Como cuidar de orquídeas – Ponha a Vanda na árvore

Minha avó foi uma cigana moderna: morou em mais cidades do que ouvi falar em todas as aulas de Geografia do Ensino Médio. Viajar para visitá-la era tão freqüente na minha família que eu quase nasci em um trem a caminho de Piracicaba. “Mamãe vai mudar outra vez!”, comentava minha mãe, desapontada, ao fim de um telefonema para São Sebastião, Rio das Pedras, São Paulo, Ilhabela. Nas casas de minha avó sempre havia caixas pelos cantos – algumas iam de um CEP para outro sem jamais serem abertas. Perdi a conta de quanto dinheiro ela gastou com rescisões de contrato de aluguel. Dona Vera simplesmente não criava raízes.

Foi dessa mulher franzina, mas poderosa, que herdei o gosto por viajar – além de uma preguicinha básica para cozinhar. Como não tenho filhos, as pessoas costumam achar que a única coisa com que meu preocupo é em fazer as malas. Quem me dera! Tenho quatro gatos e 148 vasos de orquídeas, sem falar na jabuticabeira, na árvore-da-felicidade, no manacá-de-cheiro, na cerejeira japonesa e num animado filodendro, para citar as plantas mais beberronas de água. Alimentar essa fauna e flora não é moleza: os gatos consomem 4 kg de ração por mês e as verdinhas são regadas diariamente – sim, faça chuva ou faça sol, já que a água que cai do céu mal dá conta de umedecer a terra do canteiro.

Quem salva a pele da jardineira viajante pode ser um porteiro amigo, uma faxineira amiga, um sistema de irrigação amigo ou um amigo-amigo, mesmo, disposto a dar uma passadinha no seu apê e regar a molecada. Hoje tenho um sistema de irrigação que goteja nos vasos e no canteiro externo da varanda. Meeeeesmo assim, tem planta que eu rego na mão, porque irrigação é boa, mas encanamento não faz o milagre de contornar portas e vãos livres (pelo menos não sem ficar horrendo).

Com essas moças abandonadas pela umidade controlada do timer, eu uso a boa e velha técnica da garrafa plástica emborcada no substrato. A engenhoca é mais velha que andar pra frente: basta fazer um furinho no fundo da garrafa e outro na tampinha, encher a garrafa de água (segurando o furinho com um dedo), tampar com a tampinha furada e emborcar o aparato de cabeça pra baixo na terra. Ele vai gotejar tão lentamente quanto menor for o furo da tampinha (eu faço com alfinete de costura). Tchãnãm, está resolvido o mistério de viajantes que criam raízes.

PS: Você tem orquídeas e saco nenhum para arranjar quem as regue durante a viagem? Ponha sua orquídea numa árvore e deixe jesuzinho regar (vide instruções no vídeo abaixo).

Como cuidar de orquídeas – Regando a Vanda

Eu lembro como se fosse hoje da primeira vez que vi a Vanda. Ela estava numa floricultura, em pé, ao lado de uma bancada de vasos. Eu já a olhava de longe, observando a delicadeza de seus contornos, quando bateu um ventinho e ela se virou para mim, ruiva e linda. Meu coração deu duas batidas, uma paradinha e um suspiro. Com a bênção do marido, levei a Vanda pra casa.

Acontece que minha Vanda se tornou tão caprichosa quanto a flor do Pequeno Príncipe. Queria que eu borrifasse água em sua cútis, protegesse-a de picadas de insetos, refrescasse seus pés no calor, cobrisse sua fronte no frio. Logo virei sua escrava. Acordava mais cedo para lhe dar de beber, dormia mais tarde à espera de um botão, um broto. Três anos se passaram e nada, nenhum sinal de agradecimento.

No Dia dos Namorados do ano passado, eu e Vanda brigamos. Estava cansada de sua insolência e passei a tratá-la como uma qualquer. Ela, bandida que só, parece ter gostado do descaso ensaiado, porque então rebentou uma raiz, e outra, e outras muitas, grossas como dedos que me segurassem para que eu não fosse embora. Claro que não fui.

Hoje, Dia dos Namorados, completamos quatro anos juntas. Minha Vanda ainda não deu flores em casa, mas depois de gravar uma série inteira sobre o cultivo dessas orquídeas (aqui e aqui), estou esperançosa de que ganhe ao menos um beijo.

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Outros vídeos da série:
Vanda, a orquídea gigante
O vaso que economiza espaço
Como tirar muda de Dendrobium
Guia rápido do Dendrobium
Acabe com os pulgões
Quantas vezes regar sua orquídea
Como regar o vaso
Poda da haste floral
Transplante de vaso com excesso de raízes
Transplante de Cattleya
Tipos de crescimento
Transplante de Epidendrum
Making of

Como cuidar de orquídeas – Vanda, a orquídea gigante

Depois de 12 vídeos e de chegarmos a 250 mil visualizações no YouTube, a série Como Cuidar de Orquídeas finalmente ganhou um patrocinador de peso: o Vandário Mokara. Não sei bem como esta louca que vos fala conseguiu convencer o Eduardo Cantelli, proprietário do lugar, a investir em uma websérie de vídeos sobre Vandas (na certa ele não sabe que minhas duas Vandas nunca deram flor em casa). Mas ele não só topou como ainda fez questão de gravar os vídeos no Jardim Botânico do Rio de Janeiro, durante a OrquidaRio, maior feira carioca da área.

Niqui eis o primeiro de quatro vídeos especiais só sobre o cultivo de Vandas. Depois deles, minhas plantas não terão mais desculpa para não florir lá em casa!

Outros vídeos da série:
Regando a Vanda
O vaso que economiza espaço
Como tirar muda de Dendrobium
Guia rápido do Dendrobium
Acabe com os pulgões
Quantas vezes regar sua orquídea
Como regar o vaso
Poda da haste floral
Transplante de vaso com excesso de raízes
Transplante de Cattleya
Tipos de crescimento
Transplante de Epidendrum
Making of

Souvenir se traz na memória

“Quando vi que o guarda não estava reparando, estiquei a mão e arranquei uma muda!” O relato tinha todas as características de uma grande façanha: minha amiga voltava de uma viagem para Búzios, no Rio de Janeiro, e, numa trilha preservada, encontrou uma orquídea florida e arrancou um pedaço da planta.

A história parece ser o máximo, mas, na real, é uma vergonha para todo mundo. Primeiro porque área de proteção ambiental é protegida por lei, tornando crime tentar sair de lá com qualquer coisa que não sejam fotos e lembranças. Não é difícil entender o motivo: se todo turista resolver levar para casa um souvenir da Mata Atlântica, o pouco que ainda resta dela não durará mais que alguns meses. O mesmo se aplica a qualquer outra região de mata nativa ou de natureza protegida.

Além disso, mesmo grupos pequenos de turistas causam, sim, impacto na fauna e flora local. Num descuido, a gente pisa num ninho de passarinho, esmaga uma muda de árvore, polui a água, espanta os polinizadores. Tudo isso desequilibra o mundinho que tanto as plantas quanto os animais precisam para viver e se reproduzir. Essa é uma engrenagem tão perfeita quanto delicada, como um relógio suíço. Mexer em qualquer coisa dá zebra.

Niqui minha amiga, não feliz em desrespeitar as instruções do guia, ainda mete a mão na planta e se acha vitoriosa. Agora, pensa comigo o trampo que foi trazer essa muda na mala, pegar avião com as raízes desidratando a cada minuto. Sem falar na orquídea, que estava toda feliz com a umidade natural de Búzios, e agora será condenada a viver num vaso dentro de um apartamento em São Paulo, numa região de clima completamente diferente de seu habitat.

E, honestamente, planta extraída da natureza é toda torta. Tem um monte de bicho, vem com praga, formigas mil. Não tem ninguém para ficar paparicando a coitada, então, ela tem folhas comidas, raízes cheias de insetos, uma inhaca. Fica linda na natureza, mas bem feiosa na sua sala, naquele vaso vietnamita esmaltado que você comprou por uma nota na floricultura.

Agora vem a pior parte: a maioria morre. Não se adapta às novas condições de habitat e, depois de uns dias, vai parar no lixo. Ou seja, a bravata da minha amiga não serviu para nada, só para matar a gente de vergonha.

Como cuidar de orquídeas – O vaso que economiza espaço

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=mmoM9y6m1sI[/youtube]

E o primeiro vídeo de 2012 para a série Como Cuidar de Orquídeas não podia ser mais caseiro: deu pau na gravação, alguns trechos saíram mastigados, a tela muda sozinha, a borda some, a imagem estica, o close fica borrado. E, claro, não posso esquecer da participação especial da minha adorável máquina de lavar roupa.

Pense nesse vídeo como alguém que está subindo uma montanha. Não chega a ser o Kilimanjaro, nem a Cordilheira dos Andes, mas, ao fim desses percalços técnicos, quem sabe você poderá tirar algo útil do vídeo. Eu torço para que você ignore a “câmera girl” amadora aqui e, enfim, comece aquele orquidário que você sonha em ter, mas adia por achar que falta espaço. Se cabe ao menos UM vaso na parede, aí está todo o espaço de que você precisará! E vamos combinar que o transplante leva apenas alguns minutos, né?

Agora licença que eu vou estender roupa ali e já volto.

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Outros vídeos da série:
Regando a Vanda
Vanda, a orquídea gigante
Como tirar muda de Dendrobium
Guia rápido do Dendrobium
Acabe com os pulgões
Quantas vezes regar sua orquídea
Como regar o vaso
Poda da haste floral
Transplante de vaso com excesso de raízes
Transplante de Cattleya
Tipos de crescimento
Transplante de Epidendrum
Making of

Garçom, a chave do 312!*

canal em Amsterdã

Restaurante em Amsterdã oferece pratos rápidos, cervejas a bons preços, atendimento camarada e, veja só, até hospedagem!

