Grenal é Grenal

O cantor inglês Ozzy Osbourne iniciou sua turnê no Brasil com um show no ginásio do Gigantinho, que pertence ao Internacional, em Porto Alegre, ganhou uma camisa do clube, mas em cima do palco o “Príncipe das Trevas” acabou agradando aos torcedores do maior rival do clube colorado ao receber uma bandeira do Grêmio e cantar vestido como se fosse uma capa, o que certamente deve ter causado irritação nos torcedores do Inter.

Nota do blogueiro: antes de acabar o show, um integrante da produção de Ozzy colocou uma bandeira do Inter ao lado da bandeira do Grêmio próximo ao baterista. Todos felizes.

Músico, ator, chefe de estado. Não importa.

Sempre vai rolar.

Os times vão fazer camisetas com o nome do cara. Bandeiras serão jogadas ao palco. E até mesmo no show de uma das maiores bandas de todos os tempos, onde seu pensamento deve estar somente naquelas duas horas de música de alta qualidade, você vai se preocupar com a exposição maior do seu time.

É assim que funciona no extremo sul do Brasil. Grenal é Grenal até no futsal da firma. Não trata-se de ganhar. Mas sim, de não perder.

Deus me livre o Ozzy aparecer só com a bandeira de um time. Terminou empatado? Ótimo, bom para os dois.

Muda alguma coisa? Claro que não. Possivelmente o artista que passa por isso nem tenha ideia do que se trata essa rivalidade. Mas nós, bom, nós sabemos a importância disso tudo. E não me venha dizer que é tudo uma bobagem de gremistas e colorados.

Ok, talvez até seja uma bobagem. Mas uma bobagem poeticamente autorizada.

Pois nada é pior que perder Grenal. Nada.

Nada.

O homem que não sabe amar

Os fatores que diferem as reações sentimentais, emocionais e até físicas já foram exemplificados em centenas de livros, filmes e artigos. Psicanalistas explicam que a paixão, quando iniciado, gera uma imagem irreal do parceiro. É algo como o que você sonha com o que ele seja. Com o passar do tempo, e a veracidade explicita e inevitável das personalidades, você vai entendendo que nem tudo são flores. Caso as coisas boas sobressaiam as ruins, o rumo natural é seguido. Se não, um botão eject é acionado e, mesmo que aos poucos, a separação é inevitável.

Essa fase de reconhecimento do território não tem um prazo de atuação. Por mais que isso seja frustrante, não há uma validade ou cronograma exato de ações que farão as coisas terem alguns sentidos. Apenas surge, acontece e passa. Quem vive isso tem um dom: o de amar. É um cara bom, bem intencionado, que vai conhecer, se apaixonar, amar e seguir uma vida recheada de satisfação e amor a família. Esse é o cara limpo. O que um dia já foi sujo, bom, esse dificilmente será corrigido.

O amor dos homens tem um problema bastante serio e único: é absolutamente descartável. O homem ama uma vez. A segurança masculina traça uma linha continua de planos e desejos a partir do primeiro estalo. É quebrado ali um pino de segurança. A paixão deixa o homem totalmente despreparado e suscetível a qualquer acidente no caminho. Basta uma, uma única desilusão para que tudo o que foi aprendido nos filmes da Sessão da Tarde e na música pop inglesa dos anos 80 faça algum sentido: o amor não existe.

Assim surge um novo formato de ser humano. O homem que não sabe amar. Esse homem, assim como citaram psicanalistas maconheiros do século retrasado, é vitima de uma desilusão, apunhalada, traição, mentiras – chame como você quiser -, enfim, de uma sacanagem não literal da incauta que o apresentou ao romance. O homem que não sabe amar sofre de um grave trauma psicológico que gera uma dificuldade enorme de encara relacionamentos logos.

O sofrimento gera monstros. Esse tipo de resultado é capaz de destruir aquilo que foi planejado, desejado e conquistado com o maior esforço do mundo. Não importa o tamanho da satisfação adquirida e convivida com o passar do tempo. Nada supera a dor de um não, a insegurança de uma nova tristeza ou a fraqueza que impede um primeiro passo. O homem utiliza esse sentimento como defesa para evitar um novo desastre. O problema, o maior de todos os problemas, é que essa dor é deliciosamente viciante.

