Todo mundo tem um dia ruim. Ok. Em alguns casos, anos. São períodos de crise intelectual, criativa e até de motivação. Passagens e situações que nos fazem abdicar do bom gosto e investir em áreas que não temos conhecimento e, muitas vezes, de qualidade duvidosa. Esses buracos negros da nossa existência não podem ser apagados, mas servem como aprendizado. “Reconhecendo os erros do passado moldamos o futuro”, já dizia o blogueiro.
Esse tempo ruim muitas vezes tem seus motivos. Pode ser causado por um problema sentimental, de personalidade ou até financeiro. Em outros casos apenas não há explicação. Acontece. E gênios contemporâneos caem em desgraça com criações irreconhecíveis e vexatórias. Temas e obras que nos fazem desacreditar na capacidade e tudo o que nos fez admirar determinado individuo.
É a licença poética do artista. A liberdade de errar. A hora de errar. Não que exista uma hora certa para errar, mas existem casos que o erro surgem para incrementar o contexto histórico e deixar tudo mais, digamos, romântico. A reerguida de uma carreira faz parte do arquétipo de idolatria. Quando ela não acontece, a admiração fica nos sentimentos mais saudosistas de quem já foi o melhor.
Paul McCartney, por exemplo. O beatle fofolete teve um período obscuro entre 1985 e 1990. Gravou um dos maiores fracassos de sua carreira (Press to Play) e abusou dos tributos e parcerias. Tentou com Elvis Costello, mas “Veronica” foi apagada pelo horripilante “Say Say Say”, música gravada com Michael Jackson que virou piada.
Essa fase politicamente correto e eco-chato de McCartney rendeu até uma homenagem ao líder seringueiro Chico Mendes com a música “How Many People”. Mas ninguém lembra. Era um Paul um pouco sem graça, sem marketing, sem brilho e que, ao contrario de quase toda carreira, não merece grandes citações.
A formação de rock progressiva do Yes, então com John Anderson e Chris Squire, era promissora e já comprovadamente boa. As versões extensas e dramáticas que lembravam o Deep Purple e os vocais marcantes de Anderson logo se tornaram a marca registrada da banda.
A formação clássica rendeu excelentes músicas, como “Everydays” e “Yours is No Disgrace”. Até 1972, com os álbuns Fragile e Close to the Edge, o Yes era uma das bandas de maior prestigio no mundo. Porém, as inúmeras brigas e trocas de integrantes resultaram no fim do conceito do grupo.
Em 1982, depois de uma confusão danada, um monte de músicos novos e bandas paralelas entre os integrantes, o Yes lançou 90125. Um dos discos mais vendidos da década e, curiosamente, o que mais foge da proposta criada lá nos anos 70 por Anderson e Squire.
Não é uma fase ruim. Há quem goste dos dois períodos. Mas, sei lá. É um Yes mais MTV.
E o Yes não é pra ser MTV.
Ninguém duvida da competência de Stevie Wonder. O mastro, que é de origem baterista, tem uma musicalidade absurda que beira – e algumas vezes ultrapassa – a perfeição. Wonder é o recordista vivo de Grammys com 25 prêmios. É um dos artistas mais antigos da Motown, lendária gravadora americana que produziu para Michael Jackson, Marvin Gaye entre outros.
Mas também fez suas cagadas.
A carreira de Stevie Wonder dividi-se da seguinte maneira: antes e pós período comercial. Antes, gravou clássicos como “Fingertips” e “I Was Made to Love Her”. Abusou – no bom sentido – do blues e da batida marcante com “For Once in My Life”, “Superstition” e “I Believe”. Foi o inicio de uma lenda.
Aí, o negrão se vendeu. Partiu para seu período comercial. Gravou com Prince, Elton John, McCartney, Julio Iglesias e fez até uma gaita marota para o Djavan em “Samurai”. Mas foi em 1984, para a trilha sonora do filme A Dama de Vermelho, que Stevie Wonder acordou e decidiu ligar apenas para dizer te amo.
E, assim, fez-se um clássico. Um clássico das musicas ruins que são boas. Não se tem informações do estado do músico durante a criação dessa música. Tudo leva a acreditar que ele não estava num dia legal. Ou apenas seguiu o briefing.
Mas com certeza ganhou seus trocados.
Licença poética para “errar”.
Licença “concedida”.
