
Há algumas semanas o setor de Comunicação Social do governo do Paraná deflagrou uma campanha, que poderíamos apelidar de “Censura, não!”, que reúne em seu site de notícias depoimentos de personalidades diversas – a maioria de políticos do partido do governador, o PMDB – criticando a determinação judicial que impede o governador Roberto Requião de achincalhar adversários, imprensa e outras instituições na TV Educativa do estado, que todas as terças exibe ao vivo “para toda a América Latina”, se você acredita, o programa “Escola de Governo”, reunião semanal do governador com secretários de estado, demais lideranças, aspones e puxa-sacos em geral.
Desde o início das transmissões, lá por 2002, Requião sempre esteve à vontade para bater em quem quisesse. Não só durante a Escolinha, diga-se. As intervenções do governador na programação da TV estatal são comuns e feitas de variadas formas. Desde a veiculação de boletins virulentos – sob a forma de letterings frente a uma tela azul – até depoimentos gravados em que o governador é o protagonista do recado. Isso sem falar nas aparições durante a programação jornalística da TV – que segue o governador em todas as suas ações pelo estado e até fora do país.
Há alguns meses – não há rigor jornalístico algum aqui – Requião subiu o tom do discurso contra o Ministério Público, motivado, se não me engano, por ações que visavam comabter o nepotismo no governo estadual – mirando especificamente os irmãos governador, o então secretário da Educação, Maurício, e o superintendente dos Portos de Paranaguá e Antonina, Eduardo. A metralhadora do governador atingiu muita gente boa (seu contra-ataque falava em “abrir a caixa preta” das aposentadorias do órgão). Pouco depois foi expedida a ordem judicial que proíbe o governador de bater nos adversários, sob pena de multa de R$ 200 mil para cada bravata desferida.
A medida fez com que o Requião arrefecesse os ânimos na “Terça Insana”, e desde então foi só choradeira contra a “censura”. A cada vez que o governador era acometido pelo ímpeto de lascar a lenha num desafeto, a razão lhe falava mais alto e tudo o que ele fazia era lamuriar contra a ordem do juízo.
Até que a Justiça resolveu lhe multar retroativamente a um impropério bradado em março último. Nenhum dos piores, anote-se. Mas a canetada significou 200 mil pratas a menos no bolso do gov – que não foram ainda pagas, porque à coisa toda cabe recurso etc e tal. E aí a maionese desandou. Se mesmo “contido” o governador foi multado, de que adiantava segurar a onda sobre o que pensa de tudo e de todos? Requião mandou a decisão do Judiciário às favas e voltou a detonar quem ou o que melhor lhe conviesse na TV pública. “Multem à vontade, mas meu silêncio não vão conseguir”, disse.
E foi mais ou menos nessa hora que a Comunicação do governo entrou em ação, colhendo depoimentos contra a “censura” – como o mais recente, do senador José Sarney – imposta ao governador. Além de políticos, compõem a lista alguns jornalistas (talvez aqueles não se enquadrem nos limites da “imprensa canalha”, a qual o governador gosta de espezinhar, hmmm).
Rotulada de “censura”, a questão ganha facilmente o apoio de entidades civis e personalidades. A estratégia é vitimizar o governador e relembrar os anos de chumbo. A decisão – que, certa ou errada, foi tomada sob a égide dos usos que o governo faz da TV estatal –, então, passa a ser completamente antipática. “Indo de encontro ao Estado de Direito Democrático brasileiro”, clamariam alguns. Como a relação entre o governador e a imprensa local é terra arrasada, os depoimentos não ganham repercussão alguma além do sítio oficial do governo. E vamos em frente.
Ao mesmo tempo (literalmente), o governador emplaca o irmão no cargo de conselheiro do Tribunal de Contas, vitalício. Sim, o Tribunal que julga as contas do estado. Hmmm. E ganha apoios até inesperados, como do próprio presidente da Assembléia Legislativa (de partido que, em tese, é oposição ao governo, DEM), que, ao menor sinal de tentativa de impedimento judicial da posse do caçula, é o primeiro a questionar formalmente qualquer medida que impeça o trabalho do novo membro da côrte. Questionamentos, aliás, que costumam ser atendidos com assombrosa rapidez por desembargadores do Tribunal de Justiça do estado (a tal “censura” foi imposta por tribunal federal).
É bastante provável que, se você, estimado e improvável leitor, não tiver qualquer ligação particular ou afetiva com o Paraná, esteja bocejando ao saber dessa lenga-lenga irritante. Realmente não é coisa para se dar importância para além dos muros da província. Só trouxe o tema a tona para tratar de uma questão mais específica, que talvez seja efetivamente compartilhada por toda a nação: Por favor, vamos parar com o moralismo. Vamos abandonar qualquer idéia de que aquilo (aquilo!) que acontece na esfera pública que fingimos nos causar espanto é “errado” e que o “certo” está do lado de cá. Vamos combinar que, se o “certo” existir, não é desse lado do quintal que ele mora. Não somos depositários de moral alguma. Somos, em essência, imorais. E, por imorais, não temos moral alguma (opa) para criticar a imoralidade alheia. Aliás, nesse jogo não há alheios. Somos definitivamente farinha do mesmo saco.