Avacalhamos a Internet

Enchi o saco da Internet.

Enchi o saco.

Tudo andava tranquilamente. Mas alguma coisa aconteceu. Sei lá quando, alguma coisa aconteceu. Pessoas conversavam, se conheciam, interagiam, trocavam culturas e informações. O mundo era muito mais próximo, com imagens do outro lado do mundo há poucos cliques de distância.
Mano, a Internet era bacana.

Epoca dos chats. Você conversava e sentia frio na barriga quando recebia uma resposta positiva. As mulheres eram difíceis nos Chats, eram muito difíceis. Não bastava um “oi, de onde tc?” para ser correspondido com atenção. Você tinha que criar uma estratégia de conversa. E evitar, logo de cara, as gurias que estavam no topo da lista de participantes, pois elas eram, supostamente, as veteranas da sala e mais relutantes a um contato.

Epoca dos gifs. A pornografia era uma pornografia de raiz, marota, sem os adventos da banda larga e filmes completos em streaming. A serie de arquivos de fotos divididos gifs de 1 a 2 megas eram o auge. Coisa linda era acessar um site cheio de gifs. Admita, caro amigo webdesigner. Você teve um site no hpg com aquele da carta entrando na caixa de correios linkando o e-mail e da caveirinha mostrando o dedo.

Epoca dos fóruns. Ah, os fóruns. Era onde você disponibilizava montagens do Seu Madruga com um sabre de luz ou aquele texto maneiro assinado pelo Arnaldo Jabor. Verdade que até hoje os fóruns sobrevivem, cada um de seu modo, é claro. Se em pleno 2011 grande parte do conteúdo dos blogs de humor saem de lá, imagine há 12 anos?

Menção honrosa: fórum do Judão, o Fodum. A melhor coisa que já aconteceu na Internet brasileira.


Valdisney Neuman, o criador da Internet

Agora, o que é a Internet? Um lugar cheio de adultos estúpidos reclamando da programação do cinema, do sinal do celular, da companhia aérea e fazendo repetitivas piadas. Evidente que há bom conteúdo, mas o conceito inicial de Internet parece ter se perdido no tempo. A Internet não amadureceu. Pelo contrario, ela foi tão mimada que hoje se considera indispensável. E o pior de tudo é que realmente ela é indispensável. Mas de um jeito extremamente desgastante.

A culpa foi nossa. Avacalhamos a internet.

Ou eu só to de saco cheio.

¹ É assim: o Tio Dino iniciou a revolução.

Quem Quer Ser Um Blogueiro Milionário?

Dia desses um leitor me questionou sobre a visibilidade dos blogs. Segundo ele, é a maneira mais fácil de ficar famoso na Internet (além de divulgar uma sextape, claro). Perguntei, já que era tão simples assim, porque ele tinha me procurado. Ele, apesar de enfático, mostrou toda a inocência de quem está começando: “não sei por onde começar e quero saber quanto você cobra por post”.

O notório crescimento de pro-bloggers brasileiros fez com que essa “profissão” virasse a menina dos olhos de muitos. A comodidade de fazer seu próprio horário, trabalhar em casa e se divertindo parece ser o emprego dos sonhos. E, para o delírio geral, no final desse arco-íris de pixels ainda há uma proposta de emprego num lugar cheio de gente cool.

Maravilha, heinhô?

Nem tanto.

O caminho percorrido até esse efêmero sucesso virtual é árduo. Contudo, muito menos do que em outras profissões. Já há alguns anos defendo a tese de que existem três maneiras de alcançar a fama com um blog. Costumo chamá-las de Charles Miller, Zinho e Eri Johnson.

Para quem ainda não ligou o nome à pessoa, Charles Miller é o pai do futebol no Brasil. O inglês, assim como outros gênios, tinha um belo bigode. Mas, principalmente, era um visionário. Trouxe ao Brasil algo jamais visto nessas bandas. Inovou, provocou e conquistou o país apresentando algo que poucos conseguem: o diferencial.

