do Interactive de 2019 seguiu essa linha, das 4 atividades que participei esperava que 2 me confrontassem e 2 expandissem minha visão.

Dados como bens comuns

Sébastian Soriano, presidente da Arcep (agência reguladora francesa de telecomunicações) fez uma apresentação que considerei utópica durante quase todo o seu discurso (novamente aqui: não estou julgando Sébastian, apenas separando o que me foi útil), com uma pequena exceção: “Dados devem ser bens comuns“.

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Hoje olhamos para dados, generalizando, de duas perspectivas distintas:

  1. Posso coletar todos os dados que conseguir e fazer o que quiser com eles. Se o usuário perceber o valor em troca desses dados não vai reclamar. Que é mais ou menos a visão americana.
  2. O usuário precisa ser protegido, vou avisá-lo de tudo que pretendo fazer com seus dados e se ele não se sentir confortável pode pedir para remover. Que é mais ou menos a visão européia / brasileira.

A minha generalização das duas visões vem da atual LGPD (lei brasileira) / GDPR (lei européia) e da falta de legislação específica de dados da visão americana.

Mas e se você tivesse consciência da importância dos seus dados e, ao invés de ser lhe dados apenas a opção de deixar que uma empresa faça o que quer ou deletar, fosse possível doar seus dados para pesquisas ou até pequenas startups necessitando desenvolver e/ou validar seus negócios?

A visão de dados acima envolve um cruzamento com uma 3ª perspectiva, a visão chinesa, todo mundo oferece seus dados de forma compulsória e obrigatória e o governo usa esses dados para ajudar a desenvolver as companhias chinesas que trazem riqueza para a China. Aqui vale um parênteses, a ideia do governo vigiando tudo que você faz geralmente é assustadora e conflita com nossos princípios de liberdade, mas a visão que descrevo aqui é a “versão oficial” que já ouvi/li várias vezes vindo de palestrantes chineses aqui e em outros evento.

A visão de Sebástian tira fora da equação a parte compulsória mas permite que esses dados gerem riqueza para a sociedade ao invés de uma companhia ou indivíduo. Se dados são o novo petróleo e todo mundo tem petróleo no quintal de casa, porque não ajudar quem pode fazer uma diferença no mundo?

UX em Logística

Cainiao é a empresa de logística do Grupo Alibaba, o maior grupo varejista do mundo. No último dia dos solteiros eles venderam mais de um bilhão de pedidos que foram entregues em 3 dias.

Essa foi a propaganda da palestra, que prometia muito e supreendentemente conseguiu entregar ainda mais.

Além de soluções para os consumidores, como a Cainiao’s Smart Locker apresentada no vídeo acima o mais impressionante foram as soluções para os trabalhadores da empresa. Sempre falo que os funcionários da empresa também são consumidores quando falamos de Employer Branding, e parece óbvio que quando falamos de UX devemos pensar na usabilidade dos funcionários além dos consumidores. Mas ambos sabemos que tanto no marketing, quando UX e em outras áreas, geralmente essa não é a prioridade das companhias.

Pois bem, os segredos para entregar tudo muito rápido vão além dos já famosos robôs dos seus centros de distribuição que você pode ver no vídeo abaixo:

Eles também pensaram em pequenos detalhes para os funcionários, como trocar o tablet por um relógio para deixar as mãos livres enquanto manuseiam caixas:

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Ou uma interface melhor (letras maiores, mais infos, um pedido por vez) para que o entregador consiga encontrar mais facilmente o que precisa fazer:

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E o que eu achei mais fantástico: uma campanha para valorizar o entregador que muitas vezes enfrenta imensas dificuldades, principalmente na zona rural, para que seu pedido chegue rapidamente.

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Vemos muito o Employer Branding como ferramenta de recrutamento certo? Para mim no exemplo acima fica claro que o entregador com seu trabalho reconhecido acaba tendo uma performance superior. E quando se trata de entregar 50 bilhões de pacotes ao ano, isso pode fazer uma diferença absurda nos resultados da empresa.

Tem um algoritmo me manipulando

A palestra de Alex Rosenblat, etnógrafa e autora do livro Uberland começou batendo tanto no Uber que parecia um daqueles autores buscando polêmica para promover seus livros. Passado uma certa agressividade inicial ela começou a apresentar alguns pontos bem interessantes:

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O Uber insiste que seus motoristas são empreendedores, mas cobram que tenham certas posturas bem rígidas. Via de regra quando você empreende você define o nível de qualidade de serviço que você quer oferecer e para qual público.

O Uber, através dos algoritmos de precificação e pontuação te induz a aceitar os valores que ele cobra, os horários e locais de melhor procura, padroniza sua comunicação e o seu carro. Sobrando pouco espaço para o empreendedorismo tradicional.

Estes são alguns exemplos de argumentos, apresentados por Alex, que tem feito o motorista do Uber ser equiparado a funcionário em alguns países e cidades ao redor do mundo, por um outro lado há locais onde há leis de seguro desemprego que não querem proteger esses mesmos motoristas. Se eles são funcionários a obrigação não deve ser apenas do Uber em protegê-los, mas também do Estado. E aí os legisladores começam a brigar algumas vezes entre si!

Mesmo nos Estados Unidos há uma confusão pois quando a FTC (Federação de Comércio) diz que o Uber está fazendo propaganda inadequada prometendo ganhos exagerados aos motoristas ele está tratando os motoristas como consumidores. Eles são consumidores ou empreendedores?

A verdade é que a economia compartilhada está criando novas possibilidades e já não é mais possível colocar todo mundo em apenas uma caixinha ao mesmo tempo.

Ou seja, o motorista pode trabalhar quando quiser, onde quiser, como um empreendedor, o algoritmo trata-o como se fosse um funcionário e a FTC como consumidor, porque ele é um pouco de todas essas coisas ao mesmo tempo.

Na verdade graças aos aplicativos da nova economia todos nós adotamos diversos papéis e graças aos algoritmos todos somos condicionados a nos comportar de forma parecida em cada um desses papéis.

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