Licença poética

Todo mundo tem um dia ruim. Ok. Em alguns casos, anos. São períodos de crise intelectual, criativa e até de motivação. Passagens e situações que nos fazem abdicar do bom gosto e investir em áreas que não temos conhecimento e, muitas vezes, de qualidade duvidosa. Esses buracos negros da nossa existência não podem ser apagados, mas servem como aprendizado. “Reconhecendo os erros do passado moldamos o futuro”, já dizia o blogueiro.

Esse tempo ruim muitas vezes tem seus motivos. Pode ser causado por um problema sentimental, de personalidade ou até financeiro. Em outros casos apenas não há explicação. Acontece. E gênios contemporâneos caem em desgraça com criações irreconhecíveis e vexatórias. Temas e obras que nos fazem desacreditar na capacidade e tudo o que nos fez admirar determinado individuo.

É a licença poética do artista. A liberdade de errar. A hora de errar. Não que exista uma hora certa para errar, mas existem casos que o erro surgem para incrementar o contexto histórico e deixar tudo mais, digamos, romântico. A reerguida de uma carreira faz parte do arquétipo de idolatria. Quando ela não acontece, a admiração fica nos sentimentos mais saudosistas de quem já foi o melhor.

Paul McCartney, por exemplo. O beatle fofolete teve um período obscuro entre 1985 e 1990. Gravou um dos maiores fracassos de sua carreira (Press to Play) e abusou dos tributos e parcerias. Tentou com Elvis Costello, mas “Veronica” foi apagada pelo horripilante “Say Say Say”, música gravada com Michael Jackson que virou piada.

Essa fase politicamente correto e eco-chato de McCartney rendeu até uma homenagem ao líder seringueiro Chico Mendes com a música “How Many People”. Mas ninguém lembra. Era um Paul um pouco sem graça, sem marketing, sem brilho e que, ao contrario de quase toda carreira, não merece grandes citações.

A formação de rock progressiva do Yes, então com John Anderson e Chris Squire, era promissora e já comprovadamente boa. As versões extensas e dramáticas que lembravam o Deep Purple e os vocais marcantes de Anderson logo se tornaram a marca registrada da banda.

A formação clássica rendeu excelentes músicas, como “Everydays” e “Yours is No Disgrace”. Até 1972, com os álbuns Fragile e Close to the Edge, o Yes era uma das bandas de maior prestigio no mundo. Porém, as inúmeras brigas e trocas de integrantes resultaram no fim do conceito do grupo.

Em 1982, depois de uma confusão danada, um monte de músicos novos e bandas paralelas entre os integrantes, o Yes lançou 90125. Um dos discos mais vendidos da década e, curiosamente, o que mais foge da proposta criada lá nos anos 70 por Anderson e Squire.

Não é uma fase ruim. Há quem goste dos dois períodos. Mas, sei lá. É um Yes mais MTV.

E o Yes não é pra ser MTV.

Ninguém duvida da competência de Stevie Wonder. O mastro, que é de origem baterista, tem uma musicalidade absurda que beira – e algumas vezes ultrapassa – a perfeição. Wonder é o recordista vivo de Grammys com 25 prêmios. É um dos artistas mais antigos da Motown, lendária gravadora americana que produziu para Michael Jackson, Marvin Gaye entre outros.

Mas também fez suas cagadas.

A carreira de Stevie Wonder dividi-se da seguinte maneira: antes e pós período comercial. Antes, gravou clássicos como “Fingertips” e “I Was Made to Love Her”. Abusou – no bom sentido – do blues e da batida marcante com “For Once in My Life”, “Superstition” e “I Believe”. Foi o inicio de uma lenda.

Aí, o negrão se vendeu. Partiu para seu período comercial. Gravou com Prince, Elton John, McCartney, Julio Iglesias e fez até uma gaita marota para o Djavan em “Samurai”. Mas foi em 1984, para a trilha sonora do filme A Dama de Vermelho, que Stevie Wonder acordou e decidiu ligar apenas para dizer te amo.