“Querem beber alguma coisa?”, perguntou o senhor, num inglês carregado de algo que soou árabe. Eis uma pergunta incomum quando se entra num restaurante arrastando atrás de si uma grande mala de rodinhas. “Acho que seria melhor se primeiro pudéssemos colocar as coisas no quarto”, respondi, com o sotaque mais escolar que consegui. Só faltou o tapinha na testa para pontuar o “ah, claro!” que o recepcionista devolveu, desculpando-se logo em seguida com um adorável “É que somos um restaurante também, sabe?”. Eu até sabia, mas não imaginava que seria daquele jeito tão, digamos, flex.

Quando fiz a reserva de um quarto para dois em Amsterdã, suspeitava que a palavra “Restaurant” no meio de “Hotel Larende” era charminho. Um “plus a mais”, para mostrar que você poderia pedir comidinhas fora de hora, almoçar um medalhão no ponto certo ou, quiçá, esperar um café da manhã com redução de balsâmico fazendo zigue-zague no prato de salada de fruta. Nada disso.

O pequeno hotel de apenas 14 quartos parece um restaurante com hospedagem confortável, nessa ordem. Da rua, é possível ver o exíguo salão que comporta umas seis mesas de quatro lugares. A decoração é simples, branca, sem frescura. Um pouquinho adiante, num misto de balcão de drinques e recepção, um atendente solícito recebe convivas e hóspedes com a mesma amabilidade babélica. Junte mímica, desenhos e meia dúzia de palavras em inglês e você terá conseguido dizer se quer se alojar no quarto ou no salão. Fiquei com a segunda opção, de tão incomum, mas nem deu tempo de alcançarmos uma das mesas e ele já surgiu com dois copos de cerveja. Minutos depois, se materializaram uns queijinhos locais que não constavam nem do cardápio nem da minha conta, quando, dias depois, fiz o check-out. Pensei em casar com o cara, mas meu marido me lançou o olhar não-seja-caipira-pelamor e eu só sorri.

De barriga cheia, finalmente levei as malas para o quarto, já esperando uma espelunca qualquer pelo preço convidativo que paguei nas diárias e na refeição. Qual nada! O quarto segue a mesma proposta Omo total do restaurante, tudo muito branco, claro, limpo e confortável. Uma potente calefação permite que você durma sem lençóis enquanto, na rua, o termômetro se aproxima de zero grau. O banheiro é pequeno, com alguns mimos de hotéis mais caros – além das “mini-coisas” de toucador, tem pantufas, secador de cabelo, espelho com lente de aumento e um chuveiro abundante. Além de um armário fechado, há outro, perto da porta, para dependurar os onipresentes casacos e cachecóis.

Passei a noite imaginando que, a qualquer momento, um garçom surgiria à porta para oferecer travesseiros e tremoços.

*Versão original do texto publicado este mês na revista Viagem e Turismo.

Flor do dia: Dendrobium kingianum semi-alba

Dendrobium kingianum semi-alba

Ok, o projeto Flor do Dia devia chamar Dendrobium do Dia. Mas, né? Tem como não amar esse gênero tão múltiplo? Tão generoso em floradas, tão barato e, principalmente, tão for dummies? Porque se tem uma orquídea que é paciente com iniciantes, é Dendrobium, minha gente.

Você esquece de regar, ele nem liga, afinal, tem lá algum estoque de nutrientes guardados em suas “caninhas”. Você não tem paciência para esperar um ano até a próxima florada? O Dendrobium quebra seu galho – algumas espécies florescem até duas, três vezes por ano. Quer ter plantas totalmente diferentes? Compara um Dendrobium phlox, um Dendrobium nobile e esse Dendrobium kingianum semi-alba aí da foto para confirmar como eles mal se parecem entre si. Não tem figurinha repetida nunca!

Flor do dia: Maxillaria tenuifolia

Maxillaria tenuifolia

O dia amanheceu com um cheiro de coco maduro. Eu abri a janela do quarto e fiquei farejando , procurando de onde vinha o aroma. Vasculhei as orquídeas e passei batido num vaso pequeno, que estava atrás dos outros, numa agradável sombrinha que as Maxillaria sabem aproveitar muito bem. Como sou uma perdigueira muito da fajuta, passei pelo vaso e não percebi que o cheiro de coco vinha de uma florzinha de uns 3 cm, laranja e pintadinha, que brotou no meio das folhas pontiagudas da Maxillaria tenuifolia.

Dias depois, como o cheiro persistisse, fiz nova procura e finalmente achei a pequena perfumada. De fato, algumas orquídeas são pródigas em exalar aromas tão fidedignos que, de olhos vendados, você seria capaz de achar que está perto de uma fruta. Há orquídeas com cheiro de uva (Spatthoglotis plicata), mel (Maxillaria madida), canela (Catasetum macrocarpum), baunilha (Vanilla planifolia) e chocolate (Oncidium “Sharry Baby” e Cattleya “Chocolat Drop”), só para citar os mais agradáveis (sim, existem algumas tão fedorentas quanto comida podre).

Não é linda a cocadinha do tabuleiro da jardineira?

Flor do dia: Dendrobium phlox

Dendrobium phlox

De todos os meus Dendrobium – o gênero que mais cresce em casa –, este Dendrobium phlox é o menorzinho e mais birrento. Comprei uma muda sem flores, quatro anos atrás, e ela crescia lentamente. Eu a tratava como o bebezinho que era: a orquídea tinha tão poucas folhinhas que passava os meses no canto mais sem sol da varanda, sendo mimada com água e adubo de crescimento, pra ficar fortinha e logo dar flores. Só que o “logo” nunca vinha.

Depois da reforma que fiz na varanda, no ano passado, muitas plantas morreram, outras ganharam vasos novos e o Dendrobium phlox acabou indo parar em outro canto, onde bate um sol inclemente. A planta começou a desenvolver um montão de pseudobulbos, encheu de folhas e mal cabia no vasínculo em que veio. Aí, notei que apareceram umas berebinhas. Achei que eram cochonilhas e separei o vaso para uma inspeção minusciosa antes de mandar ver no óleo de Neem. Qual nada! Eram os botões começando a pipocar!

As flores, amarelas ou alaranjadas, nascem diretamente do pseudobulbo, em grupinhos de quatro ou cinco, semelhantes a buquês de 3 cm! São ligeiramente adocicadas e duram pouco, mas eu fico que nem boba vendo minha filha mocinha…

13 autores de livros infantis que agradam todas as idades

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Minha amiga Bia Levischi acaba de me pedir indicação de alguns autores de livros infantis. Como dar essas sugestões é uma das coisas que eu mais gosto de fazer, achei que valia à pena compartilhar aqui. Esta é uma lista rápida, fiz de cabeça, por isso, muita gente boa está fora. Que tal completá-la com suas sugestões na caixa de comentários?

Adriana Falcão
De longe, é minha escritora infantil preferida. Roteirista por formação, seus livros têm um ritmo cinematográfico. São dela os espetaculares Luna Clara e Apolo Onze e Mania de Explicação.
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Caio Fernando Abreu
É um autor adulto, mas escreveu As Frangas para o público mirim. Morreu de Aids no final da década de 90, mas até hoje é um dos textos que eu mais gosto de ler.
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Ian Falconer
Criador da Olívia, a famosa porquinha hiperativa, tem só um livro em português, mas virou febre no exterior — até mochila e boneca tem de seus personagens. Livros para ler em várias camadas de interpretação.
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Kate DiCamillo
A Extraordinária Jornada de Edward Tulane e A História de Despereaux são tão emocionantes, que me dá nos nervos quando vejo a bobagem que fizeram ao adaptar o segundo para o cinema…
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Jane Yolen e Mark Teague
A dupla criou uma série absolutamente feliz chamada Como os Dinossauros…, onde as reticências são completadas por “amam seus cães?”, “fazem quando ficam doentes?” e coisas do gênero. Tudo hilário.
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João Anzanello Carrascoza
Descoberta recente, esse publicitário tem uma narrativa linda e triste, como um solo de piano bem lento. Gostei muito de Meu Amigo João, recomendo fortemente.
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Luis Pescetti
Esse argentino engraçadíssimo tem apenas um livro em português, Dá pra Acreditar?, uma edição de bolso feita pela LP&M. E já é uma obra-prima, imagine como seria se tivessem editado com capa dura, ilustrações…
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Lygia Bojunga Nunes
Da velha guarda das autoras brasileiras, não esqueço algumas de suas obras mais bonitas, como A Casa da Madrinha, A Bolsa Amarela, Os Colegas, Corda Bamba

Odilon Moraes
Ilustrador, também escreve boa parte de seus livros. É um ser humano iluminado, exatamente como suas obras. A Princesinha Medrosa, Rosa, O Matador e Pedro e Lua são alguns dos meus livros prediletos.
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Rebecca Dautremer
Depois do sucesso com Princesas Esquecidas e Desconhecidas, ela passou a escrever também. Infelizmente como acontece com muitos outros autores geniais, há pouca coisa dela no Brasil.
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Shaun Tan
“Li” Emigrantes de uma sentada, de tão hipnótico que o livro é. Mas o “li”, aqui, é força de expressão, porque esse é um trabalho sem palavras. Com letrinhas há muitos bons, quase nada em português…
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Shel Silverstein
Também ilustrador e autor, criou A Árvore Generosa, que é um puuuuta livro sobre ecologia sem ser um livro sobre ecologia. É dele também o ótimo Leocadio, o Leão que Mandava Bala.
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Wolf Erlbruch
Só por O Pato, a Morte e a Tulipa, ele já merecia o Olimpo, mas o cara ainda criou A Senhora Meier e o Melro e O Urso que Queria Ser Pai. Só não gosto do A Pequena Toupeira que Queria Saber Quem Tinha Feito Cocô na Cabeça Dela, acho uma bobagem.
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Flor do dia: Érica “Snow Ball”

Érica

Eis aqui um exemplo clássico de como ser feita de idiota. Entrei na loja de jardinagem em busca de terra e pedriscos para um vaso que eu estava transplantando. O lugar é enorme, com caixas de madeira repletas de suculentas, orquídeas, violetas e outras floríferas na entrada e árvores de médio e grande porte nos fundos. É a Leroy Merlin dos amantes de plantas porque tudo está à mão, bonito, bem etiquetado e verdejante. Já saí de lá dezenas de vezes pensando em como seria bom ter um quintal pra poder plantar todas aquelas palmeiras-imperiais, mangueiras, figueiras.