São vitimas do passado obscuro os que preferem o sofrimento de uma paixão incerta e platônica a segurança de um amor garantido e de balões coloridos. Como entender? Não, isso não se explica. E o pior: se explicar perde a graça. As certezas são poucas. Poucas e exclusivas. Ninguém gosta de tocar nesse assunto. Prefere viver e exemplificar em atos o que sente.

Basta observar. A partir de hoje, experimente observar. Cada vez mais o homem não quer um amor para amar. Mas sim, um amor para sofrer.

É na fossa o sentido se faz presente.

A visita de Obama ao Rio de Janeiro

Resumo fidedigno do que será a visita do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, ao Rio de Janeiro em março de 2011. Fonte: viajante do tempo.

13h – Obama chega ao Rio de Janeiro. O presidente dos Estados Unidos desembarca na base aérea do Rio de Janeiro. É recebido pelo governador Sergio Cabral, a orquestra de flautas da Rocinha e Patricia Amorim. A presidente do Flamengo, já na chegada, entrega ao visitante uma camiseta do clube com o número 10 e o nome “Hobama” nas costas. A fabricante pede desculpas.

13h50 – Festa no centro. O evento está montado na Cinelândia para o discurso do presidente dos Estados Unidos. Jorge Aragão, Beth Carvalho e Fernando Abreu fazem um show de abertura. Ivo Meireles é o apresentador.

14h – Negociação. Obama é visto em churrascaria com A$i$.

14h28 – Humor Pânico na TV, CQC, David Brasil e Bruno de Lucca disputam o sósia do Obama que vai aos jogos do Flamengo. O excesso de trocadilhos porcos gera interferência no som e microfonia no palco da Cinelândia.

14h34 – Polêmica. Bobagento, Não Salvo e Treta lançam o boato que Obama foi assassinado no caminho até a Cinelândia.

14h40 – Atraso. Chove muito e a cidade está alagada. Obama pega trânsito e a produção pede para Fernanda Abreu esticar o show. Ela canta “Rio 40 Graus” pela oitava vez e bate um novo recorde.

14h43 – Ameaças. Antes de iniciar “Rio 40 Graus” pela nona vez Fernanda Abreu recebe ameaças de morte do público e sai do palco. Regina Casé é improvisada e inicia um stand up. O texto começa com “Gente, Obama é negão”.

14h55 – Surrealismo. Regina Casé é surpreendida no palco por Bruno de Lucca que faz reportagem para o Video Show utilizando uma handycam. No mesmo palco aparece Eri Johnson, que imediatamente inicia uma competição de baixadinhas com Ivo Meireles. A reunião dos quatro proporciona a abertura de um buraco negro que leva o grupo à outra dimensão.

Todos vibra.

15h10 – Chegada. Com pouco mais de 10 minutos de atraso Obama chega à Cinelândia. No palco a bateria da Beija Flor inicia uma versão samba do hino americano. O publico confunde o hino com as trilhas de Independence Day, Armaggedon e Nascido em 4 de Julho. Mas canta.

15h15 – Surge Obama. Cerca de 50 mil pessoas estão no local. O presidente dos Estados Unidos aparece vestindo a camiseta do Flamengo. O público, grande parte flamenguista, vibra intensamente. Outros torcedores vaiam. Os mais exaltados são os botafoguenses, que deixam o evento. O público cai para 49.991 pessoas.

15h17 – Fazendo media. Obama começa o discurso brindando, bebendo e falando “caipiurinha”. A galera vibra intensamente e puxa um “Sem freio, sem freio, o Obama tá sem freio”.

15h30 – Controle da massa. Obama é diplomático. Fala que Tropa de Elite merecia uma indicação ao Oscar, que Frank Sinatra chupou a Bossa Nova de Tom Jobim e que Negueba é melhor que Etoo.

1541 – Blogosfera na área. A convite de uma famosa marca de refrigerantes – e selecionados porque são amigos do analista de mídias sociais da agência – cinco blogueiros acompanham o evento de perto. Mas, no fundo, isso não faz diferença nenhuma.

15h50 – Bruto. Carlos Cardoso afirma que já sabia o que Obama ia falar e anuncio bloqueio do perfil da Casa Branca no Twitter.