E, assim, fez-se um clássico. Um clássico das musicas ruins que são boas. Não se tem informações do estado do músico durante a criação dessa música. Tudo leva a acreditar que ele não estava num dia legal. Ou apenas seguiu o briefing.

Mas com certeza ganhou seus trocados.

Licença poética para “errar”.

Licença “concedida”.

A fita infalível

Minha primeira lembrança de piratear músicas remete a fita BASF laranja e preta. Você deve lembrar desse tempo. Epoca da gravação raiz, sem artifícios tecnológicos e os famigerados sites e softwares compartilhadores de arquivos. Você não tinha opção. Era preciso passar as músicas de um vinil para a fita. Costumava ser um belo presente. Especialmente se você tinha o mojo de gravar um fita.

Pois, meu amigo, gravar uma fita não é apenas gravar um fita.

A ordem das músicas pode ser feita de três modos. A começar pela cronológica, onde você deixa uma mensagem implícita por meio das letras. Aí é como escrever uma opera. É preciso muita atenção nos atos, achar o ponto certo para o ápice e encerrar, talvez, Steviewonderizando entre 72 e 76, a melhor época dele.

Pode ser também por ano de lançamento. É o básico da gravação, não tem erro. Demonstra organização e bom conhecimento musical. Atente-se ao sentido emocional dessas músicas. Comece os lados sempre com a segunda melhor. As três primeiras precisam manter o ritmo. De uma quebrada na penúltima, onde você diz tudo o que quer. Reencontre a alegria e faça ela entender que vale a pena finalizando com a melhor música do mundo.

E, finalmente, há a terceira e infalível opção. É um coquetel de bandas e épocas que remetem à fita infalível. Não é uma lenda. Ela realmente é infalível. Pode me cobrar depois. Não importa quem é a mulher. Se ela não for surda, você terá sucesso. Pois, desafiando todas as leis do modismo universal, essa fita contém o que você precisa para falar o que nunca conseguiu. Um fita, um walkman e fones de ouvido. Mais barato e fácil que comprar uma BMW pra comer alguém.

Faça o download do vídeo nesse link: http://pdh.co/afitainfalivel. E se vire para achar um gravador. E uma fita virgem. Se for uma BASF laranja e preta, melhor ainda. Valerá o esforço.

De nada.

Lado A:
01. Blind Melon – No Rain
02. John Wesley – I’m Wrong About Everything
03. Democustico – Pera
04. Nina Zilli – 50Mila
05. Echo & The Bunnymen – What Are You Going to do With Your Life
06. Mumm-ra – She’s Got You High

Lado B:
01. Fire Inc – Tonight Is What It Means To Be Young
02. The Velvet Underground – Oh! Sweet nuthin
03. Ringo Star – Walk With You
04. Carla Bruni – Quequ’un M’a Dit
05. Kassidy – Take Another Ride Official Video
06. Stevie Wonder – I Believe (When I Fall In Love)

5 passos para gravar uma fita matadora

1. Evite clichês. Black Eyed Peas e Rihanna ela ouve todo dia, pra não dizer toda hora, na Jovem Pan.

2. Dane-se a música preferida dela. Se é preferida, ela tem no computador, no iPod e como toque de celular. Ela não quer outro meio de ouvi-la.

3. Pesquise o lado B. Elvis Costelo, Pearl Jam e The Velvet Underground têm muita coisa boa escondida. Não seja preguiçoso.

4. Seja caprichoso. Faça uma capa bacana. Inclua alguma mensagem subliminar, como a acróstico ou desenhos que só vocês entendam.

5. Personalize a fita. Faça algo exclusivo. Faça algo que as amigas dela morram de inveja. Invista na fita para que seja a fita dela.

Não grave um CD. Esqueça o CD. CD não dá grau.

Paul McCartney em Porto Alegre; eu no Beira Rio

“Não existe nada mais bonito que um estádio de futebol”.