Só que ninguém brinca em serviço. Se existe vitrinista até pra farmácia, pensa que os caras não iam se preocupar com as plantas que ficam à vista só porque o lugar é ecológico e coisa e talz? Batata: entrei, mirei essa érica “Snow Ball” (Leptospermum scoparium) e, meudeos, esqueci o que tinha ido comprar. Só dava ela: um arbusto que mal chegava aos meus joelhos, com as folhas fininhas e espetentas de um bom cipreste, cravejado de florzínculas brancas. Parecia tudo de plástico. Parecia um sonho verde. Claro que levei.

Tô saindo do caixa, com a dita já paga, e ouço dois vendedores conversando atrás de mim. “Pega mais vaso da Snow Ball que tá saindo que nem pãozinho quente. É o quinto que vendo hoje.” Tééééééé, fez a campainha de tonta no meu cérebro. Respirei fundo e levei a érica pra casa.

Contece que essa é uma plantinha que gosta de frio. Muita gente a conhece, aliás, por érica-japonesa, ainda que de nipo ela não tenha nada, visto que é nativa da Austrália. Mesmo no inverno, nosso clima é quente demais pra ela. E, ó-bí-vi-ô, a planta não resistiu mais que duas semanas em casa. Nem com mandinga foi pra frente: as flores caíram na primeira semana e as folhas, na segunda, ficou um varapau feio e ressequido.

Eu podia ser honesta e admitir que não estudei a planta direito, seus hábitos, seu local de origem, aquilo tudo que vivo dizendo aqui. Mas como a culpa é minha, eu boto em quem quiser e essa vai pro fiadaputa do vendedor que devia fazer pãozinho quente em vez de ficar tentando as pobres clientes com plantas lindas. Hunft.

Flor do dia: Cyrtopodium cardiochilum

Cyrtopodium cardiochilum

Por dois anos consecutivos, passei o Natal em São Pedro da Aldeia, uma cidade de 88 mil habitantes na região dos lagos, no Rio de Janeiro. O lugar é lindo, distante o suficiente da muvuca de Búzios, mas perto o bastante de Cabo Frio e suas ilhotas de água turquesa-vejo-meus-pés. Falante que somos, eu e Omblogsman fizemos amizade com os donos da pousada onde ficamos e, logo, já nos sentíamos quase em casa, dentro da piscina, com a vista calma de água, céu e nada.

Foi deles que ganhei esse Cyrtopodium cardiochilum, uma espécie de orquídea que dá que nem mato na região litorânea. Presente que só quem tem alma de jardineira curte: envolvidos em um jornal, estavam umas bolotas sujas de areia, quase sem folhas e com flor nenhuma. Eu vibrei de alegria por levar pra casa uma orquídea tão brasileira.

Montei o vaso colocando até umas conchinhas por cima, pro meu Cyrtopodium cardiochilum se sentir em casa. Como ela é planta de região quente e úmida, reguei abundantemente, mas exagerei na maresia e o broto apodreceu. Taqueopariu, vou matar meu presente! Pedi desculpas por meu dedo cinza, portei o broto podre e rezei para a plantinha me perdoar.

Um ano se passou até que ela decidisse que eu não era má pessoa e me acenasse com dois — DOIS — brotos tão parrudos que até tomei um susto. Passei meses diligentemente visitando-a para esmagar os malditos pulgões, que atacavam suas folhas com uma obstinação insuportável. E, no final do ano passado, ela deu duas hastes quilométricas e se encheu dessas pequenas flores amarelas, que cheiram a mel e atraem aquelas abelhas pretinhas.

Tive a pachorra de contar as flores: 111. Um massacre de beleza.

Flor do dia: Eria langbianensis

Eria langbianensis

Comprei essa Eria langbianensis sem flor, uma muda muito recomendada pelo vendedor. “Ela não se parece com nada que você tenha em casa”, foi o argumento definitivo para atiçar minha curiosidade. De fato, mesmo sem flor, essa orquídea já é interessante, por seus pseudobulbos de um verde bem escuro, redondos como bolinhas de gude, cobertos por uma penugem branca.

Passei seis meses esperando a moça vir ao mundo e, quando a hastezinha surgiu, demorei a perceber que portava um botão — ele era pequeno, branco e tão peludo que quase julguei que a planta tinha sido atacada por cochonilhas serosas. Esperei uns dias, muitos, porque é da natureza das orquídeas se ademorar no banho. E então apareceu essa flor aí da foto. Comquidescreve uma coisa dessas? Por fora, ela tem aquela penugem toda, macia e delicada. Por dentro, o labelo (a pétala que atrai o polinizador) é todo enrugado, cheio de textura e cor. E as outras pétalas são do mais cálico creme, lisas e envernizadas como as folhas da planta.

E tem mais: ela não gosta de muita luz, fica na parte mais escurinha do meu orquidário, onde recebe muita água para deixar o substrato sempre úmido. Agora diz aí: se parece com alguma coisa que você já tenha visto?

Flor do dia: Renanthera coccinea

Renanthera coccinea

As floriculturas chiques adoooram a Renanthera coccinea, mas não pelos mesmos motivos que me fazem curtir essa orquídea. Para quem quer montar um arranjo espetacular, que pareça chique e exótico ao mesmo tempo, de fato, essa orquídea faz bonito. Suas flores de um vermelho vivo têm um formato incomum e a haste, grossa, sinuosa e bem longa, cria um efeito singular nos arranjos de ikebana.

Contece que eu tenho dó de cortar as plantinhas, sabe? Porque se você deixar a Renanthera coccinea linda e formosa no vaso, molhando de quando em vez e adubando uma vezinha por semana, vai ter uma floração linda pelo menos uma vez por ano. Depois de aclimatada na sua casa, é possível que a planta fique tão “em casa” que floresça até três vezes por ano. Resistentes, as flores duram até dois meses, muito mais do que os parcos cinco a dez dias que a pobre haste aguenta se cortada e colocada num vaso com água.

Veja bem, não sou contra plantas de corte. Tenho em casa vários cantinhos sombreados onde planta nenhuma conseguiria crescer se plantada na terra e que já enfeitei muito com arranjos de gérbera, rosas, tangos e outras espécies de corte. Mas tenho pena de cortar planta cuja flor dura muito mais no pé do que cortada. Eu sei que uma roseira pode durar semanas florida, mas a bicha é monstra, enche de besouro, não é planta pra se cultivar em vaso, tem de ter casa.

Tá, eu sou contraditória. Mas juro que não sou do Sindicato de Defesa das Orquídeas: cortar flor de bananeira me enche de dor e tristeza. E helicônia, então? Virge…

Flor do dia: Dendrobium thyrsiflorum

Dendrobium thyrsiflorum

Eu adoro Dendrobium. Talvez porque esse gênero de orquídeas seja tão subjulgado por muitos colecionadores — ah, os amantes de Cattleya e Vanda… —, talvez por ter uma variedade tão grande de tamanhos e formatos, ou ainda por ser normalmente de fácil cultivo, a verdade é que há Dendrobium pra todos os gostos. De flores miúdas, como o Dendrobium phlox, ou flores grandonas, que nem as de Dendrobium nobile, que nascem numa longa haste, tal qual Dendrobium antennatum, ou que caem em graciosos cachos, como a deste Dendrobium thyrsiflorum aí da foto.

A história deste está ligada ao vídeo que fiz só sobre as plantas do gênero, lá no Ceasa de São Paulo. Depois de filmar o que eu queria, não conseguia esquecer um vaso abarrotado de botões que vi numa das bancadas. Vendedor japonês, você sabe, não pechincha, então, me neguei a levar a bichinha pra casa. Meus sogros, que me faziam guarda na gravação, acabaram comprando o vaso escondido e, quando cheguei no carro, lá estava a plantinha me esperando. Ainda bem que eles resistiram à tentação de adotar meu Dendrobium!

Flor do dia: Oncidium fuscatum

Oncidium fuscatum

Depois de virar fã das consultoras de moda do Oficina de Estilo, passei a me interessar mais por moda. Até então, “look” era apenas “ver”, em inglês. Foi com a Cris e a Fê que aprendi que você monta visuais mais interessantes quando mistura cores (claras x escuras, vivas x apagadas, pastéis x “chegueis”), brilhos (não precisa cair num tonel de lantejoula, aqui, a brincadeira é entre tecidos e acabamentos com uma coisinha que atraia o olho, metalizados, paetês, vinil, pedrarias, adamascados, sedas, cetins, em contraste com tecidos e detalhes opacos) e texturas (tecidos grossos com finos, caimento pesadão com fluido, e por aí vai).

Quando vejo esse Oncidium fuscatum, penso que a moda acaba seguindo um padrão da natureza: repara como ele mistura cores claras com escuras, brilho com opacidade. Pétala chamativa que a orquídea tem para atrair o polinizador, o labelo recebe uma camada de verniz brilhante que não dá pra ver na foto, mas fica na parte mais vermelha da flor — quando ela balança ao vento, deve chamar muita atenção dos serzinhos voadores. Que nem Gisele Bündchen desfilando na passarela, manja?

Flor do dia: Leptotes bicolor

Leptotes bicolor

Outra minusculeza da coleção lá de casa, essa Leptotes bicolor está num xaxim tão pequeno que eu a rego enfiando a planta dentro de um copo. As folhas parecem uns macarrõezinhos pontudos, que agora teimam em nascer de cangalha, num protesto silencioso por eu mantê-la de costas para a janela. Mas, ué, quem cuida quer ver, né? Ou vou ficar só alegrando a vista de vizinho?

