Os 30 maiores clichês do futebol

1. Fazer uma substituição no final do jogo para ganhar tempo.

2. O arbitro compensar o time da casa – seja com um pênalti ou expulsão do adversário – depois de dar como legal um lance duvidoso do adversário que gerou gol.

3. O jogador que dá condição ao adversário é sempre o primeiro a pedir impedimento.

4. Time em desvantagem. Jogador marca e corre para pegar a bola dentro do gol e levá-la o mais rápido possível para o meio de campo. Goleiro chega primeiro e o atrapalha, os dois se empurram. Ninguém pensa em pegar umas das 16 bolas em volta do campo.

5. O árbitro fazer aqueles gestos de “Acabou. Chega de falta” depois da terceira botinada do volante.

6. O goleiro demorar para bater um tiro de meta, levar um cartão amarelo e ir até a metade do campo de defesa reclamando para ganhar mais tempo ainda.

7. O técnico mandar os pontas mudarem de lado depois de meia hora sem nenhuma chance de gol.

8. O jogador que fez cinco gols ser substituído nos minutos finais apenas para ser ovacionado pela torcida.

9. O goleiro toma um frango homérico, o time empata e vai inteiro abraçar o autor da cagada. O ato é um verdadeiro atestado que ele realmente falhou.

10. Aquele futuro pai fazer um gol e colocar a bola dentro da camiseta ou comemorar Bebeto Style.

11. Levar a bola até a bandeirinha de escanteio e pedir para apanhar no final do jogo.

12. Reclamar de uma substituição indo direto para o vestiário.

13. Não alcançar um lançamento e agradecer o autor do passe com um jóia ou batendo palmas.

14. Reclamar da posição da barreira até o homem base receber um cartão amarelo.

15. O goleiro sentir uma lesão e parar o jogo durante a pressão do time adversário.

16. Chutar a bola sobre o adversário e reclamar que ele não dá espaço para cobrança da falta.

17. Ser provocado com passadas de perna sobre a bola, fazer falta e colocar o dedo na cara do caboclo exigindo respeito.

18. Chutar em gol mesmo após o apito do árbitro que acusa impedimento. Tomar um cartão amarelo e dizer que, ao contrario do estádio inteiro e do guardador de carros, não ouviu.

19. Tomar uma cuspida na cara e cair como se fosse uma cabeçada.

20. Correr para cobrar um escanteio e pedir o apoio da torcida.

21. Cortar um cruzamento de carrinho e comemorar batendo no peito e gritando como se fosse um ponto de vôlei.

22. Comemorar um título reunindo o time no circulo central e rezando um Pai Nosso.

23. Fazer um gol e procurar o Régis Rosing atrás do gol só pra aparecer no Globo Esporte.

24. Comemorar um gol abraçando o técnico que balança no cargo.

25. O goleiro fazer uma defesa incrível e sair dando bronca em toda a defesa.

26. O técnico esperar sair o primeiro contra sua equipe para chamar o jogador que devia ter começado a partida.

27. O árbitro impedir a cobrança de escanteio para dar uma bronca em quem está se puxando na área. E raramente marcar pênalti.

28. Tocar pagode no ônibus a caminho do estádio.

29. O jogador comemorar um gol tirando a camiseta mesmo sabendo que isso gera expulsão.

30. Fazer três gols e pedir uma música gospel no Fantástico.

O bem que faz uma gordinha

Sabe quem foi um baita de um zagueiro? O Alicate. Alicate foi o maior jogador que já passou pelas áreas de chão batido. Carioca, foi injustiçado nos times do litoral. Mas o Alicate tinha outro problema problema. Mulher. Não que Alicate tinha aversão a elas, pelo contrario. Como bom zagueiro, as adorava. Mas Alicate era exigente demais. Na noite não faturava ninguém. Costumava visar a desejada loura de pernas longas. E você sabe como são as desejadas louras de pernas longas. Elas têm um nome a zelar. Não saem com zagueiros. Você tem que ser no mínimo um lateral esquerdo para sair com uma loura dessas.

Pois Alicate não ligava para essas irrisórias regras. “Preciso de cinco minutos. Se ela me der cinco minuto, laço”, dizia. Porém, suas noites acabavam antes dessa abertura. Alicate era ignorado, renegado e humilhado pelas mulheres que empunhavam Dry Martinis e Manhattans. Fracassado. Assim sentia-se Alicate no final de cada jornada. Um homem traído pela própria soberba.