Meu pai não é intelectual, filosofo, cientista ou antropólogo cultural. Não conhece as pirâmides do Egito ou a visão da Torre Eiffel. Jamais esteve na Tailândia, Holanda, Itália ou na Lua. Mas observe a força dessa afirmação. “Nada é mais bonito que um estádio de futebol”. Isso, até hoje, soa como um dos maiores aprendizados da minha infância. Ouvi na primeira vez que entrei num estádio de futebol – 10 de agosto de 1994, estádio Olímpico, Grêmio x Ceará – . Meu pai, já com os olhos vermelhos e por meio de uma voz rouca que evitava o engasgo, afirmou que aquela era a visão mais bonita do mundo.

Eu acreditei. E, a partir daquela noite, entendi que o futebol era mais importante que qualquer outra coisa. Virei um torcedor. Não um torcedor fanático, mas um torcedor apaixonado. Tive – e ainda tenho – algumas manias. Não gosto de camisetas de cor vermelha. Evito qualquer coisa que remeta ao S.C.I. E acreditem. Até hoje não sei como foram os gols da final da Taça Libertadores deste ano. Fiquei 15 dias sem assistir programas de esporte.

Ou seja: graças ao gol do Nildo Bigode naquele jogo, a vitoria, o título e o reflexo filosófico do meu pai eu virei um gremista.

Seis de setembro de 2010. Depois de um longo período longe dos gramados, lá estava eu de novo no Estádio Olímpico. E mais uma vez o adversário, vejam vocês, era o Ceará. A enorme diferença dessa vez foi que eu previa uma traição no domingo. Entrei no Olimpico rezando, pedindo perdão a São Portaluppi e aos apóstolos Baltazar Maria de Morais Júnior e Andre Catimba. Senti olhares maliciosos de irmãos gremistas de todos os lados. Do quadro social [Seja Sócio], passando pela loja até o xis pré-jogo pude ouvir sussurros de desaprovação. Estava escrito na minha testa.

Meu destino, em 7 de novembro de 2010, era o Gigante da Beira Rio.

O show de Paul McCartney, com quase três horas de duração, é uma viagem recheada de naftalina, lembranças, homenagens e, principalmente, historia. Em alguns momentos era possível ver fãs parados observando Paul. Naquele minuto, talvez apenas naquele, eles o admiravam e imaginavam o que aquele homem passou. Fatos como sua importância para a música. Mais do que um entretenimento, a música de alguns gênios – e aí estamos falando de Beatles – deve ser tratada como uma obra de arte. Um presente para que nós, simples mortais, tenhamos uma eterna divida de gratidão com essas pessoas.

Se a música é a grande revolução cultural do século XX, o surgimento dos Beatles foi o estopim para o primeiro manifesto. E foi assim que o público de mais de 50 mil pessoas recebeu Paul McCartney no domingo em Porto Alegre. O senhor de 68 anos apresentou, além do talento nato em cinco instrumentos, uma forma impecável no palco. A produção proporcionou ainda um som intacto, limpo, sem qualquer motivo de reclamações. E dois enormes telões mostravam com precisão todas as rugas do Sir.

A abertura com a pop Jet levou os fãs até 1974, ano de lançamento do álbum Band on the Run. Ainda no primeiro quarto de show Paul relembrou os Beatles com All My Loving. Na sequencia as luzes diminuíram e Paul enquadrou-se no piano para tocar baladas que marcaram sua carreira solo, como Nineteen Hundred and Eighty-Fiv e My Love. Uma das mais esperadas da noite, a belíssima The Long and Winding Road, foi dedicada aos namorados.

O show seguiu com uma sequencia de músicas da década passada e clássicos manjados e deliciosos, como And I Love Her, Dance Tonight, Blackbird, Mrs Vandelbilt e Dance Tonigh. Houve ainda dois tempo para duas homenagens. A primeira para John Lennon com Here Today, canção que Paul compôs para John após sua morte. Depois foi a vez de George Harrison ser relembrando em fotos projetadas e com a obra prima Something. A música ganhou um arranjo poderoso inspirado na regravação de Elvis Presley.