Aí, tive de tirar a marmanja do vitrô da cozinha, onde estava tão ambientadinha, e levá-la pra varanda, tomando solão na cara, pra ver se as folhas desviram. Suspeito que demorei pra tomar uma atitude, porque a bichinha segue querendo ser porco-espinho. Mas mãe perdoa tudo só pra vê-la sorrir com essas florzinhas bicolores…

Flor do dia: Coelogyne sulfurea

Coelogyne sulfurea

Eu adoooro micro-orquídeas, você bem sabe – se não fosse assim, onde eu enfiaria 148 vasos num apê apertadinho? E um dos motivos de eu gostar tanto delas é justamente o fato de darem flor em abundância. Nada daquele miserê de Cattleyas, nem da frescura das Vandas: as pequenas são profissionais do ramo.

Essa Coelogyne sulfurea (pronuncia-se “celogine sulfúrea”), por exemplo, veio com cinco hastes carregadas de flores do tamanho da unha do meu mindinho. As petalinhas são meio translúcidas, o que os botânicos chamam de textura: elas parecem firmes e frescas, quase como se desse para ver suas veinhas cheias de água. Não dá vontade de comer numa salada?

Flor do dia: Laeliocattleya “Tropical Pointer Cheetah”

Laeliocattleya Tropical Pointer Cheetah

Fazer híbridos de orquídeas é algo fascinante. Primeiro porque você se sente meio deus, brincando de juntar genes de uma planta com outra pra ver no que dá. Segundo porque o franksteinzinho que surgir dessa união pode vir a ser uma planta belíssima e premiada, copiada no mundo todo, o que gera lucro para seu criador. Mas há outra razão ainda mais divertida: é a chance de imortalizar alguém que você ame ou por quem tenha profundo respeito e admiração.

É por essas a outras que existem orquídeas Sophrolaeliocattleya Ayrton Senna, Laeliocattleya Ronnie Von ou Rhynchosophrocattleya Ruth Cardoso, só alguns famosos híbridos. Claro que nem todo mundo se satisfaz em fazer uma homenagem a alguém. Há os que preferem detalhar a planta de forma bem empolada e quase sempre em inglês, daí temos maravilhas como Mediocalcar decoratum Happy Field ou Oncidium Sharry Baby Sweet Fragance.

Por tudo isso, quando minha Laeliocattleya “Tropical Pointer Cheetah” apontou seu botão de estréia, eu esperava ver uma versão botânica da Cheetara, dos Thundercats. Até que ela se saiu bem, não?

Flor do dia: Caularthon bicornutum

Caularthon bicornutum

Logo que bati os olhos nessa orquídea, escondidinha no meio de dezenas de Phalaenopsis azuis – é uma epidemia, santodeus! –, já sabia de cara que a levaria pra casa. Mas depois de cinco minutos de conversa com a Érica Shirozu, dona do orquidário que leva seu sobrenome, aí tive certeza de que a planta não só seria minha como ainda renderia um belo texto.

A Caularthon bicornutum tem um nome complicado e esconde um segredo. Orquídea amazônica, gosta de ambientes quentes, úmidos e sombreados, mais ou menos como a floresta de onde vem. Ela dá várias flores de uma só vez, com uns 5 cm de diâmetro, ligeiramente perfumadas, mas, curiosamente, não é em sua floração que está sua graça.

Os pseudobulbos da Caularthon bicornutum são ocos, uma coisa muito incomum em orquídeas. E são assim porque, numa determinada fase de seu ciclo anual, os caulezinhos se racham e ficam cheeeeios de formigas. “Elas devem trazer algum benefício pra planta”, disse a Érica, me deixando numa curiosidade inquietante.

Qual seria o benefício de ficar cheia de formigas passeando “dentro” de você? Eu já sabia que as formigas podem ser seres realmente cretinos porque vi muitas vezes a cena de uma cochonilha fiadaputa sugar uma planta e a formiga, em vez de comê-la, zanzar de um lado pro outro atrás do cocô açucarado da praga. Logo, pra mim, acabou aquela farsa de formigas boazinhas incutida desde a infância pela fábula A Cigarra e a Formiga. Elas são ordeiras e disciplinadas? Ok, então, zero a zero.

Niqui eu tive a ideia de fazer uma matéria sobre coisas curiosas a respeito das orquídeas. E niqui o editor da Superinteressante gostou e niqui a matéria vai sair, mas com um enfoque bem diferente e não vou nem falar da Caularthon bicornutum, numa dessas maravilhas das sinapses coletivas. A matéria ainda não tem previsão de sair, mas eu conto pra vocês o segredo da orquídea que esconde as formigas: ela lhes dá guarida porque os insetos a protegem do ataque de animais herbívoros. Ou, no melhor estilo co-evolução, os insetos a protegem porque ela lhes dá guarida e ela lhes dá guarida porque os insetos a protegem. Ponto pras formigas – mas elas só enganam a Caularthon bicornutum, não a mim.

PS: É claro que você vai ler a íntegra do texto da Superinteressante aqui, né?
PS do PS: E, sim, eu vou escrever exclusivamente aqui sobre as 10 coisas bizarras que você não sabia sobre orquídeas. Guentaí que o ano mal começou.

Flor do dia: Dendrobium loddigesii

Dendrobium loddigesii

Foi bater o olho nesse Dendrobium loddigesii aí da foto para garrar de amor. Essa nuvem carregada de florzinhas do tamanho de um dedão estava à venda no Ceagesp, só me olhando de soslaio. Eu me fiz de difícil o quanto pude, afinal uma orquídea tão florida assim custa três dígitos e eu sempre me neguei a gastar tanto dinheiro com plantas. Mas então que era meu aniversário de casamento e eu não precisei quebrar minha promessa: ganhei a monstrinha do Omblogsman!

Esse Dendrobium tem pseudobulbos tão pequenos e ramificados que em poucos anos faz uma touceira dessas. A minha tem meio metro de altura por uns 40 cm de diâmetro e exige uma certa acrobacia para ser regada, já que você não sabe onde termina uma planta e onde começa outra. então, eu uso a mangueira no modo “vapor”, que libera uma nuvem de minúsculas gotículas de água, e encharco o vaso inteiro, em todos os sentidos. Aí, vez ou outra, ela me presenteia com essas gracinhas!

Flor do dia: Dendrobium findlayanum

Dendrobium findlayanum

Manja queijo de nozinho? Eu comia muito um monte deles quando ia tomar lanche na casa da minha avó materna, que era fã de comidas lúdicas – ela as chamava de “comidinhas felizes”. Hoje, com uma oferta cada vez maior de queijos importados nos supermercados, eu confesso que deixo os nozinhos sempre em segundo plano. Ou melhor, deixava, até que esse lindo Dendrobium findlayanum foi morar em casa.

Essa linda orquídea tem pseudobulbos absolutamente inconfundíveis, formando vários simpáticos nozinhos. É deles que brotam essas flores brancas com labelo amarelo, que têm um delicioso cheiro de mel. Se minha avó visse meu Dendrobium findlayanum, tenho certeza de que o chamaria de “florzinhas felizes”.

Flor do dia: Aguapé

Aguapé

Eu já fiz várias coisas estúpidas na vida, mas poucas foram tão cretinamente trabalhosas quanto tentar montar um jardim aquático dentro de um bidê. Eu disse que era algo bem imbecil, não disse?

A coisa começou depois de fazer uma visita a uma antiga loja de plantas em São Paulo, a Garden, que tinha um pequeno jardim aquático. A sensação de estar naquele lugar fresco e silencioso era uma bênção em São Paulo, especialmente no verão. Eu via as flores do aguapé (Eichornia crassipes) darem um colorido suave para o lugar e fiquei tentada a reproduzir uma versão miniatura daquele oásis em casa.

Tapei o ralo do bidê com silicone, coloquei na cuba uma bombinha de aquário, torcendo para que ela oxigenasse a água o suficiente, mantendo vivo meu pequeno ecossistema. E enchi de aguapé. Passei uma semana tomando banho como se estivesse na Amazônia, vendo do box as flores lilases tão idênticas umas às outras que pareciam de plástico. Era o máximo.

Em dez dias, comecei a sentir cheiro de água parada. Retirei toda a água com um baldinho, esfreguei o bidê todo e enchi de novo. Mais cinco dias e as flores caíram. Em menos de um mês, só restaram umns caules moles e pretos.

Antes que você tenha uma ideia genial como a minha, saiba que essas aquáticas precisam de sol pleno. Pleno mesmo: só expostas aos raios solares elas serão capazes de se manter saudáveis e bonitas. Então, a menos que bata sol o dia todo no seu banheiro, usar o bidê para esse fim não é uma boa ideia…

Flor do dia: Cravo

Cravo

É curioso como algumas flores estão discretamente nos acompanhando na vida. Antigamente, era comum o noivo, o pai da noiva e os padrinhos levarem um cravo (Dianthus caryophyllus) na lapela durante a cerimônia de casamento. Com isso, os familiares e amigos mais importantes ficavam destacados na festa. O cravo era branco para representar a pureza do enlace.

Com as técnicas de cultivo industrial cada vez melhores, novas plantas ganharam esse status de nos acompanhar num momento tão importante da vida. E o cravo, coitado, que já tinha brigado com a rosa, foi morar, deprimido, nos túmulos e cemitérios.

Eu fico na torcida para que uma flor tão bela mereça um lugar mais nobre a nosso lado, nos acompanhando em outras fases felizes da vida.