Blogs Charles Miller eu conto nos dedos. São blogs altamente subversivos que, através de ousadia e principalmente talento (coisa rara nos blogs de hoje), conquistaram espaço, dinheiro e marcaram época na blogosfera. Não necessariamente nessa ordem.

Exemplos de Blogs Charles Miller: Querido Leitor, Cocadaboa, Contraditorium, Garotas que dizem Ni e Kibeloco.

Zinho, ou Crizam César de Oliveira Filho, ficou conhecido durante a Copa do Mundo de 1994 como “enceradeira”. Você deve lembrar: ele recebia a bola, rodava, rodava, rodava e não saia do lugar. Mesmo assim, foi um jogador multicampeão em quase todos os grandes clubes que passou: Flamengo, Palmeiras, Grêmio e Cruzeiro.

Jamais foi considerado craque, mas era um excelente prestador de serviço. Atleta correto, útil, normalmente compensava a falta de velocidade com técnica apurada e excelente posicionamento. Em outras palavras, o Zinho enganava muito bem. E nunca deixava seu time na mão.

Esse formato na blogosfera é chamado de roteador de conteúdo. São blogs que raramente veiculam material próprio, sendo mais conhecidos por reproduzirem posts traduzidos de blogs gringos ou material de entretenimento de terceiros.

Outro tipo são os blogs batidos. Formatos já conhecidos na Internet que são repaginados. Uma graça aqui, uma maquiagem ali e você tem um blog interessante, comentável e popular. Mas longe de ser genial.

Exemplos de Blogs Zinho: Sedentário, Haznos, Treta, Danosse e QMaT.

O Eri Johnson é um cara definitivamente irritante. Se não está no ar, normalmente ele aparece jogando futevôlei com o Edmundo e o Romário em Copacabana ou participando de um clipe do Só Para Contrariar. Com espírito de colunista social, ele adora estar rodeado de celebridades e participar dos mais badalados eventos. Na verdade, ele vive pra isso.

Curiosamente, alguns dos mais acessados blogs do Brasil seguem a linha Eri Johnson. São blogueiros que não sabem escrever um parágrafo sem assassinar o português, mas são absolutos mestres na arte de puxar o saco. Fazem favores, elogiam, massageiam o ego, tudo que possa render um beneficio – financeiro ou não – no futuro.

Esses blogs não são necessariamente ruins. Mas são blogs normais, com conteúdo Zinho. O grande responsável por esse sucesso está no comando. Normalmente trata-se de um sujeito muito esperto e capacitado para fazer esse lobby com blogueiros famosos e mandachuvas da blogosfera.

Essa técnica tem seus contras…

Ao mesmo tempo em que ele começa a ganhar muito dinheiro com posts patrocinados, o conteúdo do blog é alvo de muitas críticas. Se antes ele já escrevia mal, agora vai ser pior ainda. Pois, com o intuito de não deixar dois anunciantes próximos, o blogueiro Eri Johnson vai postar qualquer bobagem para separar os posts.

… mas também suas vantagens.

Dinheiro, reconhecimento, entrevistas, fotos no aeroporto, fãs, viagens de graças e festinhas, muitas festinhas. E isso é só o começo. Afinal, quem, há alguns meses, arriscaria dizer que um blog seria destacado em plena novela das 8? O melhor, acreditem, está por vir.

Exemplos de Blogs Eri Johnson? Quando divulgarem a lista de participantes do primeiro reality show com blogueiros patrocinado por uma pasta de dente ou coisa parecida você os terá.

E isso não deve demorar.

¹ Dica: Aproveite enquanto o blog está no ar.

² OMEdi: Embromation.

³ Blogs Eri Johnson: Pipoquei . Mas apenas por uma questão de “relacionamento”.

A cobertura fail do Campus Party 2009

Foi encerrada ontem a segunda edição do Campus Party Brasil. Neste ano, o evento abriu inscrições para 6.000 pessoas, praticamente o dobro do ano passado. Uma área de 38.000m2 foi dividia em 11 alas: Desenvolvimento, Design, Fotografia, Games, Modding, Música, Robótica, Simulação, Software Livre, Vídeo e, finalmente, CampusBlog.

