Arquétipo do trem

É engraçado ver como algumas coisas simples da vida podem mudar, inclusive, o conceito de seus argumentos. Eu, já há alguns anos, digo que com argumentos qualquer merda é aceita. Mudo de opinião. Mudo na mesma velocidade como mudo de desejo, paixão ou medo de errar. Um argumento só é forte quando ele gerado para rir o riso ao seu contentamento. Ou seja, quando é visando o bem para ambos.

John Nash, que introduziu o conceito de equilíbrio na teoria dos jogos, foi brilhante. Disse ele que o grupo só sai vitorioso se o individuo agir visando o melhor para ele e para o grupo. Na vida, por mais que necessitamos de momentos de egoísmo, o grupo deve estar sempre em primeiro plano.

Alguns dizem: “não me arrependo do que fiz. Só me arrependo do que não fiz”. Bobagem. Esse é o cumulo do orgulho. Eu me arrependo de muitos erros. De todos os erros, inclusive. Mas o mais questionável, o que mais me enchem o saco, é o fato de pensar no outro antes de pensar em si.

Hoje, sóbrio de orgulho e de alma, vejo que sempre pensei no macro. Dane-se eu. Quero ver os que estão ao meu redor bem. E isso, automaticamente, me faz bem. Inocente como um poema de quinta serie. Mas deprimente como uma bossa-nova.

Sendo assim, nada paga a reciprocidade da valorização.

Ninguém disse que a vida há de ser fácil. Muito menos que, mesmo difícil, ela seja ruim. O amor só é bom se doer.

Hoje eu sorri.

Capítulo 1

Quando concebida a primeira decepção amorosa, já nos braços de uma nova e qualquer incauta ou sob a mesa do mais sujo bar na companhia de bons e sofredores amigos, uma máxima é costumeiramente atirada ao ar. Essa afirmação, que na verdade é um argumento para o seu desespero, talvez seja a maior verdade criada pelo homem depois da que homem e mulher não podem ser amigos. “Você terá muitos amores pela frente. Mas primeiro amor, ah, primeiro amor só existe um”.

O primeiro amor é o crucial timing point que separa meninos de homens. É quando, após seu inevitável trágico e massacrante final, você observa que tudo aquilo que o cinema, livros e a música pop inglesa nos ensinaram era mentira. Nada existiu. Juras, carinhos e promessas são fabulas contidas numa ficção digerida de maneira e definições forçadas e supérfluas. Assim começa a vida, senhores. Com o soco no queixo da primeira mulher que te fez sofrer. Ela, sem saber, trai toda uma classe. Cria um monstro. E, a partir daí, tudo muda.

O meu primeiro amor me transformou em tudo o que pior pode existir num homem. Amei outras vezes, é verdade e admito. Mas o sentimento puro de confiança foi-se junto com as fotos e boas lembranças cultivadas por quase 3 anos de relacionamento. Fui infiel, canalha e vagabundo. Muitas vezes as três coisas ao mesmo tempo e com mais de uma mulher. Sabe o que me surpreende? Acham que isso era culpa minha.

Quem gerou esse sentimento, ou me limitou de reviver outros, foi esse primeiro amor. As mulheres que conheci posteriormente foram vitimas dela, não minhas. E, quem sabe, essa personagem do primeiro capítulo sofra agora e no futuro com um homem com eu. Um homem que amou, foi amado e foi apunhalado pelas costas. Um homem que um dia acredito na verdade do sentimento mais puro, mas calou-se no frio da traição mais hipócrita.

Homem não trai. Quem trai são as próprias mulheres. Elas, por meio de gestos mesquinhos e chulos, iniciam o processo de canalhice entre os homens. Não fosse a insensibilidade feminina, o mundo seria um lugar bem melhor. E quem sabe bem mais romântico. Eu era um cara romântico. Alias, continuo sendo. Mas naquela época era diferente. O romantismo não era algo planejado, era espontânea. Lembro da roupa dela no primeiro encontro. Calça branca, blusa rosa e uma rasteirinha tradicional. Eu vestia uma camiseta preta sem graça, calça jeans e um tênis surrado. Ela Chegou com duas horas de atraso. Fomos ao cinema e começamos a namorar três dias depois. O filme era Scooby Doo, sessão das 17h45 do shopping 3 Américas. Essa data é até hoje a senha do meu cartão de credito. Tive algumas namoradas depois disso. Amei todas. Mas não lembro nem onde eu trabalhava quando as conhecia.

Enfim.

Esse livro só existe graças a essa primeira namorada. Às mulheres que enganei: não me odeiem.

Odeiem-na.

¹ Atenção: volto quando concluir o livro. Espero que logo.