Home Podcast Nerd Show: Wesley Iguti
formats

Nerd Show: Wesley Iguti

Publicado em novembro 29, 2011 por em Podcast


Pode ser que você não saiba de quem se trata. Mas pode ser também que você já tenha colocado a mão em alguma coisa dele… e GOSTOU!!

Eu poderia começar dizendo que Wesley Iguti, de 30 anos, é um jovem publicitário pós-graduado em computação gráfica 3D. Poderia, mas isso não seria o começo (nem o fim) de coisa alguma.
Porque o que o que ele é, desde moleque, é artista plástico. Mais especificamente, Wesley Iguti é um escultor – de brinquedos! Já por duas vezes (2008 e 2009) seus trabalhos ficaram foram premiados com o Prêmio Brasil de Excelência em Brinquedos. No seu currículo, Pixar, Disney, Dreamworks, Maurício de Sousa e a Brinquedos Estrela tem algumas passagens.
Na entrevista abaixo, a gente bate um papo sobre técnicas e formas, mercado, o apagar da Estrela e um mundo de outras coisas, confereaê!

Melhores do Mundo: Antes de mais nada, Wesley, conta pra gente um pouco sobre a sua carreira.
Wesley Iguti: Bom, hoje me julgo como diretor de criação da Tot Toys, mas sou publicitário com pós-graduação em 3D…e até hoje pratico muito o plastimodelismo. Desenvolvo produtos para brindes e brinquedos, o que me proporcionou fazer trabalhos direta e indiretamente para empresas como Globo, Record, SBT, Bandeirantes, Disney, Marvel, DC, Warner, Hanna-Barbera, Pixar, Dreamworks, BlueSky, Cinemark, McDonald’s, Estrela, Brinquedos Bandeirante, Mimo, Abril, W/Brasil…e várias outras grandes empresas.
MdM: Como foi a entrada no mercado de modelagem de brinquedo? Sei que o seu pai também é do ramo, mas, peralá, existe um mercado de modelagem de brinquedos no Brasil? Onde ele se esconde?
W.I.: A entrada no ramo de modelagem foi caseira (risos), acompanhei desde cedo meu pai desenvolvendo brinquedos. Enquanto ele ficava trabalhando eu ficava ao lado dele conversando, perguntando, desenhando… Sempre gostei de artes, então meu pai para estimular me deu um pedaço de massa de modelar e eu acabei fazendo o símbolo da [Rede] Globo em 3D…acho que devia ter menos de 4 anos, porque depois no pré [primário] eu modelei um monte de coisas que deixavam a professora louca. Ela guardava minhas modelagens, mas quando eu ia pegar de novo as crianças do período da tarde já tinham despedaçado de tanto brincar, mas nunca amassados como das outras crianças. Acho que a outra turma tinha dó de amassar, então tentavam brincar com o que eu tinha feito.

Com uns 9 anos ajudei meu pai pela primeira vez em uma modelagem que viraria brinquedo. Quando criança eu pirava em robôs, naves alienígenas e dinossauros. Sabia características e até nome científico de um monte de dinossauros. Então um dia meu pai chegou com um trabalho da Mimo, que era para modelar uns 4 dinossauros. Enquanto meu pai modelava eu dava pitacos de quais eram as características e que posições ficariam legais..foi aí que ele me deu um pedaço de massa e pediu para eu demonstrar. Enquanto ele modelava eu fui fazendo, até que ele viu e se surpreendeu… Mandou eu esboçar todo o resto. Até hoje ele me diz que ficou impressionado com a noção de proporções que eu tinha na época. Depois disso eu comecei a ir de vez em quando nas reuniões com ele… Assim esperava ganhar brinquedos dos clientes, ou uma sacola de gibis quando ia na Maurício de Sousa [Produções] com ele. Fiz tanto isso que acabei aprendendo tudo, a modelagem, vendo ele fazer, e as explicações técnicas quando acompanhava ele nas reuniões. Durante as férias escolares eu ficava ajudando meu pai no trabalho, isso desde muito cedo… Tanto que quando comecei a trabalhar direto, com 15 anos, já sabia fazer de tudo. A grande diferença entre meu pai e eu é que eu tive tudo de mão beijada, e ele teve que correr atrás de tudo. Claro que teve que ter meu interesse, tanto que hoje temos estilos um pouco diferentes… Mas devo tudo que sei a ele, com certeza.