16h – Homenagem. Luciano Huck surge no palco com as coleguinhas do Caldeirão e desafia Obama a acertar 10 cestas de três pontos em sequencia. Obama acerta, dança funk e beija a camiseta do mengão. A platéia vai a loucura com os passos ritmados do presidente.

16h18 – Conclusões. Obama, já na oitava caipirinha, diz que ama o Brasil, o futebol e as Ilhas Malvinas. Emociona-se ao lembrar da infância e diz que o jovem da favela pode ter sucesso na vida. Só não pode desistir tão facilmente de ser jogador futebol.

16h30 – Despedida. Obama executa um mosh com perfeição, cai nos braços do povo e já engata um bloco de bota fora do Carnaval. O serviço secreto americano tenta regatá-lo, mas só vai recuperar o presidente na avenida Graça Aranha já com princípio de coma alcoólico e sem a carteira.

23h – O último ato. Obama ataca de DJ em boate carioca.

Dia seguinte: ressaca moral/mortal.

Licença poética

Todo mundo tem um dia ruim. Ok. Em alguns casos, anos. São períodos de crise intelectual, criativa e até de motivação. Passagens e situações que nos fazem abdicar do bom gosto e investir em áreas que não temos conhecimento e, muitas vezes, de qualidade duvidosa. Esses buracos negros da nossa existência não podem ser apagados, mas servem como aprendizado. “Reconhecendo os erros do passado moldamos o futuro”, já dizia o blogueiro.

Esse tempo ruim muitas vezes tem seus motivos. Pode ser causado por um problema sentimental, de personalidade ou até financeiro. Em outros casos apenas não há explicação. Acontece. E gênios contemporâneos caem em desgraça com criações irreconhecíveis e vexatórias. Temas e obras que nos fazem desacreditar na capacidade e tudo o que nos fez admirar determinado individuo.

É a licença poética do artista. A liberdade de errar. A hora de errar. Não que exista uma hora certa para errar, mas existem casos que o erro surgem para incrementar o contexto histórico e deixar tudo mais, digamos, romântico. A reerguida de uma carreira faz parte do arquétipo de idolatria. Quando ela não acontece, a admiração fica nos sentimentos mais saudosistas de quem já foi o melhor.

Paul McCartney, por exemplo. O beatle fofolete teve um período obscuro entre 1985 e 1990. Gravou um dos maiores fracassos de sua carreira (Press to Play) e abusou dos tributos e parcerias. Tentou com Elvis Costello, mas “Veronica” foi apagada pelo horripilante “Say Say Say”, música gravada com Michael Jackson que virou piada.

Essa fase politicamente correto e eco-chato de McCartney rendeu até uma homenagem ao líder seringueiro Chico Mendes com a música “How Many People”. Mas ninguém lembra. Era um Paul um pouco sem graça, sem marketing, sem brilho e que, ao contrario de quase toda carreira, não merece grandes citações.

A formação de rock progressiva do Yes, então com John Anderson e Chris Squire, era promissora e já comprovadamente boa. As versões extensas e dramáticas que lembravam o Deep Purple e os vocais marcantes de Anderson logo se tornaram a marca registrada da banda.

A formação clássica rendeu excelentes músicas, como “Everydays” e “Yours is No Disgrace”. Até 1972, com os álbuns Fragile e Close to the Edge, o Yes era uma das bandas de maior prestigio no mundo. Porém, as inúmeras brigas e trocas de integrantes resultaram no fim do conceito do grupo.

Em 1982, depois de uma confusão danada, um monte de músicos novos e bandas paralelas entre os integrantes, o Yes lançou 90125. Um dos discos mais vendidos da década e, curiosamente, o que mais foge da proposta criada lá nos anos 70 por Anderson e Squire.

Não é uma fase ruim. Há quem goste dos dois períodos. Mas, sei lá. É um Yes mais MTV.

E o Yes não é pra ser MTV.

Ninguém duvida da competência de Stevie Wonder. O mastro, que é de origem baterista, tem uma musicalidade absurda que beira – e algumas vezes ultrapassa – a perfeição. Wonder é o recordista vivo de Grammys com 25 prêmios. É um dos artistas mais antigos da Motown, lendária gravadora americana que produziu para Michael Jackson, Marvin Gaye entre outros.