Antes do primeiro bis Paul voltou a pianos e trouxe uma trinca poderosa: Let It Be, Live and Let Die e Hey Jude. Inclusive, Live and Let Die ganhou todos os efeitos que fizeram essa apresentação famosa. Fogos surgiram dentro, ao lado e sobre o palco para acenderem ainda mais o público e aquela noite com uma única estrela em Porto Alegre.

O bis teve dois momentos. No primeiro: Daytripper, Lady Madonna e Get Back. No segundo, que passou incrivelmente rápido, três das músicas mais tocadas da historia: Yesterday, Helter Skelter e Sgt Peppers Lonely Hearts Club Band. A primeira, sem duvida, a mais conhecia de Paul. A segunda, para muitos, a mais pegada dos Beatles. E a terceira um verdadeiro marco da música, cheia de mensagens e segredos revelados nas entrelinhas.

A turnê Up and Coming Tour é, eu diria, uma homenagem de Paul McCartney a Paul MacCartney por tudo o que ele viveu nas ultimas décadas. Ele convida os admiradores de sua musica e oferece um tipo de reverencia. Reverencia essa que vem por meio de acordes que fazem, ao mesmo tempo, sorrir e chorar. Com música, você tem domínio. Com domínio, você tem poder. E nada melhor que ver o poder – e a palheta – desta tal música estar na mão esquerda daquele senhor.

Entrei no Beira Rio às 19h. Nunca havia pisado na arquibancada do estádio, o que dizer do gramado? Quando vou embarcar em aviões não gosto de olhar para os lados. Fico de cabeça baixa olhando a ponta dos meus pés até chegar a hora de procurar minha poltrona. Isso se deve ao medo de olhar para um canto e ver um parafuso enferrujado ou uma parede descascada. Na entrada do Beira Rio aconteceu exatamente isso. Fixei no chão e segui.

Na passarela que dividia a arquibancada do gramado senti o cheiro da grama. Aquilo foi me deixando apreensivo. Não gostaria de estar ali e muito menos tentar adivinhar minha reação ao levantar o queixo.

Cinco, seis passos a frente olhei para frente, onde estava o palco. Olhei em volta, onde o público já se acomodava em busca do melhor lugar. O estádio vermelho estava lotado. Pareciam todo me olhar. E rir. Riam muito. Eu era o arbitro de futebol entrado no gramado. Senti vergonha. Mas também cedi ao bom senso. A visão de um estádio lotado é inesquecível. As pessoas estavam em êxtase. Era como se fosse um jogo ganho, onde todos estavam convictos de uma goleada do time da casa. O campo de futebol, mais uma vez, era a coisa mais bonita entre todas as coisas mais bonitas do mundo. Eu tinha que admitir isso, mas não queria – e ainda não quero.

Faltavam pouco mais de três passos para pisar no gramado. Parei por um segundo, o suficiente para alguém que vinha atrás empurrar e me jogar para o piso natural. Pisei no gramado. Pisei no Beira Rio. Pisei no gramado do Internacional. E, involuntariamente, pisei com o pé esquerdo.

Pisei com o pé esquerdo no Beira Rio e assisti o show de Paul McCartney. Ou assisti o show de Paul McCartney e ainda pisei com o pé esquerdo no Beira Rio?

Não sei. Mas gosto de lembrar que pisei com o pé esquerdo no Beira Rio. Sério.

¹ Dica: Setlist da turnê Up and Coming Tour.

Al Green e David Gilmour together

Três e quarenta e sete da manhã. Nesse momento, quando escrevo o quê do quando são três e quarenta e sete da manhã. Acordei com um telefone desesperado, meio terrorista, com uma voz atônita e surpresa do outro lado da linha.

- “Cara, cara… Te acordei?” Bruno Fanzeres, 25 anos, carioca, palmeirense e criado em Mato Grosso.- “Não. To dormindo ainda. Pode falar.”

- “Acharam ele. Acharam o Al Green, mano. Tem um vídeo dele no Youtube.”

- “Tem vários.”