Flor do dia: Pitanga

Pitanga

Comecei a cultivar plantas por conta própria há 15 anos, depois de sair da floresta, digo, casa de minha mãe e vir para São Paulo morar sozinha. Nos primeiros meses de república, mal tinha tempo para pensar em mim, que dirá em um ser vivo que não dava sinais claros de dor, fome e sede. Em menos de um ano, mudei para um apartamento grande e virei madrasta de um bambu-mossô, meia dúzia de cactos e uma pitangueira (Eugenia uniflora) bebê.

Claro que o bambu morreu por falta de sol e os cactos quase foram pro brejo de tanta água que eu dava para eles. Salvei um, mas só por um ano a mais, porque logo a faxineira tratou de dar fim no coitado mantendo-o sem água por semanas.

Apesar de todas essas lições doídas, nunca perdi a fé em transformar minha casa em um reduto tão verde quanto o de minha mãe. A pitangueira me acompanhou a cada mudança de apartamento, até ficar tão grande que, hoje, bate no teto da varanda, se curva em um arco gracioso, e desponta seus raminhos, acenando aos passantes na rua.

De vez em quando, eu consigo flagrar uma florzinha dessas antes de as formigas a encontrarem. Mas minha alegria dura pouco, porque mal a frutinha amadurece, os passarinhos dão cabo dela. Eu não ligo: é da natureza das florestas serem meio incontroláveis.

Flor do dia: Caju

Caju

Tomei dois sustos quando vi um cajueiro (Anacardium occidentale) pela primeira vez. Nunca imaginei uma árvore de aparência tão incomum, com galhos retorcidos apontando para todos os lados, muitos raspando no chão. As flores são minúsculas, menores que a unha do meu dedinho do pé, e vivem cheias de pequenas abelhas pretas (o que me fez ser muito cuidadosa ao fazer as fotos, porque se existe um bicho no mundo que eu tenho medo é abelha).

Além do formato dos galhos, o cajueiro chama a atenção por seus frutos. Manja a polpa amarela que a gente usa pra fazer suco? Aquilo não é a fruta e, sim, um pseudofruto. O que os botânicos chamam de fruto é, na verdade, a virgulinha gorda do caju e que, depois de torrada e salgada, rende a castanha-de-caju. Reparando bem, dá pra ver como a parte amarela era antes o cabinho da flor, né?

Agora, eu quero ver botânico botar banca e tomar suco da castanha, ah, se quero.

Flor do dia: Pimenta

Se você tem uma hortinha em casa, já teve ou está pensando em montar uma, é batata, tem, teve ou terá um pezinho de pimenta (Capsicum frutescens). É fácil entender a onipresença dela mesmo nos menores jardins: é um arbusto pequeno muito cheio, que dá lindas florzinhas brancas, de onde surgem os frutos, primeiro verdes, depois vermelhos, amarelos ou roxos, de acordo com a espécie.

A que eu mais gosto de cultivar é a pimenta dedo-de-moça – além de ter um ardor mais aceitável, ela fica linda enfeitando um risoto. Se você não é fã de comidas picantes, pode experimentar tirar todas as sementes e descartar a parte branca interna, para suavizar o sabor.

Gosto de prepará-la como um creminho, para acompanhar frutas, coisa besta de fazer: pique uma pimenta dedo-de-moça o mais miúdo que conseguir, coloque-a em uma tigelinha com uma xícara (café) de açúcar e misture bem. O açúcar vai ficar cor de rosa e virar um caldinho com o sumo da pimenta. Aí, é só mergulhar nisso suas frutas doces preferidas! Fica perfeito com morangos, nham…

Flor do dia: Carambola

Lembro da primeira vez que comi uma carambola (Averrhoa carambola) na vida: era véspera de Natal e a fruta tinha sido trazida para casa numa embalagem que incluía vários outros sabores até então exóticos para mim. Entre nozes, castanhas portuguesas e damascos, se espremia uma única carambola, já meio amassada e ainda verde. Seu formato estranho me chamou a atenção e peguei-a na mão, sentindo sua textura plástica e brilhante.

Enquanto minha mãe desfazia as sacolas de compras de supermercado, eu brincava com aquele alimento estranho, alheia ao vaivém de pernas na cozinha. O ambiente cheirava às bolachas de nata que ela fazia para levar na ceia de Natal e a casa tinha aquele frenesi típico de cozinheira em dia de festa.

Nas minhas mãos, a carambola parecia algo meio extraterrestre, quem sabe chacoalhando fizesse barulho? Não, não, fazia, me certifiquei. Fiquei zanzando com a fruta pra lá e pra cá, levei-a para a sala e vi como poderia ser confundida com um dos enfeites da árvores de Natal. Então, depois de saborear por alguns minutos a delícia da descoberta, fiz a pergunta derradeira:

– Que isso, mãe?
– É uma carambola, é meio azedinha por dentro. Dá aqui que eu vou te mostrar.

E, com uma faca, fez uma daquelas mágicas que só as mães conseguem fazer, transformando a fruta em várias estrelinhas finas.

– Tó, experimenta. É uma delícia!

Não era. Estava verde e amarrando a boca, um gosto que realmente não fazia jus à toda aquela apresentação. Levei anos para fazer as pazes com a fruta e descobrir que, madura de verdade, ela é mesmo uma delícia.

Só depois de uns 20 anos dessa história é que fui conhecer as delicadas flores da carambola. Não são a cara da fruta?

Flor do dia: Phragmipedium cardinale

Phragmipedium cardinale

Depois de dois meses de agonia, hoje eu finalmente decretei o óbito de uma das minhas orquídeas mais queridas e antigas, o Phragmipedium cardinale (lê-se fraguimipédium cardinale”). Agora que já se passaram várias semanas dos primeiros sinais de deteriorização da planta, eu até consegui conter uma lagriminha.

Orquídeas podem viver centenas de anos, por isso, dói muito quando se perde um vaso querido por ignorância ou negligência de iniciante. Eu fui muito alertada: Phragmipedium é um gênero difícil de cultivar, me diziam nos orquidários. Mas eu via aquela linda flor bojudinha, qual pipa presa na linha, e acabei não resistindo.

Em 2009, esse Phragmipedium cardinale foi morar em casa. À época, toda a minha coleção de orquídeas se resumia a uma meia dúzia de vasos, a maioria escolhidos por terem flores exóticas – o que, descobri depois, é um péssimo critério de seleção de plantas quando se é amador. Há apenas 21 espécies de Phragmipedium: as epífitas gostam de substrato misto ou de serem amarradas a uma árvore, enquanto as terrestres, a maioria, preferem ser cultivadas em solo com bastante composto orgânico.

Não sabia que o meu Phragmipedium cardinale era uma orquídea epífita e o soterrei em camadas e mais camadas de terra. Logo a flor caiu e as folhas perderam o viço. No ano seguinte, em vez de dar flores, a orquídea soltou três brotos, me enchendo de alegria e esperança. Em menos de doze meses, os brotos foram secando, um a um, a planta-mãe ficou toda ressecada e virou um montinho marrom retorcido. Eu continuava regando o vaso, mantendo-o úmido e num local ligeiramente ensolarado, borrifando-o com adubo da mesma maneira como fazia com as outras plantas.

E, então, quando já não havia mais nada a fazer, passei a usar uma técnica de mentalização que aprendi no A Vida Secreta das Plantas, estimulando a orquídea a se recuperar e crescer. A técnica é ótima de fato, porque surtiu efeito com várias outras plantas convalescentes que eu tinha em casa. Mas esse Phragmipedium não estava mais doente, estava morto. Por mais que eu me esforçasse em mandar a ele correntes de energia positiva, era para um cadaverzinho que eu rezava, entende? Hoje, enfim, aceitei isso: desmontei o vaso, pequei o que sobrou da plantinha, com as raízes tão secas quanto suas folhas, e enterrei-a, como convém aos entes queridos.

Tirei três lições do ocorrido. Primeira, peça ajuda para escolher orquídeas – pergunte, fuce na internet, participe de cursos gratuitos em sua cidade (há centenas deles pelo país). Quanto mais acertada a escolha da planta para as condições de sua casa ou seu apartamento, maiores as chances de êxito no cultivo. Segunda lição, seja rápido ao reagir aos primeiros sinais de que a planta não está indo bem. Vale levar uma folha que tenha manchinhas para um orquidário, chamar um jardineiro ou mesmo fotografar a orquídea e submeter a imagem aos fóruns de discussão na internet. Terceira lição, a mais doída: nem sempre amor e boa vontade são o suficiente. Aceite que isso faz parte da vida e seja um jardineiro menos culpado, quem sabe, até mais feliz.

Flor do dia: Calanthe vestita

Calathe vestita

Tem flor que a gente olha e nem diz que é orquídea. Tipo essa Calanthe vestita. Se você vir a planta sem flor, não daria uma pelota por ela: as folhas, caducas, caem meses antes da floração, resumindo a orquídea a uns pseudobulbos sem graça, com um aspecto até meio ressecado. Logo que a haste floral começa a surgir, ela tem uma penugem protegendo a planta da desidratação, mesmo recurso usado, por exemplo, pela grama.

Agora junta os pseudobulbos carecas com a haste peluda, folha nenhuma, flor nenhuma ainda, e me diz se você acha que isso parece orquídea? Niqui ela resolve acabar com as dúvidas e dá um cachinho de flores brancas, de pétalas delicadas, finamente decoradas com um miolinho vinho, de labelo recortado qual saia de bailarina. E pronto, cabô dúvida.

Flor do dia: Flor-de-pavão

Flor-de-pavão

Coisa difícil está sendo me aventurar pelo mundo das árvores, logo eu, que malemá sei distinguir um bonsai de um cacto. Encontrei dessa Caesalpinia pulcherrima em muitos trechos alagadiços no Maranhão, muitas vezes plantada direto no areial, esturricando debaixo do sol. “Isso aí é mato”, comentou o guia, mas, com um pouco de insistência, me disse que a planta também é conhecida por “flamboaiazinho” e “flor-de-pavão”.