Passaram-se sete dias. Mais uma vez, na luta domingueira por uma calcinha, Alicate se via na boite. Lá era como a grande área numa cobrança de escanteio. Olhares, empurrões e ameaças. Após a terceira tentativa frustrada, Alicate, enfim, cansou. Ficou encostado no bar olhando para o nada. E do nada surgiu assim uma luz. Verdade que nem tão reluzente, mas parecia um inicio.

Era uma gordinha. Uma gordinha simpática até. Óculos grossos, de bata preta e salto baixo. “Curtiu?”, questionou a Alicate. O sóbrio zagueiro, sem entender se a pergunta era sobre a banda, o amendoim ou a própria guria, apenas balançou a cabeça positivamente. E ela, tal como um ponta direta em contra-ataque, atacou. Os amigos que o conheciam surpreenderam-se. Afinal, ele não parou. Não reclamou. E não desaprovou. Passou horas com a gordinha, para o espanto de todos.

No final de semana seguinte, revigorado, Alicate voltou a sua posição original dos finais de semana. Fez-se um milagre. Uma enorme mudança. Olhares, muitos olhares em sua direção. E alguns de altíssimos níveis. Alicate era o homem a ser batido na noite. Pela primeira vez as mulheres de pernas longas, louras, ruivas e morenas é que disputavam Alicate. Estava rodeado. Podia, vejam vocês, escolher. E de longe, encostada na parede e segurando um cigarro entre os dedos médio e anelar, tipo Dean Martin, aquela gordinha da semana passada sorria. Um sorriso de canto de boca. Um sorriso que queria dizer algo como “de nada”.

É por isso que valorizo os campeonatos estaduais. Nossos times que iniciam o ano planejando um jogo de volta na Copa do Brasil e o acesso a série C precisam mudar. Por mais que pareça um paradoxo, momentaneamente é preciso pensar pequeno para alçar vôos maiores. Começar o ano com uma boa campanha torna-se essencial para uma temporada vitoriosa. Mesmo que feinho, o campeonato estadual arruma a casa. É como pegar uma gordinha.

Nada tão glorioso, mas tira a urucubaca.

¹ PdH: Crônica postada originalmente na edição dessa semana do Circuito MT.

Efeitos da TPM

Gosto muito quando alguém descobre uma função criativa para uma ferramenta nova no Youtube ou qualquer outra mídia social. Principalmente quando essa idéia surge por meio de um grupo universitário. Defendo que é nessa fase que deve-se fazer de tudo – sem trocadilhos – e sugar o curso ao máximo. A hora de criar. Escrever, sugerir, produzir e aprender com os toleráveis erros de quem procura fazer algo fora da caixa.

Essa produção narra a história de uma estudante chegando à Universidade. Várias situações corriqueiras vão surgindo, como o roubo de uma vaga de estacionamento e a leitura de um livro na espera. A reação dela é você quem decide: com TPM ou sem TPM.

Diz a lenda que o roteiro é baseado em fatos. Diz a lenda.

¹ Fonte: Testosterona.

As dualidades de NY

Neon e polaroids, efeitos antigos e roupas modernas. Essa mistura entre o passado e o novo aparece na campanha de outono da MCD, com o tema Neworld. E que lugar melhor que Nova York para servir de cenário para as fotos da coleção? As imagens feitas pela primeira vez na cidade ilustram as dualidades da Big Apple. As locações escolhidas foram lugares comuns do Brooklyn contrapondo com o Lower East Side de Manhattan.

As fotos foram realizadas em uma barbearia, um parque, no boliche e na contraposição dos cenários que expressam o Neworld da MCD. Um exemplo são as fotos realizadas no famoso Metropolitan Museum e ao mesmo tempo no estúdio de um artista da cena underground nova-iorquina. A polaroid reaparece e algumas imagens ganham luz amarelada e ar envelhecido, já outras enaltecem o néon da vida noturna e moderna.

A marca trouxe novos talentos do Brasil e do mundo para participarem da produção. No backstage o brasileiro André Juliani, responsável pela programação de casas noturnas como Vegas e Lions em SP, atrás das câmeras a fotógrafa Nyra Lang e fazendo poses a francesa Angele Sassy.