- “Mas esse é novo. Al Green mandando Let’s Stay Together ao vivo mês passado num programa inglês. Full hd 1080 dpi do negão. E mais: com David Gilmour na guitarra”, disse, possivelmente com os olhos emaranhados e acendendo outro cigarro.

Parecia, mas não era trote. Al Green e David Gilmour juntos, uma das mistura mais imprevisíveis que a musica podia imaginar. E sem a hipocrisia de um show beneficente. Apenas fazendo um som no programa do Jonathan Ross, popular comdiante inglês. Um David Frost sem grife.

Assisti o vídeo. É visível que a voz do reverendo Al Green não é mais a mesma. Mas o conjunto presença de palco, carisma e, principalmente, tempo de música parece ter somente melhorado com o tempo. É emocionante ver a felicidade do Al Green frente ao microfone. A participação do público após o segundo pedindo também é de arrepiar.

Já o mestre Gilmour, apesar de não demonstrar um guitarwise lá muito surpreendente, fez bem o seu papel. Não chamou para si toda a atenção e acompanhou a banda. Tal como um gentleman.

Al Green e David Gilmour. Let’s Stay Together. Surge um novo clássico no Youtube.

Arquétipo do trem

É engraçado ver como algumas coisas simples da vida podem mudar, inclusive, o conceito de seus argumentos. Eu, já há alguns anos, digo que com argumentos qualquer merda é aceita. Mudo de opinião. Mudo na mesma velocidade como mudo de desejo, paixão ou medo de errar. Um argumento só é forte quando ele gerado para rir o riso ao seu contentamento. Ou seja, quando é visando o bem para ambos.

John Nash, que introduziu o conceito de equilíbrio na teoria dos jogos, foi brilhante. Disse ele que o grupo só sai vitorioso se o individuo agir visando o melhor para ele e para o grupo. Na vida, por mais que necessitamos de momentos de egoísmo, o grupo deve estar sempre em primeiro plano.

Alguns dizem: “não me arrependo do que fiz. Só me arrependo do que não fiz”. Bobagem. Esse é o cumulo do orgulho. Eu me arrependo de muitos erros. De todos os erros, inclusive. Mas o mais questionável, o que mais me enchem o saco, é o fato de pensar no outro antes de pensar em si.

Hoje, sóbrio de orgulho e de alma, vejo que sempre pensei no macro. Dane-se eu. Quero ver os que estão ao meu redor bem. E isso, automaticamente, me faz bem. Inocente como um poema de quinta serie. Mas deprimente como uma bossa-nova.

Sendo assim, nada paga a reciprocidade da valorização.

Ninguém disse que a vida há de ser fácil. Muito menos que, mesmo difícil, ela seja ruim. O amor só é bom se doer.

Hoje eu sorri.

Festa CREW

Todo mundo sabe que o Quem Matou a Tangerina??? é um blog macho, camisa 5, volante brucutu. Logo, não gosta de música eletrônica.

Mas gostamos de bons blogs. E de blogueiros com tino comercial, ligados em mídias sociais, de bom gosto, sacadas interessantes e que pagam a conta do bar. Esses são os trutas do Factóide. O blog mato-grossense é um excelente roteador de conteúdo pop e musical. O foco, evidentemente, é a música eletrônica. Mas volta e meia as mentes criminosas daquele blog comentam, com muita autoridade, cinema, games, quadrinhos e outros temas relevantes para a procrastinação.

O grande lance é que o Factóide esta apoiando a Festa CREW. O evento, que por pouco não virou Festa EITION, foi eleito pelo Guia Folha do Jornal Folha uma das grandes manifestações da cena eletrônica. A Festa CREW reúne DJs de primeiríssima categoria. Saca esse Line-Up:

Database (Smartbiz SP)
Killer on the dance floor (3plus-SP)
Fabrizio Martinelli (Smartbiz SP)

Foda, né? Não sei, não manjo, mas o Ivo Neuman curtiu e confio nos caras do Factóide e na Serelepe Camila.

A Festa CREW é nesta quarta-feira, (02.06), véspera de feriado, no Club Garage em Cuiabá (MT).