De flamboayant (Delonix regia) não tem muito, exceto as flores vermelhas: a primeira é um arbusto de até 4 metros que veio das Antilhas, enquanto o africano flamboayant tem uma inconfundível copa baixa e grande, que atinge 15 metros de altura e quase o dobro disso de largura.

Flor do dia: Grama-amendoim

Grama-amendoim

A grama-amendoim (Arachis repens) tomou nossos jardins como o aceto balsâmico em nossas mesas: quando a gente se deu conta, a coisa estava dominada e ninguém mais queria saber de grama sem flor ou vinagre azedo. Sou suspeita de falar, eu sei — odeio o império do balsâmico como detesto lembrar do petit gateau suplantando o mousse de chocolate ou do tomate caqui perdendo terreno para o tomate seco.

No quesito jardinístico, sou tão nostálgica quanto o sou à mesa. Por que o novo precisa suplantar o velho? Eu acredito em um mundo em que a grama são-carlos (Axonopus compressus) possa viver feliz da vida ao lado da grama-amendoim, essa exibida. E que eu possa temperar minha salada com um bom vinagre branco, sem ter de rechaçar o aceto balsâmico que vier no molho…

A parte difícil de resistir à grama-amendoim são essas florzinhas amarelas — como ficar irritada com um matinho tão simpático?

Flor do dia: Hibisco-crespo

Hibisco-crespo

O hibisco (Hibiscus sp) é considerada a flor-símbolo do Havaí. Surgida nas regiões quentes da China e da Índia, esse arbusto chega a 5 metros e possui dezenas de híbridos, multiplicando anualmente as opções de cores e formatos de suas flores.

Essa delicada versão leva o nome de hibisco-crespo (Hibiscus schizopetalus) e, à primeira vista, mal lembra as parentes de gênero. Suas pétalas finas e rendadas se arranjam numa espécie de buquê pendente, com um longo rabinho curvo segurando os grãos de pólen. Não é uma coisa de lindo?

Flor do dia: Mangueira

Mangueira

Passei a adolescência cercada de mangueiras (Mangifera indica): em Araraquara, há pés de manga crescendo em tudo o que é praça, quintal, parque público, terreno baldio ou naco de terra à toa. Elas ignoram a falta de nutrientes, sobrevivem ao sol forte, superam as constantes secas, perfuram a terra pedregosa e até racham o asfalto, se incomodadas por uma rua ou calçada, tudo para garantir seus frutos doces, carnudos e perfumados.

Por isso, estranha que nunca tivesse olhado suas minúsculas flores de perto — fui fazer isso numa recente viagem ao Maranhão, depois de ver mangueiras pra todo lado. Devem ser doces as florezinhas que darão em mangas, porque tive de lutar com as abelhas para conseguir fotografá-las assim, em close.

Flor do dia: Alamanda

Alamanda

As alamandas (Allamanda cathartica) do quintal da minha avó viviam sendo espezinhadas pela minha crueldade infantil: eu e minha irmã arrancávamos suas flores, rasgávamos pétala por pétala e as colocávamos sobre uma mão fechada como se fosse um copinho. Ao se dar um tapa com a outra mão, a pétala se partia fazendo um sonoro “plóft”.

Lembro disso com um misto de vergonha e pena — não só do sofrimento da planta mas também por nunca ter sido repreendida. Não houve um só adulto que nos alertasse quanto à natureza delicada daqueles seres vivos que, embora não gemessem ou fugissem às nossas mãozinhas, sentiam decerto algum tipo de dor ou desconforto por ter suas partes arrancadas tão inutilmente. O mais curioso é saber, hoje, que aquela brincadeira ainda encerrava um perigo à nossa segurança, uma vez que a alamanda é tóxica.

Se ensinarmos nossas crianças a respeitarem as plantas, as florestas não terão o que temer.

Flor do dia: Bromélia

Pticairnia flammea

Pensando cá com meus botões, pode ser uma boa trocar a coleção de orquídeas pela de bromélias. As duas famílias têm plantas de duração quase infinita, que florescem todo ano e têm cores e formas bem diferentes entre si. A vantagem é que, enquanto as orquidaceas existem em mais de 35 mil espécies, há somente 1400 das bromeliaceas, facilitando a vida de quem quer, digamos, ter todas numa única existência na Terra.

Diz a plaquinha de identificação do Jardim Botânico de São Paulo que a bromélia da foto acima é uma Pitcairnia flammea, mas as fotos que atendem a esse nome na internet mostram uma planta bem diferente da que tem as alegres bolinhas vermelhas acima. Algum taxonomista na área?

Na direção certa*

Ex-pintor de paredes, maranhense supera pobreza e isolamento e se consagra como artista plástico ao expor, em São Paulo, suas telas hiper-realistas de carros antigos

Muntz Jet
Assista ao vídeo do Ribinha aqui.

O veículo amarelo acima é um Muntz Jet, carro norteamericano da década de 50 que só teve 400 unidades montadas, transformando-se rapidamente em um artigo de colecionador. O registro, no entanto, não é uma foto e sim uma pintura a óleo, produzida sem nenhum instrumento especial que não sejam tintas e pinceis. Com 1,00 m x 0,80 m, a tela foi feita por Ribinha, um pintor de paredes de 34 anos às vésperas de viver uma surpreendente revolução pessoal.

Até dois anos atrás, um turista que visitasse Barreirinhas, cidade de 50 mil habitantes aos pés dos Lençóis Maranhenses, encontraria José de Ribamar Costa Oliveira no alto de uma escada — desenhando o letreiro de uma loja, renovando a pintura de uma casa ou, mais provavelmente, fazendo pequenos reparos nas pousadas da região. “Trabalho nunca me faltou”, agradece Ribinha em sua fala mansa e português impecável, resultado dos esforços da mãe em fazer com que os nove filhos fossem à escola.

O talento despontou na infância, mas encontrou uma série de percalços para prosperar. O pai, pedreiro, achava o ensino formal uma perda de tempo. “Não estudei e me criei”, gabava-se seu José Antonio quando a mulher, a lavradora Joana, apresentava algum gasto com material escolar. Sem acesso a lápis e papel, Ribinha desenhava com o dedo no chão de terra batida da cozinha de sua casa. Cobiçadas como artigos de luxo, as folhas dos cadernos escolares só eram liberadas ao fim do ano — e se já não tivessem sido usadas nas tarefas escolares.

Não bastasse a falta de matéria-prima, a cidade malemá tem uma biblioteca. A conexão à internet, quando existe, é cara e tem sinal intermitente. Para visitar o museu mais próximo, em São Luís, a 272 km de distância, é preciso enfrentar uma viagem de mais de quase 5 horas por uma estrada mal iluminada e sem conservação. Por tudo isso, não espanta que, até chegar aos 30 anos, Ribinha mal viu um livro de artes plásticas que fosse.

“Tenho dois filhos, e a menina, de 9 anos, gosta de desenhar. Se ela me perguntasse o que penso sobre ser artista plástico, eu lhe diria: ‘Estuda outras coisas e só vem pra cá se não puder mais agüentar’. Não pela arte em si, mas pelas dificuldades que a gente enfrenta.”

E não foram poucas. Sua família só não passou fome porque os rebentos trabalhavam desde moleques. Quando não havia o que comer, a vizinhança intervinha. “Por aqui, vizinho é amigo. A gente não come nem passa um dia sem visitá-lo. O que ele não tem, a gente dá. É quase um hábito.” Mulher de pescador, por exemplo, sempre lembra de mandar peixe para os outros moradores da rua. “É por isso que uma família consegue viver aqui com um salário mínimo. É apertado, mas dá pra viver.”

Mesmo tantos obstáculos, no entanto, não conseguiram mantê-lo longe de sua vocação. Anos atrás, um turista passou dias perguntando na cidade de quem eram as ilustrações que volta e meia via no comércio local. O visitante era Philippe Lhuillier, artista plástico hiper-realista, nascido na França e radicado no Brasil. “Parte da evolução que tive para chegar até aqui tem muita influência dele”, admite Ribinha. Foi com o francês que ele aprendeu a dar atenção a reflexos e texturas, detalhes que hoje fazem seus carros parecerem tridimensionais, de tão realistas.

Se Lhuillier foi fundamental para que Ribinha aprendesse sua técnica, sem Sérgio Dória ele jamais teria abandonado os baldes de látex de parede ou a natureza morta como tema. Dono do resort Porto Preguiças, o empresário notou que “o rapaz da manutenção” levava jeito pro desenho. Pediu que Ribinha fizesse uns barcos a vela para enfeitar uma parede de tijolinhos, perto do restaurante da pousada. Ele fez. Encomendou o desenho de um jipe para decorar o salão de jogos. Em poucos dias estava pronto. Fã de carros antigos, Sérgio então comprou um livro cheio de Hudsons e Bel Airs, montou um pequeno estúdio para Ribinha trabalhar e ofereceu ao rapaz telas, tintas e uma providencial ajuda de custo.

Quando as primeiras obras ficaram prontas, os colegas começaram a comentar. Em julho, um Cadillac Eldorado branco começou a surgir na salinha dos fundos da pousada, com nuvens refletidas em seu impressionante parachoque cromado. Sem saber que conversava com o autor da tela, um hóspede insistiu que a imagem era uma impressão feita em gráfica. “Você não sabe do que a tecnologia é capaz…”, disse ao artista, que ficou envaidecido. “Foi o elogio mais estranho que já recebi”, diverte-se.
Em quase dois anos dedicando de cinco a seis horas à arte, 17 telas a óleo ficaram prontas, revelando uma familiaridade cada vez maior do pintor com o trabalho realista. “Capricho para deixar nítidos os faróis, os cromados e os reflexos na lataria”, comenta ele, que ironicamente enfrenta de bicicleta os 2 km que separam sua casa da pousada.

