O futebol, depois do samba, é a maior manifestação cultural brasileira do século XX. E nesse país de proporções continentais, é possível perceber como a postura das torcidas difere-se por região. A torcida é o maior patrimônio de um time de futebol. Passam presidentes, passam jogadores, mas a torcida – e o modo de torcer – é o mesmo durante séculos. O futebol apresentado em campo, observem, é o reflexo da postura, educação e caráter do seu povo.
No último final de semana fui ao estádio assistir Mixto x Operário, encontro dos dois mais tradicionais clubes de Mato Grosso. Mesmo localizado num estádio que já recebeu Pelé nos anos 60, o jogo tinha ares de amadorismo pior que o varzeano. E o mais triste não estava nas caneladas ou falta de preparo físico dos atletas. O mais triste estava justamente na arquibancada.
O cuiabano é um povo parado no tempo para o futebol. Foi deprimente ver duas torcidas organizadas do mesmo time se provocando. Um detalhe: cada “torcida organizada” tinha algo em torno de 15 membros. Era algo semelhante a uma briga de colégio – e olha que nem vou fazer a típica comparação dos gritos de guerra da torcida com aqueles de gincana. Sabe aquela graça que você ve só em situações rículas? Então. Eram as torcidas do Mixto.
Falando em torcida, aqui a arquibancada é dividida em três grupos: os veteranos – aposentado de radinho de pilha que frequentam o estádio há anos e estão lá para ver o jogo; torcida organizada – os marginais citados acima; e os desocupado – pessoas que vão ao estádio porque não tem o que fazer, não sabem a escalação dos times e só vão pra tirar uma onda mesmo.
Não há futebol que resista. Especialmente pelo desleixo dos que estão no grupo dos desavisados. Esse grupo, também, tem como característica reclamar da falta de qualidade dos times. Corneteiros de cartetinha. Porém, são os mesmos que burlam a lei comprando bebida alcoólica de um qualquer pendurado no muro do estádio. Latinhas de cerveja que viram armas durante um momento do jogo – inclusive, sendo arremessadas para o centro do campo.
É fácil reclamar. É fácil falar mal dos times. É fácil falar mal da transmissão da TV e da falta de apoio da iniciativa privada aos times. É fácil criticas a federação local. É fácil meter o pau nas categorias de base dos clubes da capital.
Mas…
Qual é a moral de um torcedor que tem a atitude registrada no vídeo acima de esbravejar contra a péssima gestão de Carlos Orione, presidente da Federação Matogrossense de Futebol há 40 anos? Nenhuma. Voltamos ao parágrafo inicial: o futebol é reflexo do seu povo. O que acontece em campo, de bom ou de ruim, é nada mais que uma extensão da personalidade de sua torcida.
Para que se tenha um futebol digno sem contar apenas com a sorte, é preciso torcida. E é preciso saber torcer. O cuiabano não está preparado para o futebol.
Ou melhor: está preparado, sim.
E merece o que tem.














