Tudo começou em 1965 com o “Na Onda do Iê-Iê-Iê”, apenas com a dupla Didi e Dedé. Mal sabiam eles que, 26 anos depois, Os Trapalhões, já com o significativo acréscimo de Mussum e Zacarias, chegaria à extraordinária marca de 23 filmes e mais de 120 milhões de espectadores. Alguns bons, outros, errr, razoáveis.
A filmografia de Os Trapalhões marcou mais de uma geração. Vinte ou trinta e poucos anos, não importa. Você certamente perdeu uma tarde assistindo um longa do quarteto numa Sessão da Tarde perdida. Ou, quem sabe, foi ao cinema. Afinal, dos 10 filmes mais vistos do cinema brasileiro, sete são do Os Trapalhões.
Não por acaso, o primeiro filme que assisti no cinema foi justamente do quarteto. Em 1990, no extinto Cine Cacique em Porto Alegre (RS): A Princesa Xuxa e os Trapalhões, de José Alvarenga Jr.
A história se passa no planeta Antar, onde o vilão Ratam (Paulo Reis) pretende tomar o poder após a morte do imperador. Mantida dentro do palácio, a Princesa Xeron pensa que todos são felizes. Mas não. As crianças são mantidas como escravas.
Para abrir os olhos da futura rainha dos baixinhos, os príncipes Mussaim, Zacaling e Dedeon se unem ao Cavaleiro Sem Nome (Didi) e decidem combater Ratam. Um filme recheado de referências de super produções como Indiana Jones e Star Wars. E, inclusive, divertido.
Destaque para duas cenas: a festa à fantasia, quando Mussum vai vestido de frango e a entrada no palácio, quando a senha é “dá uma porrada na cara dele”.

Os Trapalhões na Terra dos Monstros (1989) tem um dos roteiros mais bizarros da história do cinema nacional. Quem um dia foi imaginar que o interior da Pedra da Gávea, no Rio de Janeiro (RJ), seria habitada por monstros? Para Didi, Dedé, Mussum e Zacarias, era uma boa idéia. E até que foi.
Sai Xuxa e surge Angélica no papel de mocinha. Filha de um rico empresário, ela se perde dentro da Pedra da Gávea. O resgate é feito não só pelos trapalhões, mas pelo grupo Dominó que, sabe-se lá porque, estava ensaiando por ali.
Participação especial de Gugu Liberato e seu Sabadão Sertanejo.
Destaque: há um monstro que lembra – muito – o Jaba The Hut do Star Wars.

Em O Casamento dos Trapalhões (1988), Didi, Dedé, Mussum e Zacarias são irmãos (?). Didi, sempre galã, conhece e conquista Joana (Nádia Lippi). Ela vai morar com o caipira, mas sofre diariamente com a falta de educação dos cunhados.
Então, eles decidem ir até a cidade, onde ocorre uma grande festa. O show fica por conta do Dominó. Ah, antes que eu esqueça: os integrantes do Dominó – Marcelo, Afonso Nigro, Marcos e Nill – são sobrinhos dos personagens dos trapalhões.
Pois bem, após música, briga e muita confusão que essa turminha do barulho vai aprontar, os casamentos são marcados e todos voltam para o sítio. Mas, claro, havia uma pedra no caminho. Pedra essa interpretada por um malvado José de Abreu.
Participação especial de quem? De quem? Gugu Liberato, a dama da TV brasileira.
Destaque: a porrada comendo solta no Bob’s. Ah, e a cena que Dedé e Zacarias tentam espiar Didi e Joana. Antológica.

Último filme do excelente Carlos Manga, Os Trapalhões e o Rei do Futebol (1986) é uma das poucas produções em que o convidado tem mais destaque que o quarteto. Pudera, estamos falando do Rei Pelé.
Cardeal (Renato Aragão), então roupeiro do Independência Futebol Clube, ganha o cargo de treinador da equipe devido uma disputa de poderes na diretoria. Com seus métodos revolucionários de treinamento, o time encontra o caminho das vitórias. Mas os bons resultados acabam atrapalhando os planos dos dirigentes que buscavam o fracasso.
Pelé, no papel de um repórter chamado Nascimento, ajuda os trapalhões Cardeal, Elvis, Fumê e Tremoço a vencer a desonestidade dos cartolas. Com a experiência de já ter contracenado com Stallone e Michael Caine, o Rei até que não faz feio. Curioso é que Pelé, quatro anos antes, havia convidado Roberto Gómez Bolaños para gravar um filme. Mas o autor de Chaves, mesmo sendo grande fã de futebol, não aceitou.
Destaque: Didi cobra o escanteio e faz o gol de cabeça.

Talvez o mais repetido na Sessão da Tarde, O Mistério de Robin Hood (1990) foi o primeiro filme após a morte do Zacarias. O enredo gira em torno de Rosa (Duda Little), uma menina desmemoriada e órfã cuja existência ameaça os planos do bandido Gavião (Carlos Eduardo Dolabella).
Didi faz o papel do Robin Hood moderno. Ele rouba dos agiotas e contrabandistas e dá dinheiro e comida aos amigos necessitados. O vagabundo é apaixonado pela filha do dono do circo: (adivinhe) Xuxa.
Aliás, Xuxa interpreta surpreendentemente bem nesse filme. Ela se desfaça de homem e engana fácil os desavisados. Convivência com a Marlene Mattos, creio eu.
Destaque: O Mussum é cortado no meio. Na “colagem”, ele é invertido.

De 1989, Os Trapalhões e a Árvore da Juventude merece um destaque especial devido certa participação: Glenda Kozlowski. A apresentadora do Globo Esporte aparece no filme como uma das protetoras da natureza. Porém, o título de musa do filme fica injustamente para Cristiana Oliveira.
Didi, Dedé, Mussum e Zacarias são guardas-florestais que trabalham em plena Amazônia, onde combatem a ação de contrabandistas. Durante uma fuga, eles acabam encontrando a fonte da juventude, motivo o qual leva os trapalhões rejuvenescerem.
Esse filme é comemorativo aos 25 anos do grupo.
Destaque: o ator que faz o Didi jovem. A semelhança é impressionante.

O meu preferido. Uma Escola Atrapalhada (1990) foi o golaço do Os Trapalhões. Uma produção em que o foco não está no grupo, mas sim na história. Tanto que Mussum, Dedé e Zacarias aparecem apenas uma vez. Já Didi, como não podia ser diferente, é o único que tem um personagem mais destacado.
O roteiro se passa no tradicional colégio Matheus Rose, onde os alunos são pegos de surpresa com a notícia de que o prédio será demolido para a construção de um supermercado. Eles decidem agir e, por conta própria, investigam o passado da imobiliária que detém o projeto.
Além de ser repleto de curiosidades, – como Gugu Liberato fazer o papel de professor, Supla interpretar o par romântico da Angélica e ser o primeiro trabalho do Selton Mello no cinema – o filme é uma leve crítica ao sistema educacional antiquado e conservador de algumas instituições. Uma reflexão de que, independente de área ou sistema, é necessário adequação à nova realidade.
Destaque: a cena final, onde a namorada do Didi o confunde com um mendigo. É uma das coisas mais tristes que já vi no cinema.

Infelizmente esses filmes não fazem mais parte da nossa realidade. Devido uma série de fatores como perdas e, principalmente, egos inflados, Os Trapalhões se separaram. Vão-se os risos, ficam as lembranças.
Eternamente, boas lembranças.

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