MdM: Você citou a Brinquedos Estrela, lugar dos sonhos de um número bem grande de crianças dos anos 80, início dos 90. Entretanto, quem observa a marca hoje, percebe que a Estrela (com o perdão do trocadalho) já não brilha mais como antes. Na sua opinião, o que aconteceu com essa que era uma gigante do mercado?
W.I.: Eu acho que com a abertura do mercado para o brinquedo importado junto com aperfeiçoamento das concorrentes a Estrela acabou sendo só mais uma. Não sei hoje mas há algum tempo atrás falava-se que a empresa estava passando por muita dificuldade, mas ela não foi a única. Mesmo assim a reputação da Estrela é muito grande, pois sempre que se fala em brinquedos a primeira marca a ser lembrada é a Estrela. Sinceramente não acho que ela perdeu sua identidade, mas sim outras empresas conseguiram nivelar com ela. Talvez falte modernização ou ousadia, mas o mercado de brinquedos brasileiro é muito inconsistente e não aceita desaforo.

MdM: Como funciona hoje a modelagem em vinil (ou em outros materiais físicos) com a popularização de softwares de modelagem digital?
W.I.: Continua a mesma coisa. Tem trabalhos que são melhores de serem feitos em CG, outros no método tradicional. Isso varia muito do resultado em que se quer chegar, a quantidade que será produzida, a finalidade, o público alvo. Na França encontrei um artista que faz as mesmas coisas que eu e ele me disse que fazia da mesma forma que faço… Então acho que está tudo igual.

MdM: Existe algum personagem, editora, qualquer coisa que você gostaria de modelar um produto? Qual seria?
W.I.: Olha, já modelei de tudo um pouco e confesso que depois que você modela algo que quer parece que fica um vazio, e esse vazio cada vez mais fica maior. Hoje escrevendo aqui pra você digo que não tem nenhum personagem famoso que me chame a atenção. Atualmente acho que preferiria apostar em coisas minhas do que fazer coisas dos outros. O difícil é arranjar tempo quando se precisa de dinheiro.
O personagem Sombra, de Roger Cruz (Xampu)

MdM: Você falou que investe em plastimodelismo. Você coleciona memorabília também? Tem alguma coleção favorita, algum xodó?
W.I.: Não tenho nenhuma coleção. Pra falar a verdade até uns 5 anos atrás nem brinquedos desenvolvido por mim eu tinha. Hoje eu já tenho alguns, mas não costumo gastar dinheiro com isso não. O meu xodó é um NEB (extraterrestre que vem com os órgãos para fazer cirurgias) Esse foi o único brinquedo que fiz questão de guardar desde a infância. Eu adoro ele, e como sempre fui cuidadoso ele está inteirinho, completo e tenho até a caixa guardada. As vezes pego ele e fico olhando como foi feito, e, sinceramente, hoje em dia não vejo muitos bonecos com a mesma qualidade.

MdM: Mas sem qualquer trocadilho com os toy art, hoje em dia o nível de detalhamento e cuidado com peças de memorabília, por parte dos fabricantes, é assustador – há figuras tão bem feitas e detalhadas que a gente chega a ter pesadelos só de pensar em alguém “brincando” com elas. Viraram arte mesmo. Mas existe também um reconhecimento do modelador como um artista?
W.I.: Reconhecimento de modelador pra mim acho que basicamente é de outro modelador… Ou quando a pessoa é fanaticamente doente por bonecos. Reconhecimento em geral mesmo acredito que ainda não. Acho que as pessoas admiram o talento, a paciência, o conhecimento… Mas no quesito dar valor acho que estamos engatinhando ainda. Não falo isso pra modelagem apenas, mas o artista em geral, em todas as áreas. Convenhamos que nunca tivemos em nossa cultura um forte incentivo para as artes. O governo acha que incentivar a arte é apenas dar dinheiro para projetos, e depois se gabam colocando quinhentos logos enfatizando que foi financiado por eles. Esse ano tive a oportunidade de fazer um tour pela Europa, confesso que voltei confuso. Primeiro que nunca tinha ficado mais que 10 dias sem modelar algo, segundo porque foi um choque chegar aqui e ver como falta arte no nosso cotidiano. Em Paris os museus são cheios de excursões escolares e de turistas. As crianças são orientadas pelos professores com explicações obra por obra, e com questões levantadas por eles e pelas próprias crianças. As crianças não se sentem pressionadas a decorar e sim são incentivadas a compreender as técnicas… O que dá na cabeça dos artistas, ou o que eles quiseram expressar. Lá todo mundo, engenheiro, padeiro, motorista.. o que for… tem como hobby a arte, seja pintura, fotografia, música… Em Berlim e em Barcelona o grafite é extremamente valorizado, Roma tem de tudo… Vi muitos escultores, em Amsterdam pintores e fotógrafos, Londres música… Aqui está melhorando, mas não espero grande progresso enquanto a base na educação continuar assim, do jeito que está. Confesso que não espero muito de um país que utiliza “campos de futebol” como unidade de medida e “venda de carros” como parâmetro para medir a economia.