“Gostaria de ter um carro para passear, levar a família aos banhos aqui da região, Lagoa Azul, Pé do Morro, Atins”, diz, referindo-se aos pontos turísticos da redondeza. Antes que 2011 acabe, é possível que Ribinha realize seu sonho. Com uma exposição marcada para começar em 24 de novembro no restaurante Barão da Itararé, em São Paulo, mesmo sem preço ainda definido, algumas de suas telas já têm interessados. A ocasião da vernissage representará outras estréias na vida do barreirinhense: será a primeira vez que Ribinha sairá do Maranhão, viajará de avião, entrará num museu ou numa livraria.

Nenhuma dessas novidades parece mexer com sua vaidade: “Eu preciso do mínimo para viver. Se pudesse, faria uma casa na beira de um riacho, numa cidade ainda menor do que Barreirinhas, e montava meu cavalete ali…”.

*Versão original da matéria publicada esta semana na Carta Capital. A vernissage da exposição de Ribinha acontecerá no Barão da Itararé, no dia 24/11, a partir das 20h. Se você passar por lá, periga ainda de a gente se conhecer, ói que legal!

O bebê bem-te-vi

bebê bem-te-vi

Ok, pra você pode ser só uma foto ruim de passarinho. Mas eu sei que esse penacho preto com listras brancas tem aquele bicão laranja comprido, rasgado que nem risada de Coringa do Batman, o bico pidão que é o retrato da fome sem fim.

Sim, hoje minha humilde varanda recebeu um bebê bem-te-vi. Numecabo de alegria.

Bug city*

cena do anime Túmulo dos Vagalumes

Procurar cigarra em tronco de árvore, colecionar casulo vazio de borboleta, fazer lanterna de vaga-lumes… só mesmo quem foi criado em pequenas cidades do interior é que ainda sabe o que são esses passatempos. Com a poluição, o uso indiscriminado de agrotóxicos e a cobertura vegetal cada vez mais escassa, encontrar esses insetos na cidade grande se tornou um desafio e tanto.

“Os vagalumes usam suas luzinhas para comunicação entre os sexos. A luz artificial noturna das lâmpadas de rua afeta sua reprodução”, lamenta Vadim Viviani, professor de Bioquímica da Universidade Federal de São Carlos.

Mais sorte que os pirilampos têm as joaninhas, as relações-públicas dos invertebrados: predadoras naturais de pulgões e cochonilhas, suas larvas são fornecidas por algumas faculdades e institutos para controle biológico em lavouras.

*Versão original de matéria publicada na revista Vida Simples de outubro, que já está nas bancas. A primeira parte está aqui, a segunda, aqui, e a terceira, aqui.

Os bons de bico*

Saiba o que oferecer aos maiores habitués de janelas, sacadas, varandas e quintais:

beija-flor
Beija-flor (várias espécies)
Há mais de trezentas espécies de beija-flor, também conhecido por colibri, a maioria delas no Brasil e no Equador, o restante espalhado por todo o continente americano. Pesando de 2 a 6 gramas, é atraído por flores em tons vivos de amarelo e vermelho, como russélia, helicônia, lanterna-japonesa e camarãozinho.

Bem-te-vi (Pitangus sulphuratus)
Com quase 25 centímetros, o maioral das varandas se anuncia com a onomatopeia que lhe rendeu o nome popular. Tem o cardápio mais variado dentre todos os citados aqui: de crustáceos a ovos de outros pássaros, come até mesmo girinos. Se sua cozinha não for tão “francesa”, ele ficará feliz com mamão, banana e pitanga.

cambacica
Cambacica (Coereba flaveola)
Com 11 centímetros da ponta do bico levemente curvo às últimas penas marrons do rabo, a coragem da cambacica é inversamente proporcional a seu tamanho. O martelante “tik” se faz ouvir à distância e anuncia o diminuto comensal, que se alimenta de flores avermelhadas, banana, mamão e jabuticaba.

maritaca
Maritaca (Brotogeris tirica)
Comum na região da Mata Atlântica, sua revoada barulhenta é cada vez mais frequente em praças e parques urbanos. Aprecia sementes em geral, principalmente de açaí, paina e girassol, além de mamão, banana e goiaba. Não estranhe se encontrá-la destruindo o bebedouro dos beija-flores: ela adora néctar.

rolinha
Rolinha (Columbina talpacoti)
Costuma ser o primeiro freguês a frequentar “restaurantes” recém-abertos – e também a recordista em tentar atravessar portas e janelas de vidro. Aparece em bandos, por isso, tenha farta oferta de painço, níger e alpiste (infelizmente, os mesmos alimentos que atraem as pombas comuns…).

Sabiá
Sabiá-laranjeira (Turdus rufiventris)
Nunca um pássaro voou tão alto quanto esse: pela pena do então presidente Fernando Henrique Cardoso, o sabiá-laranjeira ganhou os céus da República como ave símbolo do Brasil. Desde então, exige menu vip, com caroço de dendê como entrada, minhocas de prato principal, e mamão, banana e laranja de sobremesa.

sanhaço
Sanhaço (Thraupis sayaca)
Pássaro valente, logo se acostuma à presença humana e se aventura a janelas mais altas em busca de um cardápio mais variado. Nos fins de tarde durante o verão, pode ser visto caçando aleluias ao redor dos postes de luz, mas não se faz de rogado se encontrar a mesa posta com banana e mamão madurinhos.

*Versão original de matéria publicada na revista Vida Simples de outubro, que já está nas bancas. A primeira parte está aqui, a terceira, aqui, e a quarta, aqui.

PS: Estou devendo fotos do bem-te-vi, posto assim que ele resolver sair do contraluz…

Flor do dia: Azaléia

Azaléia

Ultimamente, tenho acordado praguejando por causa dessa friaca que assola São Paulo, mas é só eu ganhar as ruas e dar de cara com a primeira azaléia (Rhododendron simsii) do quarteirão pro mau humor passar na hora. A cidade está cheia delas, algumas tão abarrotadas de flores que mal dá pra ver as folhas.

Espécie que floresce no inverno, a azaléia pode ser encontrada em grande variedade de cores, do branco ao pink, passando por vários tons de rosa, amarelo e laranja. Originária da China, prefere solo com pH ácido, por isso, se notar que sua azaléia anda meio borocoxô, experimente acrescentar à terra enxofre, um produto encontrado em grandes casas agrícolas. Se preferir uma solução natural, adicione borra de café à terra, revolvendo bem para misturar. Depois, regue em abundância.

Se optar pelo enxofre, faça a diluição seguindo rigorosamente as orientações do fabricante. Antes de tomar qualquer atitude, no entanto, vale avaliar se você quer mesmo mudar a química do solo. Isso porque a maioria das plantas morre em pH ácido – além das azaléias, curtem esse tipo de solo amoreiras, salgueiros e samambaias.

Flor do dia: Aechmea berth

Aechmea berth

Fui a uma feira de orquídeas e, no meio do passeio, descobri que estavam expostas também algumas bromélias. Embora as duas plantas não sejam sequer da mesma família, costumam ser cultivadas junto, uma vez que ambas representam grandes grupos de flores tropicais.

Essa Aechmea berth é uma das belezuras que estava se oferecendo aos paparazzi. As folhas dentadas e estriadas são tão exóticas que tornam a planta atraente mesmo quando não está florida. Para quem acha que o ressecamento da haste floral é o último cravo no caixão de uma bromélia, fica a dica: corte a haste depois que ela secar, o mais rente que puder do “copinho”, o miolo da planta. E continue regando como de praxe (lembra da dica esperta para não atrair o mosquito da dengue, né?). Em poucos meses, brotações laterais surgirão, fazendo com que sua bromélia gere mudas, que vão crescer e produzir uma haste floral cada. Como diria o Rei Leão, é o ciclo sem fim.

Flor do dia: Barkeria scandens

Barkerian scandens

Existe um troço realmente irritante para quem gosta de botar etiquetinha em planta: toda hora mudam o nome das bichinhas. Essa aí da foto, que até ontem era um Epidendrum cyclotellum lindo e feliz, agora precisa ser chamada de Barkeria scandens. Algum taxonomista descobriu que ela tem a pontinha de uma pétala ligeiramente mais viradinha pra esquerda do que outros Epidendrum, ou que tem duas políneas a mais que o resto do gênero ou qualquer outra explicação mais complicada e, voilá, a planta muda de nome.

O lance é que o pessoal da Royal Horticultural Society, a “otoridade” mundial no assunto, adoooora mudar nome de orquídea. Os caras até têm razão: hoje, a tecnologia permite que as plantas sejam agrupadas em gêneros e famílias seguindo semelhanças detectadas por exames de DNA, muito mais do que o fato de uma flor ser apenas fisicamente parecida com outra. Com isso, todo ano uma leva de plantas é reagrupada, alguns botânicos têm ataques histéricos ao descobrirem que alguma espécie famosa e querida migrou de grupo e, claro, gente como eu permanece nas brumas da ignorância tentando descobrir dados de cultivo de uma moça que não usa mais o nome de solteira.

O mais irritante não é você ser a última a saber que elefante africano agora chama australofante africandus, ou que poodle toy foi colocado no mesmo grupo que o labrador. O que realmente me tira do sério é ficar mudando as plaquinhas de identificação e ter de passar branquinho em todas as anotações que eu fiz no diário da planta. Ninguém pensa nas pobres jardineiras com TOC, não? Vou já mandar um comunicado à Royal Horticultural Society, francamente…

O lado de cá do caos

Ronaldo observa a obra que obrigou até a Mimosa a mudar de endereço

Meu sumiço do blog atende pelo nome de reforma. Quando comecei a quebrar a varanda, em fevereiro deste ano, mal imaginava que o prazo de “15 dias” dado pelo pedreiro seria a maior furada, que a obra teria de ser refeita três (!) vezes e que, ao fim do tormento, se revelaria totalmente desnecessária.