Esse último, supostamente um local para autores de blogs corporativos, pessoais, educacionais e jornalísticos, seria o principal gerador de informações, dados e imagens relevantes a tudo o que acontece no Campus Party. Mas não foi o que se viu.

Os blogs trataram de fazer uma cobertura bastante amadora. O Campus Party, evento de porte considerável com mais de 10 edições na Espanha, ficou ilustrado nos posts como uma grande colônia de férias Geek. A postura infantil e abobada dos blogueiros fez com que alguns casos não fossem comentados de forma mais veemente.

O experimento apresentado pelo técnico de rede Carlos Alexandre Duarte é um exemplo. Ele criou, em dez meses de estudo, um líquido que pode ser utilizado na refrigeração do PC. Esse produto elevaria em 60% o desempenho da máquina. Uma descoberta interessante, principalmente para blogs de informática e tecnologia.

Mas, enquanto isso, no Twitter…

Outro fato interessante foi a presença de índios tupinambá na terça-feira. Em entrevista ao Globo Digital, Anapuaka Muniz Pataxó deu uma declaração singela, mas densa em conteúdo. “Internet não é apenas uma rede de entretenimento social. É também uma rede de conhecimento. Queremos aproveitar o que de bom a Internet pode nos oferecer. A fumaça digital precisa fazer parte do cotidiano dos índios”.

E, enquanto isso, no Twitter de quem entende de Internet…

No terceiro dia, na louvável área de inclusão digital, ocorreram vários primeiros contatos com a informática. Através de palestras e ajuda de monitores, dezenas de pessoas carentes que não tem acesso à tecnologia aprenderam o básico do WWW. Um dos assuntos abordados foi a pirataria e a alternativa de usar softwares livres. Cerca de 10 mil pessoas foram “batizadas”.

Enquanto isso no ponto de encontro de gente cool…

Não quero bancar o mala nem tirar o significado de party do título evento. Mas, num apanhado geral, os blogs me decepcionaram muito. Tenho certeza – ou pelo menos quero acreditar – que alguns blogs fizeram uma cobertura melhor e mais significante do que de bom aconteceu no Campu Party. E eles merecem ser divulgados.

A eterna e ridícula rixa entre blogueiros e jornalistas ganhou mais uma capítulo. E, diga-se de passagem, positivo à mídia tradicional. Enquanto blogs publicavam comentários sobre promoções, brindes, som alto e o vídeo do Rick Roll, grandes portais – via seus derivados, os ridiculamente chamados dinossauros – relatavam tudo o que de valor social acontecia, inclusive os fatos citados acima.

É hora dos blogueiros brasileiros repensarem suas discussões e atitudes. Festar é bom, mas há um limite.

Ou isso, ou o tão cobiçado respeito aos blogs jamais será alcançado.

¹ Aliste-se: você fez a cobertura do Campus Party? Deixe o link do seu blog nos comentários.

² BBB: a Nathalia Grün foi a representante do QMaT na premiação do Best Blogs Brazil. Fotos da guria recebendo o prêmio em breve!

³ Agrado: recebi neste sábado um kit de verão muito bacana da Mormaii. A cortesia veio com um par de chinelos, toalha de praia e camiseta. To praticamente preparado para o Blogbeach! :D

Lições para um blogueiro

A primeira vez que eu vi um foi na faculdade. A notícia de que ele havia se transferido para cá caiu como uma bomba. Ok, caiu como uma bomba para nós, que pouco havíamos ouvido falar sobre. Quem não fazia idéia do que se tratava apenas balançou a cabeça positivamente e sobrancelhas para cima, aquele típico gesto que fazemos quando alguém diz “trabalho com criança deficientes”.

Sua recepção foi indiferente. Só ficamos realmente por dentro da novidade quando o Werner surgiu, afoito, com uma expressão que mesclava surpresa, felicidade e muita sede. Ou seja, assustadora. Dizia que ele era diferente de tudo o que imaginávamos. Precisávamos vê-lo. E lá fomos nós.