30 decepções de um homem comum (1985)

1. Descobrir que Pitfall não tem um final.

2. Ver a primeira derrota da Seleção Brasileira Copa do Mundo.

3. Existirem duas matérias piores que matemática no segundo grau.

4. Aquela primeira namorada que você jurou ser o amor da sua vida está gorda, separada e numa clinica de desintoxicação.

5. O Papai Noel não existir e ser garoto propaganda da Coca Cola.

6. O fim dos consoles de cartucho e games 16 bits.

7. Não possuir um Ioiô galaxy, apenas conhecer um amigo que sabe de alguém que já viu um.

8. O Val Kilmer no papel de Bruce Wayne.

9. O surgimento do Hip Hop.

10. O SBT nunca exibir o segundo episodio da sátira do Chaves para Guilherme Tell.

11. Perceber que Legião Urbana não ser tão genial assim depois dos 16 anos.

12. Engenheiros do Hawaii também.

13. Aquele Jesus que aparecia todo final de tarde de domingo no SBT não era de verdade.

14. O Escort Hobby deixar de ser fabricado.

15. The Wonders ser uma banda fictícia.

16. MuMu, na verdade, se chamar Doce de Leite.

17. Nunca ter um dia de Ferris Buller.

18. Jogar Winning Eleven e descobrir que International Super Star Soccer era horrível.

19. Os blogueiros não aceitarem seu pedido parceria.

20. Todo mundo trocar o ICQ pelo MSN. Inclusive você.

21. Caverna do Dragão, também, não ter um final.

22. Tirar carteira de habilitação e continuar andando de ônibus.

23. O fim das locadoras de filmes e games.

24. Trabalhar com uma pessoa que nasceu em 1990.

25. O Chaves ir a Acapulco, não ao Guarujá.

26. O Kichute sair de moda.

27. Demorar tanto para descobrir os prazeres do Curling.

28. Precisa admitir que A Vida É Bela foi infinitamente melhor que Central do Brasil.

29. Nenhum computador explodir na virada do anos 1999 para 2000.

30. O capacitor de fluxo não ser inventado.

¹ Entrevista: Bloguevista.

Carta às mulheres

Prezada,

Permita-me uma breve apresentação. Sou homem. Falo em nome de todos que se identificam com este blog. Seja você uma esposa, mãe, irmã, cunhada ou amante, por favor, leia. Melhor, recorte os pontos e cole esse texto no espelho do banheiro ou Caixa Eletrônico 24h, locais onde vocês gastam maior parte do tempo.

De 11 de junho a 11 de julho é realizada a Copa do Mundo de Futebol. Durante esse mês focamos em tudo o que acontece na África do Sul. Deste lado do oceano, nenhum evento cultural, artístico ou familiar interessa. Não iremos a festas de crianças, noivados ou casamentos. Nem vou comentar batizados e colações de grau.

O compromisso é em horário diferente do jogo? Não importa. Assistimos debates, replays e treinos. Precisamos acompanhar o pré e pós-jogos, mesmo se tratando de um programa chinês comentando a estrutura tática da defesa de Gana. Isso será importante nas quartas-de-final. Você não vai querer entender, mas será.

Se eu assistir um VT de Argélia e Eslovênia não reclame. Eu digo isso, mesmo se, hipoteticamente, as seleções já estiverem eliminadas e elas entrarem em campo com o time reserva vestindo o uniforme de treino e eu já souber que o jogo terminou é 0×0. Hipoteticamente.

Não sensibilize-se com um frances ou italiano chorando a eliminação. Homenageie esse momento com um sorriso irônico e a pior frase possível para o momento: “daqui quatro anos tem mais…”. Eles fariam o mesmo que você. Tão interessante quanto ganhar, é os perderem. Em dia de jogo da Argentina, por exemplo, é muito bom ser brasileiro.

Assim como você merecidamente tem um dia do ano, nós, homens, temos 30 de quatro em quatro. Faça as contas e observe que vivemos, no máximo, 15 Copas do Mundo por vida. Respeite nossas prioridades. E lembre-me: o Dia dos Namorados é durante a Copa do Mundo.

Seja boazinha.

¹ Texto originalmente postado na Coluna Papo de Homem do Circuito MT. Toda semana um novo texto meu estragando o jornal. E, aqui no QMaT, a versão completa, sem a limitação do papel.

O dia que o Mixto achou que havia contratado Vilson Taddei

Existem casos que parecem acontecer apenas no futebol mato-grossense. Se você se surpreendeu com a lavadeira de Rondonópolis (MT), prepara-se para ler o maior trote futebolístico dos últimos anos. O dia em que um cara se fez de salame para enganar trouxas que se diziam dirigentes de futebol. Foi aqui, a três quadras de onde escrevo esse post, no estádio Verdão, em Cuiabá.