Preparei as plantas para passar uns 20 dias num quartinho mal iluminado, mas os sucessivos adiamentos no prazo da obra foram ceifando alguns de meus mais queridos vasos. Ao cabo do processo, eu estava mais pobre e mais infeliz. Vontade nenhuma de blogar, sabe? Aliás, a única vontade que tive foi de apagar o laranjinha, doar as plantas que sobraram e tirar férias em Marte, que eu não gosto de passar frio.

Depois que a reforma acabou, amarguei ainda umas boas semanas no desgosto de ir fazendo cruzinhas na frente da lista de plantas que foram pro céu. Perdi o Oncidium equitante, a Doritis pulcherrima, o Cimbidium lancifolium, o perfumadíssimo Epidendrum amblostomoides, a Brassocattleya binosa “Wabash Valley”,
aquele Dendrobium laranjinha que era quase o mascote do blog e outras 44 plantas.

Mas ontem, quando reparei que a Mimosa está com brotos e o tronco carregado de flores, achei que estava mais que na hora de parar de chororô e vir aqui dar um alô.

Flor do dia: Bulbophyllum medusae

Bulbophyllum medusae

Uma infiltração no apartamento debaixo vai exigir uma grande reforma na minha varanda. A frase já seria desanimadora por combinar “infiltração” com “reforma”, mas você nem imagina o tamanho da encrenca que ela representa de verdade. Ou você tem alguma ideia de onde colocar 148 vasos de orquídea mais uns 15 de outras plantas, incluindo dois bitelos com uma jabuticabeira e uma pitangueira?

Munida de um sábado ensolarado, alguma vocação pra santa e muita ajuda da amiga Chris, tirei todas as plantas da varanda e fui amontoando-as, de forma mais ou menos organizada, em cima do rack da TV, na mesa da cozinha, no aparador do quartinho, no chão, na janela da cozinha. Quando eu achava que o estrago não podia ser pior, veio a descoberta derradeira: no transporte, eu quebrei a haste do Bulbophyllum medusae (lê-se “bulbófilum meduse”).

Pausa dramática.

Eu tinha comprado essa planta dois anos atrás. Era uma muda, o que significa que demoraria para dar flor. E se trata de uma das orquídeas mais cobiçadas que existem dada a aparência exótica de suas flores, uma Medusa perfeita. Um dia antes eu tinha descoberto o botão já arrebentando e o cabelinho da flor todo amassado lá dentro, pronto pra esvoaçar cá pra fora.

Pausa pra secar uma lagriminha.

Aí que, só pra eu me animar, resolvi postar a foto do botão pixaim com uma imagem que fica de inspiração pós-reforma.

Flor do dia: Maxillaria schunkeana

Maxillaria schunkeana

Lembro vagamente de uma banda chamada Orquídeas Negras e sempre me perguntei se era possível existir uma flor com essa coloração. Pois bem, décadas depois, cá está a Maxillaria schunkeana, prova cabal de que, sim, existem orquídeas pretas. Quer dizer, tão preta quanto uma pantera consegue ser, tá ligado? Porque nem mesmo a onça cor da noite é assim, totalmente preta: se você tiver colhões pra ver de perto a bicha, vai reparar que o preto dela tem magenta na composição e, especialmente sob o sol, fica avermelhado. Sem muito esforço dá também pra ver que a pantera tem pintas por todo o corpo, igualquenem a prima onça-pintada.

A Maxillaria schunkeana aí da foto não chega a ter pintas, mas, olhando beeeeeem de perto (ela é do tamanho da unha de um dedão) você repara que o tal preto é meio desbotado e bem puxado pro castanho avermelhado. O labelo (aquela pétala diferente que atrai os polinizadores), esse sim, é cem por cento preto retinto, e ainda tem uma capinha de verniz, para deixá-lo ainda mais fashion pras abelhas, mosquitinhos ou o que quer que polinize uma Maxillaria.

Se você curte música suave ou orquídeas grandes, essa orquídea negra definitivamente não é sua praia. Mas eu, que adoro uma plantinha excêntrica, acho um mimo e fico na maior alegria cada vez que ela dá flor!

Flor do dia: Paphiopedilum “Esmerald Isle Type”

Paphiopedilum Esmerald Isle Type

Nem um ovo de Páscoa da Kopenhagen teria me deixado tão feliz quando acordar e descobrir, quase por acaso, que o Paphiopedilum “Esmerald Isle Type” deu flor!!! Logo ele, que estava dormindo um sono pesado desde fevereiro do ano passado… Logo ele, que me foi vendido como “provavelmente a planta mais chata que você já teve”. Logo ele, que estava espremido entre dois vasos de um jeito tão contorcionista que quase a flor passa batido.

Logo ele!

O dermorquidário da Neuza

orchids tattoo

“Olá, Carol,

Como prometi, estou te enviando fotos do meu ‘dermorquidário’. Quase ferrei com meu Cymbidium, fui na hidro e ainda tinha uma casquinha. Eu queria me exibir, né?

Pode usar as fotos se quiser. Falo pra todo mundo que me pergunta: nas costas eu tenho uma Laelia e no ombro um Cymbidium. Entendendo muito, rsrsrs. Tenho me esforçado. E é uma delícia!

Dá para ver como orquídea virou paixão à flor da pele?

Beijinho,

Neuza Lima”

Dá pra sobreviver a um e-mail fofo desses, minha gente? Eu e a Neuza não nos conhecemos pessoalmente, ela foi se achegando por aqui creio que por causa das orquídeas e, quando se deu conta, já estava comprando flor pela internet e tatuando o corpo.

Neuza, boa sorte com seu dermorquidário!

Flor do dia: Miltonia spectabilis

Miltonia spectabilis var. moreliana

Engana-se quem acredita que a gente para de perder plantas queridas depois de fazer um curso de orquídeas. Voltei pra sala de aula para que minhas orquídeas vivessem melhor, mas nem por isso parei com meus assassinatos. Deve ser uma coisa meio Dexter.

Essa Miltonia spectabilis, por exemplo, viveu bela e formosa por aqui até eu instalar um sistema de irrigação para dar conta da rega dos meus 148 vasos de orquídeas. Foram dois finais de semana para instalar o troço todo, com cabinhos plásticos terminando em pequenos gotejadores posicionados em cada vaso, trabalho executado com delicadeza e sabidez pelo pessoal da Agrigotas, aqui de São Paulo.

Contece que esse sistema não foi pensado para orquídeas, veja bem. Gotinhas pingando num vaso com terra têm muito mais penetraçnao do que água gotejando num vaso com substrato, aquela misturinha de casca de pínus, fibra de coco, carvão e outras coisas que se usa para cultivar boa parte das orquídeas. Aí que a água não se distribuía direito pelo vaso, me obrigando a fazer uma série de ajustes de substrato e tempo de irrigação até chegar no modelo que venho usando há seis meses com sucesso.

Quer dizer, “sucesso” numas. Perdi duas plantas de lá pra cá, número que considero quase ínfimo perto de tantas que eu tenho. Uma delas nem boto na conta da irrigação porque era uma Miltonia que vinha minguando há dois anos, sobrevivente de um possível ataque de bactérias. Mas essa Miltonia spectabilis aí da foto foi uma perda dolorosa, principalmente dada a lerdeza do meu raciocínio. Levei dois meses para me tocar que as hastes que ela vinha abortando tinham tudo a ver com o excesso de água! E, claro, quando a ficha caiu, a planta já tinha ido pro brejo.

Fica a foto da última florada dela, exatamente nessa mesma época do ano passado, como uma homenagem e um lembrete de que o aprendizado continua. Agora licença que eu vou lá dar uma choradinha.

Flor do dia: Oncidium “Sharry Baby Sweet Fragance”

Oncidium Sharry Baby Sweet Fragance

Quando comecei a me interessar por orquídeas, descobri fascinada que havia uma espécie com cheiro de chocolate. Aquilo me surpreendeu duplamente: primeiro, até então, eu imaginava que orquídeas eram aquelas flores grandes e repolhudas sem cheiro nenhum. Segundo porque me parecia uma coisa meio bizarra que algo tivesse naturalmente cheiro de chocolate sem ser… hmmm, digamos, um cacaueiro.

Como todo bom bebedor de vinho sabe, os cheiros não têm nada que ver com quem o produz. Um vinho pode ter aroma de cerejas sem ter sequer passado perto de uma plantação de cerejas, assim como é capaz de exalar cheiros menos agradáveis, como couro ou estrume, por exemplo. Isso acontece porque ele forma as mesmas moléculas químicas que dão o cheiro de cerejas ou estrume às coisas.

Depois dessa explicação rasa de química, dá para ter uma ideia de como uma orquídea é capaz de exalar odores igualmente surpreendentes: há espécies que cheiram a melão (Maxillaria madida e Lycaste dowiana), uva (Spathoglottis plicata), mel (Oncidium pumilum), coco (Maxillaria tenuifolia). E, como não poderia deixar de ser, há também a turma do Cascão: quase todos os Bulbophyllum recendem a carniça e o Oncidium ornithorrynchum parece um misto de remédio com peixe estragado (o meu está com botões, ai, ai…).

Com tantos odores, agora você nem vai estranhar que haja uma orquídea com cheiro de chocolate, vai? Uma, não, várias, mas a mais famosa e fácil de encontrar certamente é o Oncidium “Sharry Baby Sweet Fragance”, que dá longas hastes com pequenas flores castanhas e cor de creme. Trata-se de um híbrido criado pelo homem, uma planta resistente, barata e que floresce até duas vezes por ano. A minha é católica e dá flor sempre em março ou abril, mas nunca de forma tão abundante quanto neste ano: tem quatro hastes carregadas (só aparece uma na foto porque minha varanda é estreita e todas as tentativas de englobar as quatro hastes resultaram em fotos desfocadas…)!

Pelo jeito, ela gostou de ganhar vizinhos: está em um vaso coletivo, entre um animado Oncidium lanceanum e uma Brassolaeliocattleya silenciosa, que em três anos ainda não deu flor. Quem sabe vendo a vizinhança em festa ela pegue o jeito, né?