Ex-pintor de paredes, maranhense supera pobreza e isolamento e se consagra como artista plástico ao expor, em São Paulo, suas telas hiper-realistas de carros antigos

Assista ao vídeo do Ribinha aqui.
O veículo amarelo acima é um Muntz Jet, carro norteamericano da década de 50 que só teve 400 unidades montadas, transformando-se rapidamente em um artigo de colecionador. O registro, no entanto, não é uma foto e sim uma pintura a óleo, produzida sem nenhum instrumento especial que não sejam tintas e pinceis. Com 1,00 m x 0,80 m, a tela foi feita por Ribinha, um pintor de paredes de 34 anos às vésperas de viver uma surpreendente revolução pessoal.
Até dois anos atrás, um turista que visitasse Barreirinhas, cidade de 50 mil habitantes aos pés dos Lençóis Maranhenses, encontraria José de Ribamar Costa Oliveira no alto de uma escada — desenhando o letreiro de uma loja, renovando a pintura de uma casa ou, mais provavelmente, fazendo pequenos reparos nas pousadas da região. “Trabalho nunca me faltou”, agradece Ribinha em sua fala mansa e português impecável, resultado dos esforços da mãe em fazer com que os nove filhos fossem à escola.
O talento despontou na infância, mas encontrou uma série de percalços para prosperar. O pai, pedreiro, achava o ensino formal uma perda de tempo. “Não estudei e me criei”, gabava-se seu José Antonio quando a mulher, a lavradora Joana, apresentava algum gasto com material escolar. Sem acesso a lápis e papel, Ribinha desenhava com o dedo no chão de terra batida da cozinha de sua casa. Cobiçadas como artigos de luxo, as folhas dos cadernos escolares só eram liberadas ao fim do ano — e se já não tivessem sido usadas nas tarefas escolares.
Não bastasse a falta de matéria-prima, a cidade malemá tem uma biblioteca. A conexão à internet, quando existe, é cara e tem sinal intermitente. Para visitar o museu mais próximo, em São Luís, a 272 km de distância, é preciso enfrentar uma viagem de mais de quase 5 horas por uma estrada mal iluminada e sem conservação. Por tudo isso, não espanta que, até chegar aos 30 anos, Ribinha mal viu um livro de artes plásticas que fosse.
“Tenho dois filhos, e a menina, de 9 anos, gosta de desenhar. Se ela me perguntasse o que penso sobre ser artista plástico, eu lhe diria: ‘Estuda outras coisas e só vem pra cá se não puder mais agüentar’. Não pela arte em si, mas pelas dificuldades que a gente enfrenta.”
E não foram poucas. Sua família só não passou fome porque os rebentos trabalhavam desde moleques. Quando não havia o que comer, a vizinhança intervinha. “Por aqui, vizinho é amigo. A gente não come nem passa um dia sem visitá-lo. O que ele não tem, a gente dá. É quase um hábito.” Mulher de pescador, por exemplo, sempre lembra de mandar peixe para os outros moradores da rua. “É por isso que uma família consegue viver aqui com um salário mínimo. É apertado, mas dá pra viver.”
Mesmo tantos obstáculos, no entanto, não conseguiram mantê-lo longe de sua vocação. Anos atrás, um turista passou dias perguntando na cidade de quem eram as ilustrações que volta e meia via no comércio local. O visitante era Philippe Lhuillier, artista plástico hiper-realista, nascido na França e radicado no Brasil. “Parte da evolução que tive para chegar até aqui tem muita influência dele”, admite Ribinha. Foi com o francês que ele aprendeu a dar atenção a reflexos e texturas, detalhes que hoje fazem seus carros parecerem tridimensionais, de tão realistas.
Se Lhuillier foi fundamental para que Ribinha aprendesse sua técnica, sem Sérgio Dória ele jamais teria abandonado os baldes de látex de parede ou a natureza morta como tema. Dono do resort Porto Preguiças, o empresário notou que “o rapaz da manutenção” levava jeito pro desenho. Pediu que Ribinha fizesse uns barcos a vela para enfeitar uma parede de tijolinhos, perto do restaurante da pousada. Ele fez. Encomendou o desenho de um jipe para decorar o salão de jogos. Em poucos dias estava pronto. Fã de carros antigos, Sérgio então comprou um livro cheio de Hudsons e Bel Airs, montou um pequeno estúdio para Ribinha trabalhar e ofereceu ao rapaz telas, tintas e uma providencial ajuda de custo.
Quando as primeiras obras ficaram prontas, os colegas começaram a comentar. Em julho, um Cadillac Eldorado branco começou a surgir na salinha dos fundos da pousada, com nuvens refletidas em seu impressionante parachoque cromado. Sem saber que conversava com o autor da tela, um hóspede insistiu que a imagem era uma impressão feita em gráfica. “Você não sabe do que a tecnologia é capaz…”, disse ao artista, que ficou envaidecido. “Foi o elogio mais estranho que já recebi”, diverte-se.
Em quase dois anos dedicando de cinco a seis horas à arte, 17 telas a óleo ficaram prontas, revelando uma familiaridade cada vez maior do pintor com o trabalho realista. “Capricho para deixar nítidos os faróis, os cromados e os reflexos na lataria”, comenta ele, que ironicamente enfrenta de bicicleta os 2 km que separam sua casa da pousada.
“Gostaria de ter um carro para passear, levar a família aos banhos aqui da região, Lagoa Azul, Pé do Morro, Atins”, diz, referindo-se aos pontos turísticos da redondeza. Antes que 2011 acabe, é possível que Ribinha realize seu sonho. Com uma exposição marcada para começar em 24 de novembro no restaurante Barão da Itararé, em São Paulo, mesmo sem preço ainda definido, algumas de suas telas já têm interessados. A ocasião da vernissage representará outras estréias na vida do barreirinhense: será a primeira vez que Ribinha sairá do Maranhão, viajará de avião, entrará num museu ou numa livraria.
Nenhuma dessas novidades parece mexer com sua vaidade: “Eu preciso do mínimo para viver. Se pudesse, faria uma casa na beira de um riacho, numa cidade ainda menor do que Barreirinhas, e montava meu cavalete ali…”.
*Versão original da matéria publicada esta semana na Carta Capital. A vernissage da exposição de Ribinha acontecerá no Barão da Itararé, no dia 24/11, a partir das 20h. Se você passar por lá, periga ainda de a gente se conhecer, ói que legal!