Admiro muitos artistas, e o Brasil é um celeiro de talentos. Gosto dos trabalhos do meu pai (Wilson Iguti), Daniel dos Santos, Cícero D’avilla, Alex Oiver, Rick Fernandes, Max Porto, Fausto de Martini…do exterior curto Jean Baptiste Seckler, Philippe Faraut, Mark Newman e mais um monte. Fora CG, ilustradores… vixe… ficaria meia hora aqui e ainda esqueceria um monte!
MdM: Na hora em que a figura está sendo esculpida, é o modelador quem pensa em onde e como as articulações de um boneco serão colocadas ou não, existe um profissional especificamente responsável por isso? Se é o modelador quem faz tudo, como você pensa as articulações, como faz para harmonizá-las com a escultura, para evitar deformidades (como tantas que a gente vê por aí)?

W.I.: Depende. Tem empresas que preferem que alguém acompanhe o projeto para definir as partes técnicas em conjunto, outras deixam na minha mão mesmo. Eu penso na viabilidade em conjunto com a estética. Se você deixar na mão de um engenheiro ele deformará pensando somente na parte técnica, o artista pensará somente na estética deixando de lado a viabilidade técnica…eu junto tudo e tento agradar os dois ao mesmo tempo….é simples (risos)!
MdM: Falando nisso, conta pra gente aí, Wesley, como é o processo de elaboração de uma figura ou brinquedo.
W.I.: Tudo começa com um rascunho, que é detalhado visando a melhor adaptação para a escultura. Após isso é feito um “esboço de modelagem” em massa de modelar, para somente marcar posição, estrutura e proporções. Após esta etapa pode-se terminar a modelagem na massa, tentando atingir o maior nível de detalhamento que o material permite. Em seguida é feito um molde de silicone e tirada uma cópia em resina ou cera, que permitem melhor acabamento. As articulações e locais de parafuso variam de boneco para boneco, mas não há nada de obscuro nisso, já que o boneco final que você pega em mãos nada mais é do que uma cópia fiel de como ela foi projetada. Ou seja, as articulações estão da mesma maneira em que foram feitas no modelo matriz.


MdM: Qual o caminho que alguém que pretenda se tornar um escultor de brinquedos deve seguir pra entrar na profissâo? Tem espaço pra mais gente? Deixe aí o seu recado pra galera – faça o seu jabá, fale do seu site, de como te contratar, enfim! Os leitores do MdM são lisos ou pão-duros, mas vai que cola…
W.I.: Antes de mais nada a pessoa tem que ter algum fundamento em desenho, depois estudar muito, pesquisar muito e em seguida experimentar materiais de modelagem diferentes até você achar algum em que você se identifica ou adapta. Sempre haverá espaço, ainda mais se você faz com prazer. Se você faz as coisas com verdade e de bem consigo mesmo, acho que não tem como não dar certo. As pessoas precisam entender que cada um tem seu estilo, e não modela bem somente quem modela anatomia humana perfeitamente ou um velho cheio de rugas para detalhar. O que é bonito pra você pode não ser pra pessoa ao lado e vice-versa, então faça por você. Estude. Pesquise.
Obrigado pelo espaço…foi bem legal! De qualquer forma vou deixar meu site para quem quiser dar uma olhada. Tem tudo lá. Abraço!


 
 Share on Facebook Share on Twitter Share on Reddit Share on LinkedIn
1 Comment  comments 
  • Vera Branco

    I’m always astonished at your real incredible skill. Congrats!

© O Change ERRAAAAAAAAA e por isso você está vendo essa mensagem! Google+
credit