Mas também fez suas cagadas.

A carreira de Stevie Wonder dividi-se da seguinte maneira: antes e pós período comercial. Antes, gravou clássicos como “Fingertips” e “I Was Made to Love Her”. Abusou – no bom sentido – do blues e da batida marcante com “For Once in My Life”, “Superstition” e “I Believe”. Foi o inicio de uma lenda.

Aí, o negrão se vendeu. Partiu para seu período comercial. Gravou com Prince, Elton John, McCartney, Julio Iglesias e fez até uma gaita marota para o Djavan em “Samurai”. Mas foi em 1984, para a trilha sonora do filme A Dama de Vermelho, que Stevie Wonder acordou e decidiu ligar apenas para dizer te amo.

E, assim, fez-se um clássico. Um clássico das musicas ruins que são boas. Não se tem informações do estado do músico durante a criação dessa música. Tudo leva a acreditar que ele não estava num dia legal. Ou apenas seguiu o briefing.

Mas com certeza ganhou seus trocados.

Licença poética para “errar”.

Licença “concedida”.

O pífio futebol cuiabano

O futebol, depois do samba, é a maior manifestação cultural brasileira do século XX. E nesse país de proporções continentais, é possível perceber como a postura das torcidas difere-se por região. A torcida é o maior patrimônio de um time de futebol. Passam presidentes, passam jogadores, mas a torcida – e o modo de torcer – é o mesmo durante séculos. O futebol apresentado em campo, observem, é o reflexo da postura, educação e caráter do seu povo.

No último final de semana fui ao estádio assistir Mixto x Operário, encontro dos dois mais tradicionais clubes de Mato Grosso. Mesmo localizado num estádio que já recebeu Pelé nos anos 60, o jogo tinha ares de amadorismo pior que o varzeano. E o mais triste não estava nas caneladas ou falta de preparo físico dos atletas. O mais triste estava justamente na arquibancada.

O cuiabano é um povo parado no tempo para o futebol. Foi deprimente ver duas torcidas organizadas do mesmo time se provocando. Um detalhe: cada “torcida organizada” tinha algo em torno de 15 membros. Era algo semelhante a uma briga de colégio – e olha que nem vou fazer a típica comparação dos gritos de guerra da torcida com aqueles de gincana. Sabe aquela graça que você ve só em situações rículas? Então. Eram as torcidas do Mixto.

Falando em torcida, aqui a arquibancada é dividida em três grupos: os veteranos – aposentado de radinho de pilha que frequentam o estádio há anos e estão lá para ver o jogo; torcida organizada – os marginais citados acima; e os desocupado – pessoas que vão ao estádio porque não tem o que fazer, não sabem a escalação dos times e só vão pra tirar uma onda mesmo.

Não há futebol que resista. Especialmente pelo desleixo dos que estão no grupo dos desavisados. Esse grupo, também, tem como característica reclamar da falta de qualidade dos times. Corneteiros de cartetinha. Porém, são os mesmos que burlam a lei comprando bebida alcoólica de um qualquer pendurado no muro do estádio. Latinhas de cerveja que viram armas durante um momento do jogo – inclusive, sendo arremessadas para o centro do campo.

Clique aqui para ver o vídeo

É fácil reclamar. É fácil falar mal dos times. É fácil falar mal da transmissão da TV e da falta de apoio da iniciativa privada aos times. É fácil criticas a federação local. É fácil meter o pau nas categorias de base dos clubes da capital.

Mas…

Qual é a moral de um torcedor que tem a atitude registrada no vídeo acima de esbravejar contra a péssima gestão de Carlos Orione, presidente da Federação Matogrossense de Futebol há 40 anos? Nenhuma. Voltamos ao parágrafo inicial: o futebol é reflexo do seu povo. O que acontece em campo, de bom ou de ruim, é nada mais que uma extensão da personalidade de sua torcida.

Para que se tenha um futebol digno sem contar apenas com a sorte, é preciso torcida. E é preciso saber torcer. O cuiabano não está preparado para o futebol.

Ou melhor: está preparado, sim.

E merece o que tem.