O fato passou pelo ano de 2003, 2004, por aí. A direção do Mixto Esporte Clube procurava um técnico para comandar o time no Estadual e série C do Campeonato Brasileiro. Tal como um milagre divino, surgiu em terras pantaneiras o ex-jogador do São Paulo, Grêmio, Internacional e Vasco Vilson Taddei. O jovem treinador apresentou seu louvável histórico de jogador e ofereceu trabalho. Taddei, lembre-se, foi apontado por Tele Santana como “o melhor jogador com que já trabalhou”.

Pois bem. O contrato foi fechado e Taddei apresentado à torcida. Ganhou status de estrela. A imprensa fechou o cerco e fez uma série de entrevista – a maioria cara a cara, só pra constar. Taddei parecia a escolha certa. Homem de voz baixa, sereno, atendia telefonemas de jornalistas e não fazia muito alarde.

O primeiro treino foi marcante. O ex-jogador reuniu o elenco no centro de campo e ficou cerca de 15 minutos conversando. Fez treino físico e depois um coletivo. Nada surpreendente, não fosse a estranha prática de somente observar os treinos, sem interromper ou fazer instruções aos jogadores.

No dia seguinte Taddei surgiu com um chamativo chapéu. Não era um boné como do Muricy ou do Felipão, era um chapéu sombrero style mesmo. Mas tudo bem. Mais uma vez só observou o coletivo. Nem mesmo anotou qualquer coisa ou fez questão de organizar o time em campo. “Estilo europeu, moderno”, comentou um repórter da época.

A estréia no campeonato foi desastrosa. O time jogou mal, desentrosado e de modo amador. Era como se aquele grupo de jogadores fosse arranjado momentos antes da partida. Sem estrutura tática ou qualquer organização, o Mixto foi massacrado. E o trabalho de Taddei, excêntrico e europeu, começou a ser contestado. Principalmente depois da terceira derrota consecutiva e os treinos confusos.

Durante um treino, prestes a completar um mês no comando, o treinador teve a visita de toda a cúpula da direção Mixtense. Os dirigentes fizeram uma roda enquanto Taddei, de longe, apenas analisava um trabalho de conclusão a gol dos atletas. Quando os jogadores finalizaram e foram para os últimos exercícios físicos, Taddei foi cercado pelos cartolas. E recebeu um desafio: bater um pênalti.

- “Ensina para esses meninos como se bate um pênalti, Taddei”, sugeriu o então diretor de futebol do Mixto.

- “Hum. Tá legal”, concordou o treinador campeão brasileiro de 1981 pelo Grêmio. Sereno, como sempre.

Taddei tomou distancia. Observou a bola na marca do cal, colocou as mãos nas cinturas e arranjou tempo para colocar a camiseta dentro do short. O gol sem goleiro. Os jogadores, a imprensa e os ambulantes pararam afim de observar o modelo de profissional segundo Tele Santana. Cinco passos da marca. Partida, pé esquerdo atrás da bola para o chute e equilíbrio perfeito. Nem tanto.

Taddei caiu como um pêssego maduro. Ridículo. Olhando para o céu, observou o forte sol de uma tarde cuiabana tapado pela silhueta de cinco irritados dirigentes. Eles, por meio de um torcedor do Grêmio que visitava Cuiabá, haviam descoberto a farsa. Vilson Taddei não era, na verdade, Vilson Taddei. Era um Zé ninguém.

Esse senhor já havia treinado times do interior do Paraná e Mato Grosso do Sul, sempre aproveitando a leve semelhança com Vilson Taddei para se passar pelo ex-jogador. Assim como em Cuiabá, sempre foi desmascarado. Mas aqui ele atingiu um recorde: um mês de falso Vilson Taddei. Enganou um bando de amadores, tanto dirigentes quanto jornalistas.

Foi traído pelo pênalti. Saiu quase excomungado de Cuiabá. Sem dinheiro e sem vitorias. Mas com uma puta historia e, de quebra, rindo de um bando de amadores.

Em pleno 2003. Ou 2004, por aí.

¹ Acharam: o verdadeiro Vilson Taddei.

² E o malandrão? Nunca mais tive notícias. Cuidado. Ele pode estar no seu time.

Histórias de Salim Nigri

Morreu ontem o gremista Salim Nigri. Ele sofreu um AVC no dia 18 de fevereiro e estava internado no Hospital de Clínicas. Era torcedor e conselheiro do Grêmio. Nigri foi o autor da frase: “Com o Grêmio, onde estiver o Grêmio”. A frase depois foi adaptada por Lupicínio Rodrigues, que a usou no hino do clube.

Salim era um raro contador de histórias. Tanto que foi, também, personagem coluna de David Coimbra na Zero Hora. Ele relembrou algumas publicações em seu blog.

