Em épocas de orçamentos reduzidos e atletas de salários altos migrando para a Europa, a saída dos clubes brasileiros tem sido investir nos jovens talentos das categorias de base. Porém, a forte pressão exercida sob os atletas faz com que, muitas vezes, qualquer jogador mais ou menos vire um futuro/talvez/quemsabe/próximo craque. É o preço da camisa.
A dupla Grêmio e Internacional colecionou nas últimas décadas um interessante grupo de promessas fracassadas. Vamos relembrar algumas – ou pelo menos tentar.
No Grêmio, depois de 1998, qualquer atleta de característica ofensiva que despontava era tratado como “novo Ronaldinho”. Sete anos se passaram até o surgimento de Anderson, o único formado na Azenha que realmente vingou no time principal e na Europa. Antes dele, tivemos casos bem interessantes.
Bruno
Surgiu em meados de 2003, quando Tite ainda treinava o Grêmio (aliás, esse é mestre em revelar nabas). Comparado com – claro – Ronaldinho, ganhou o apelido de Bruno Soneca. Sumia em campo. Foi logo negociado com o futebol japonês. Jogou ainda no Esportivo (RS) e Cruzeiro (MG).
Claudio Pitbull
Mais uma cria de Tite. Ganhou elogios pelo porte robusto, mas sempre foi criticado por estar acima do peso. Tinha lampejos de craque, como num jogo contra o São Paulo que ele fez um golaço de cobertura em Rogério Ceni. Jamais se firmou, preferiu a noite do que o campo. Jogou ainda no Juventude (RS), Porto, e Santos Fluminense. Encontra-se no Vitoria de Setúbal.
Tem um site espetacular. Logo de cara, aparece carregando um bloco de neve. Jamais vou entender.
Elton
Ah, o Elton.
Era o reserva de luxo do Luciano Ratinho (!). Fez parte da trágica campanha que rebaixou o Grêmio em 2004. Canhoto, foi coringa de todos os treinadores do Grêmio naquele ano. Jogou de lateral, volante, meia e atacante. Jogou é bondade. Foi escalado. Recebeu elogios pela canhota precisa. Treinava que era uma maravilha.
A última vez que vi o Elton foi no Álbum do Campeonato Brasileiro 2008. Ele estava no Atlético MG. Jogou ainda no Santos e no Figueirense. Não faço idéia onde foi parar.
Anderson Pico
“É o novo Roberto Carlos”, disse uma vez o comentarista da Rádio Gaúcha e Zero Hora Wianey Carlet. Foi revelado por Mano Menezes, entrou na esquerda, jogou no meio e destacou-se por uma característica, no mínimo, estranha: o arremesso lateral. Tinha um baita lateral o Anderson Pico. Colocava a bola na pequena área, na cabeça do atacante, parecia que era com a mão.
Bom, era com a mão.
Mas Pico tinha um problema. Digo, dois: displicência e balança. Toda reapresentação era assustadora. Pico parecia um auxiliar de massagista, ropeiro, menos atleta. Mano tinha uma rusga com o posicionamento tático de Pico. Era displicente na marcação. Foi-se o novo Roberto Carlos.
Também está desaparecido.

No lado vermelho de Porto Alegre a história não é tão diferente. Surge um volante: “é o novo Falcão” esbravejam os jornais. Uma leva de revelação foi sacrificada nos nebulosos anos 90. A atual década, onde o Internacional crava como um dos times brasileiros que mais venceu, também teve seus vexames.
Claiton
Eis o cara que mais estraga comemorações no futebol mundial. O meia Claiton, pode observar, é o primeiro a abraçar o autor dos gols. O cara marca, sai correndo para fazer aquela comemoração que ele planeja há quatro meses e surge Claiton. Pulando, abraçando, vibrando, batendo no peito e tudo. É por isso que você sabe quem é Claiton: ele sempre aparecia no Globo Esporte comemorando.
O meia foi campeão da Taça São Paulo com o zagueiro Lucio. Logo foi indicado para o time profissional, onde foi absolutamente massacrado pela torcida. Foi emprestado para Vitoria, Santos, Bahia, Servette (Suiça) e voltou em 2002. “Era agora”, diziam os dirigente. Não foi. Claiton fez mais um belo tour de clubes até estacionar no Atlético Paranaense, onde está lesionado.
Fabio Pinto
“Trata-se de o maior atacante surgido no Rio Grande do Sul depois de Claudiomiro”. Assim Fabio Pinto foi apresentado por Zé Mario, então técnico do Internacional, quando apareceu no banco de reservas do Inter em agosto de 2000. Não se sabe ainda de qual Claudiomiro Zé Mario estava falando, mas com certeza não era o do Inter no final dos anos 70.
Contudo, Fabio Pinto tinha um certo respeito. Considerado o melhor jogador do mundial Sub 20 em 2000 – superando Ronaldinho -, Pinto entrava bem, para o delírio da torcida colorada. A má fase do clube na época o prejudicou e fez com que o Claudiomiro do século VXI não vingasse.
Dia desses vi ele jogando no Guarani. Mas lembro ainda do Fabio Pinto no São Caetano, no Cruzeiro e no Grêmio. Ou seja,identificação zero com qualquer clube.
Diego e Diogo
Quando Ronaldinho surgiu no Grêmio, colorados dos quatro cantos desdenharam o craque rival. Era nos gêmeos Diego e Diogo que morava a esperança de um novo Inter. Mesmo com todo o sucesso nas categorias de base e com passagens por seleções sub-20, Diego e Diogo não conseguiram se firmar no time principal do Inter.
Era um eterno “agora vai” quando eles entravam e campo. Sempre faltava algo. Na verdade, faltou bola de ambos. Diego jogou ainda no Santos, Sport e Figueirense. Diogo foi para China jogar no Guangzhou. Em março, Diego chegou para formar, de novo, dupla com o irmão.
E lá eles tocam a vida.

Os nomes da vez são: Douglas Costas e Giuliano. Esse, um pouco acima de Douglas. Bem nos jogos, Giuliano tomou para si a responsabilidade de substituir D’alessandro, algo que Taison não fez.
Já Douglas Costas, bom, é uma incógnita. É o jogador mais caro do elenco do Grêmio sem nunca ter jogado. Como os exemplos acima, tem somente raros momentos de craque. Diferenciados, Douglas Costas e Giuliano são. Agora, é preciso um estalo maior de genialidade.

Falta o que? Oportunidade? Sequencia? Confiança?
Eu digo o que falta, senhores. Falta responsabilidade. Falta pegar a bola e colocar na cabeça a importância que um ídolo formado no clube tem para a torcida. Falta se apresentar e decidir um jogo.
Isso, acreditem, é que o diferencia o craque do bom jogador.

¹ Dica: Já Joguei no Grêmio.
² Dica: Chega de AiAi.
³ Twitter: Belchior Voltará.