Alô, geração Playstation.
Oi.
Falo em nome da velha guarda. Homens que tinham, no máximo, dois jogos em casa (e um deles era Super Mario World porque vinha com o Snes). Tive o prazer de viver o auge do vídeo-game raiz, moleque e solitário. Nada de jogos fáceis. Nada de fóruns e sites com cheats e dicas – nada de Internet (!). Nada de múltiplos jogadores. Bom, no máximo dois – e há poucos metros de distância.
A década de 90 foi o auge das locadoras e do cabo RCA. A popularização do vídeo-game formou uma louvável geração. Geração desvalorizada, diga-se de passagem. Foi um tempo onde a poeira no cartucho era tirada no sopro. E os tilts eram vistos como motivação para resetar e tomar a frente de uma nova partida.
Não existia save game. O jogo era sumariamente interrompido pela chamada para o futebol, a hora de ir à aula ou um berro da mãe. No caminho até o botão power apenas um sentimento de “voltarei e vou te zerar, desgraçado”. Sangue nos olhos. E imaginar que hoje não é preciso nem caminhar até o vídeo-game para desligá-lo…
É muito moleza. Ou melhor, naquela época o vídeo-game que era dureza. O vídeo-game não era para principiantes. As regalias que vocês tem hoje não existiam em outrora. Crescemos superando essas dificuldades. Pois, mesmo nesses momentos mais difíceis, superávamos chefões, falta de combustível no final da corrida e fases aquáticas com brio e coragem.
Assim foi o gamer dos anos 90. Um cara que desafiou o perigo em nome da diversão. E que agradece, até hoje, ter vivido 10 momentos que essa nova geração não terá oportunidade.
Nunca serão.

1. Alugar uma fita no sábado pela manhã para entregar na segunda-feira pagando só uma diária.
2. Anotar password de fase na última folha do caderno, meio do Almanacão da Mônica, pôster da seleção de 1994 ou livro de perguntas do Pense Bem.
3. Cruzar bairros só para perguntar a uma lenda urbana como faz para matar o chefão da última fase.
4. Voltar para a casa sem a resposta, pois ele cobrou três fichar de fliperama para falar.
5. Estar quase chegando ao Bison, praticamente finalizando o Sagat, quando é surpreendido por um filho da puta que coloca uma ficha no fliperama e te desafia.
6. Ganhar desse filho da puta.
7. Colocar a fita, selecionar START e jogar. Nada de produção>animação>aviso>loading>procurando registro no memory card>loading>start>loading>introdução.
8. Vencer uma corrida na pista Inferno de Rock and Roll Racing destruindo o primeiro colocado há poucos centímetros da linha de chegada no auge do solo de Paranoid do Black Sabbath.
9. Ter a oportunidade de controlar Allejo, o gênio mortal da grande área.
10. Jogar a fase do carro de Super Double Dragon, a do jet ski de Battletoads e a do espaço de Tiny Toon Adventure, um dos últimos prazeres antes da masturbação.