A impressão inicial, confesso, não foi lá das melhores. Ele estava encostado na parede vestindo do YPosts enquanto twittava num LG Renoir. Calçava um tênis maneiro da West Coast. Ou era da Converse? Não importa, mas a bermuda era da Mormaii. A mochila era ecologicamente correta. E a pele parecia muito bem tratada.

- “Então isso que é um blogueiro?”, questionou Fânzeres, sempre ponderado e receptivo.
- “Parece que sim. Você queria mais o que?”, retrucou o Marcosa, que nunca entendeu muito bem esse negocio de redes sociais.
- “Não gostei dele”, foi só o que comentou o Nove-e-quinze, que tinha esse apelido não lembro o motivo.

Aquela visão, para nós, era inédita. O blogueiro recém conhecido transpirava um ar arrogante. Inocentes, achávamos que isso era incomum. Mesmo protegido por uma postura de figura intocável, decidimos tentar trocar algumas palavras. Quem sabe gestos, qualquer coisa que resultasse numa interação espontânea.

Chegamos e o primeiro a tentar contato foi o Nove-e-quinze:

- “Ô blogueiro.”
- “Blz?”
- …
- “Ele disse abreviado?”
- “Qualé, nove? Ninguém fala abreviado.”
- Lol.

Foi então que, num breve momento de lucidez, o Marcosa lembrou já ter visto esse blogueiro em algumas revistas. O cara é um pro-blogger, havia largado o emprego numa mobiliária para reproduzir material de blogs internacionais em seu blog. Era o tipo espertão. “Parece que ele gosta de ser chamado de roteador de conteúdo”, comentou o Werner enquanto o blogueiro fazia um post patrocinado de última hora pelo seu celular.

Voltamos para o papo com ele. Queríamos socializar, ver como funcionava essa espécie de ser humano.

- “Mas então, blogueiro. Tá afim de tomar uma cerva depois da aula?
- “#NOB?”
- “Ele ta abrev…”
- “Eu sei, eu sei. Meu irmão, qual é a tua?”
- “Vai começar de #mimimi?”

- “Nunca achei que fosse tão difícil conversar com um pro-blogger”, raciocinou brilhantemente o Marcosa. Foi exatamente a deixa para começarmos uma experiência bastante interessante. Quem abriu o serviço foi o Nove-e-quinze, sem o mínimo de dó. Desceu um belo de um cascudo no maluco.

- “Como é ser blogueiro?”
- “O que acontece quando encostamos num blogueiro?”
- “Qual o cheiro de um blogueiro?”

- “O que você come?”
- “Você tem irmã, blogueiro?
- “Qual é, Marcosa? Você ia querer ter uma irmã blogueira?”
- “Eu ia encher de porrada o cara que chamasse minha irmã de blogueira”.

E assim fomos cutucando o blogueiro e distribuindo cascudos até prensarmos ele na parede, agindo como Biff’s que nunca fomos. Ele foi se acusando, completamente atordoado e sem saber o que falar ou que tag usar. Até que paramos. E ele fugiu, correu, correu muito e só foi parar quando chegou no lugar onde os blogueiros moram – seja lá onde for isso.

A atitude indiferente dele, tratando-nos como menores, foi aparentemente repreendida. Mesmo que na base da força, o colocamos no seu devido lugar e aparente posto. Aquele blogueiro tomou uma lição. Ah, tomou. Aos poucos ele aprendeu a respeitar todos na faculdade, desde o pessoal do jornalismo, da publicidade, do direito e até da administração.

O blogueiro entendeu que está na mesma barca que todo mundo. Principalmente, o blogueiro aprendeu a respeitar quem pouco conhecia de blogs ou queria iniciar um. Viu ele que nem tudo gira em torno de seu mundo blogosférico. Descobriu que aqui fora, atrás do monitor, a vida é muito mais dura. E, pasmen, parou apenas de falar, criticar e reclamar do mundo. Começou a agir.

Foi uma vitoria. Com base nisso, até hoje, quando qualquer blogueiro aparece por aqui, fazemos questão de repetir o ato.

É bom dar uns tapas num blogueiro de vem em quando.

¹ Lost: A IsFree, atenta a estréia da quinta temporada de Lost, está com uma cobertura incomparável. Confira aqui.