De George Harrison para Emerson Fittipaldi

Emerson Fittipaldi sofreu o mais grave acidente de sua carreira em setembro de 1997, justamente na semana em que comemorava os 25 anos do primeiro título da Fórmula 1. Em vez de comemorações, Emerson passou a data no Jackson Memorial Hospital, de Miami, preparando-se para uma cirurgia da coluna. Foi o resultado de uma aventura que por pouco não teve fim trágico.

No domingo anterior, Emerson saiu para passear de ultraleve nas vizinhanças de sua fazenda de laranjas em Araraquara, interior de São Paulo, junto com o filho Lucca, de 6 anos. Depois de uma hora de vôo, perdeu o controle do aparelho, que despencou de uma altura de 100 metros sobre um pântano. Após uma dramática operação de resgate ainda na noite de domingo e a bem-sucedida operação em Miami, Emerson conseguiu dar alguns passos, na sexta-feira. Sua carreira como piloto e campeão do automobilismo, no entanto, chegou ao fim. Na quinta-feira, Stephen Olvey, o médico oficial da Fórmula Indy, anunciou que Emerson está fora das corridas de carro para sempre.

Ser obrigado a deixar o que mais ama, principalmente para os esportistas, é traumático. Algumas homenagens foram feitas, mas tímidas. Fittipaldi nunca foi um Senna do carisma e audiência. Os programas relembravam a carreira do ex-piloto num modo de obrigação. Muito clichê, pouca significância nos depoimentos.

Contudo, um merece a lembrança. Poucas pessoas no mundo devem ter tido a honra de receber tão importante depoimento. Mais do que isso, Emerson Fittipaldi talvez tenha sido o único ser humano que ganhou uma adaptação de Here Comes The Sun para seu nome. Exatamente: George Harrison, de Londres, gravou um depoimento ao tri-campeão.

É meio assustador, não? Parece algo tão distante um ex-beatle para um piloto de corridas brasileiro. Mas o fato é que Harrison era fanático por automobilismo. Daí a amizade.

E a, porra, baita homenagem.

Enganadores que ouvimos – Bruce Springsteen

Alguns cantores surgem no palco com uma placa pendurada no pescoço: olá, sou uma enganação. Bruce Springsteen é um desses. Sujeito mascarado, de calça jeans surrada, patriota e com pinta de bad boy do bem, que canta We Are The World e atende telefonemas de doações a países pobres.

Eu tenho um LP dele, o Born In The USA. Mas não a versão original, com o close na bunda do cantor. Tenho um álbum alternativo, com ele pulando na capa. Um dos maiores manifestos musicais de patriotismo americano, Born In The USA
é o maior sucesso do piegas cantor. A música foi a mais tocada no ano do seu lançamento, em 1984. Até hoje é um tipo de hino americano não oficial.

Na madrugada passada eu assisti Philadelphia (1993), bom filme com Denzel Washington e Tom Hanks. A trilha sonora, Streets of Philadelphia, foi composta por Springsteen exclusivamente para o filme. De quebra, a canção levou o Oscar de melhor trilha sonora e quatro Grammys, incluindo os de Melhor Música de Rock e Música do Ano.

Já hoje de manhã, no caminho até a agência, ouvi na rádio She´s The One. Ouça essa música. Ela vai grudar na sua cabeça até a ressurreição de Tiradentes. A pegada da E Street Band é, como de costume, marcante. A introdução criada pelo tecladista Danny Federici e tocada na gaita por Springsteen é valiosa.

O retorno de Springsteen ao mainstream foi bem por acaso. Mas bem por acaso mesmo. Em setembro de 2001, quando a música Born In The Usa transformou-se em hit para intensificar o americanismo ferido após os ataques terroristas as Torres Gêmeas.

Hoje, bem ou mal, ele segue sendo um enganador. Mas um baita enganador talentoso. Tanto que, em menos de 24 horas, estava na minha coleção de discos, no Corujão e na suposta rádio da TVCA em Cuiabá (99.1 FM).