Até a pé nos iremos em francês

Pouco antes da Copa do Mundo de 1998, a professora Janete Sessim, da Aliança Francesa, recebeu uma curiosa ligação.

Uma voz grave e melodiosa, parecida com a do Lauro Quadros, lhe perguntou sem explicação prévia:

– A senhora é gremista?

Janete inflou o peito:

– Muito!

– Então a senhora vai fazer um trabalho por amor ao Grêmio – informou a voz, febril de confiança.

Quem ligava era o Salim Nigri.

Apresentou-lhe uma proposta intrigante: a professora teria de traduzir o Hino do Grêmio para o francês a fim de que fosse gravado em fita cassete e apresentado, na Copa, como uma autêntica composição gaulesa em homenagem ao Tricolor.

– Mas como o senhor vai fazer isso? – quis saber a professora.

– Aí a senhora deixe comigo.

Janete se pôs a trabalhar. Fez uma versão da composição de Lupicínio na língua de Balzac e Zinedine Zidane e ainda arranjou outro professor da Aliança Francesa, um pianista, para gravá-la. Enquanto isso, o Paulo Sant´Ana recebia uma curiosa ligação. Aquela voz maviosa, parecida com a do Lauro Quadros, propunha:

– O que tu achas de comprar em Paris um disco com o Hino do Grêmio em francês?

O Sant´Ana saltou:

– Supimpa!

– Pois é o que tu vais dizer no ar, na Gaúcha, quando estiveres lá na Copa – recomendou o Salim, começando a expor o plano.

O Sant´Ana, gaiato que é, ficou encantado com a idéia. Dias depois, já da França, ele ligou para a rádio a fim de fazer seu comentário matinal.

– Imagina que encontrei aqui em Paris um disco com o Hino do Grêmio em francês! – contou.

Rogério Mendelski, o apresentador da época, duvidou. O Sant´Ana, vitorioso:

– Pois então escute.

E colocou a gravação no ar:

– Même à pied nous iroooons…

Em casa, ao pé do rádio, o Salim comemorou com a mulher:

– Olha só, velha, o Grêmio é mesmo um sucesso mundial!

***

Quando o Papa abençoou o Grêmio

Na primeira partida das finais contra o São Paulo, em 1981, no Olímpico recém-concluído e regurgitante de torcedores, o Grêmio teve um pênalti a seu favor. O escalado para bater foi o centroavante Baltazar. Bateu. Errou. O Grêmio acabou vencendo por 2 a 1, dois gols de Paulo Isidoro.

Baltazar, ao sair de campo, conformou-se:

– Deus está reservando algo melhor pra mim.

Estava. No dia da final, 3 de maio, Baltazar recebeu a bola de Renato Sá, matou no peito e mandou no ângulo de Waldir Peres. O Grêmio era campeão brasileiro pela primeira vez.

O Salim Nigri jura que, no momento em que a bola tocou a medalhinha de Nossa Senhora que Baltazar levava no peito, nesse momento João Paulo II assinava, no Vaticano, a bênção papal conferida ao Grêmio.

Ontem, depois da eleição do novo papa, o Salim ligou, excitado:

– Alguém tem que fazer esse papa abençoar o Grêmio! Alguém tem que fazer isso!

Tem que. Mas também haveria de ter Baltazar, Paulo Isidoro, Renato Sá…

***

As luzes de Salim

Mal saído dos 20 anos, Salim Nigri começou a ficar cego. Não demorou muito para que seus olhos se apagassem para sempre. Mas hoje, aos 80 anos de idade, a vida de Salim é cheia de luz. Graças ao Grêmio. Salim passa o dia a ouvir as notícias de futebol nas emissoras de rádio.

Bem informado, planeja brincadeiras, ações de marketing e, claro, gozações com os colorados. Passa o dia a se divertir.

Salim teria todos os motivos para ser um desses tristes fanáticos que todos os dias enviam imeils mal-humorados para as redações de jornal, poderia ser um desses pobres de espírito que agridem outras pessoas ou que deixam seu dia azedar por causa de um mero jogo de futebol. Mas, não: o Salim é inteligente, criativo e vivaz.

Nunca odiou os colorados. Para ele, o Inter é adversário, não inimigo. O futebol seria muito mais saudável e muito mais bonito, se todos tivessem as luzes do Salim.

Aliás, depois da conquista do Inter, o Salim ligou:

– Então, o Inter é campeão da América?

– É…

– E antes do Inter, quem foi?

– O São Paulo.

– E antes do São Paulo?

– O Once Caldas.

– Ah, o Once Caldas foi campeão da América…

Um patrimônio gremista.