Bruce Springsteen, um dos top 5 dos enganadores que ouvimos.

¹ West Coast: confira o sorteio da Lista de Desejos da West Coast.

O dia que Lorne Michaels pediu perdão a Elvis Costello

Em 17 de dezembro de 1977 Elvis Costello, no auge da carreira e logo após o lançamento do álbum My Aim Is True, foi apresentado como atração musical do Saturday Night Live. E de última hora, diga-se de passagem. Costello foi chamado para cobrir o buraco pelo Sex Pistols. O grupo inglês cancelou a ida ao programa horas antes do seu início devido problemas com o passaporte de Steve Jones – diz a lenda.

A oportunidade foi bem recebida por Costello e pelos empresários. A idéia da gravadora era, na maior audiência da televisão americana, fazer estourar o hit “Less Than Zero” nas rádios. Logo, a ordem da gravadora era tocar essa canção. Além dessa jogada publicitária, havia uma certa preocupação da gravadora e do produtor do SNL, Lorne Michaels, em relação a canção “Rádio, Rádio”. Essa música era uma declarada e explicita crítica aos meios midiáticos. Nada bom para a gravadora, Michael e, claro, a NBC.

Elvis Costello, até o início do show, parecia estar de acordo com as ordens. A banda chegou a tocar os primeiro acordes de “Less Than Zero”. A segunda estrofe se aproximava quando o cantor interrompeu a sua banda Attractions. Mais do que isso, Costello disse que a audiência não merecia ouvir aquela música e mandou a banda tocar “Rádio, Rádio”.

Enfurecido, Lorne Michaels tirou o programa do ar e decidiu que Elvis Costello nunca mais tocaria no SNL.

Em 1999, no aniversário de 25 anos do programa, Lorne Michaels decidiu corrigir a bobagem do passado. Como era de se imaginar, o pedido de perdão veio em grande estilo. Egocêntrico assumido, Michael sugeriu que Costello interrompesse o novo show – mas de um terceiro. A vítima foi nada menos que os Beastie Boys.

Observe que Costello age da mesma maneira que em 77, ordenando a interrupção da banda e anunciando o que a platéia realmente merecia ouvir.

¹ Imagens: o vídeo de 1977 não existe no Youtube. Mas você pode conferi-lo nesse link ou no DVD 25 Anos de Música SNL – Disco 1.

Wilson Simonal no especial da Record

Uma miragem atingiu minha televisão na noite dessa sexta-feira. O programa “Lobão Ao Mar” (MTV) fez um especial homenageando Wilson Simonal. Foi um show desplugado com os filhos do cantor, Max de Castro e Simoninha, e o apresentador que cheirou cinzas sobre um caixão no filme Areias Escaldantes (1985): João Luíz Woerdenbag Filho, o Lobão.

O trio apresentou-se em brilhante sintonia, relembrando clássicos e um pouco do lado B de Wilson Simonal. Entre as canções um descontraído bate papo de Lobão com a prole. Desde o início no Dry Boys até a acusação de espião da ditadura militar quer sujou a carreira de Simonal e o fez, de forma absurdamente injusta, morrer no esquecimento.

Wilson Simonal foi um dos grandes da música brasileira. Tão importante para o brazilian funk/soul quanto o Tom Jobim é para a Bossa Nova ou Cartola ao samba. Além disso, tinha uma presença de palco inigualável. Um showman de primeira, como disse o próprio Lobão. Esse comentário me fez garimpar no Youtube uma apresentação do cantor num especial da TV Record em meados da década de 70. A sua capacidade para controlar o público lembra, guardando devidas proporções, o lendário Sammy Davis Jr., citado nesse post de maio de 2008.

No vídeo podemos observar Ronald Golias, Ricardo Corte Real e Gilberto Gil, só para ficarmos em alguns ícones da cultura brasileira. Todos aos pés do maestro.

Alegria, alegria.

¹ Dica de filme: Ninguém Sabe o Duro que Dei.

² Dica de livro: a obra que originou o filme acima.