O blog morreu

Tempos atrás, em uma galáxia não muito distante, o termo “redes sociais” não existia. Havia, no máximo, um troço chamado Orkut. E tinham também os blogs, inicialmente chamados de diários virtuais. Aos poucos, eles foram adotados também pelos que acreditavam ser escritores. Disso, surgiu um pessoal que ficou conhecido como “blogueiro”.

Tinha blogueiro de tudo quanto era tipo. De Luis Fernando Veríssimos em potencial a maluquinhos que se achavam clones de Diogo Mainardi com Arnaldo Jabor. Era uma festa. Em pouco tempo, a opinião desse povo rendeu discussões nas caixas de comentários. Conhecidos também como posts, muitos textos eram compartilhados internet afora pelos Orkuts e MSNs. Alguns, pela qualidade do conteúdo. Outros, por despertarem sentimentos de amor e ódio, que nem final de campeonato. Às vezes, as duas coisas caminhavam juntas.

Mas tudo, exceto a Coca-Cola, deixa de existir. No caso dos blogueiros aconteceram três coisas tão impactantes quanto o asteróide que exterminou os dinossauros.

Primeiro, começaram a trabalhar. Muitos deles a partir da reputação obtida com o seu próprio blog. Xi, ferrou, não tem mais tempo pra publicar coisa nova.

Segundo, as pessoas cresceram. Nesse processo de amadurecimento, outras prioridades tomaram o lugar do blog. Casamento, filhos, pós-gradução, essas coisas. E cadê aquele pensamento pro coitado do blog? Já era.

Terceiro, como um golpe de misericórdia, veio o Twitter, inaugurando a era das tais redes sociais que tanto falam hoje em dia por aí. Perceberam que 140 caracteres bem escritos em segundos poderiam gerar muito mais atenção e repercussão do que parágrafos criados e revisados em minutos ou horas. Isso tirou da blogosfera aqueles que, no fundo, queriam apenas atenção, sem aspirações literárias. Ou seja, uns 95% do pessoal.

Depois, atropelando tudo de vez, Twitter aí incluso, veio o Facebook com seus botões de curtir e compartilhar pra aditivar ainda mais os egos em busca de atenção. Blog pra quê?, disse o dono da fan page de sucesso, cheia de imagens engraçadinhas.

Blogs já eram. O que restou no lugar deles foram sites em formato de blog, muito bem estruturados comercialmente. E no outro extremo, ilhas distantes uma das outras, mantidas por quem sempre esteve nessa pelo simples prazer de escrever. São mais redatores do que blogueiros. Se não existisse internet estariam deixando suas impressões em um caderno ou no Word.

Blogueiro é algo que já está no museu da internet, no mesmo espaço do ICQ e do Orkut. E a razão disso é simples, como já deixei claro no título desse texto: o blog morreu. E já faz tempo, hein?

A turma do elevador

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Quando estamos em grupo parece que existe um muro ao redor de nós. No elevador do prédio onde trabalho isso fica bem claro. Sabe quando entram umas cinco pessoas do mesmo escritório, com aquelas conversas animadas que somente elas entendem? Pois é. E você ali, quase grudado no povo, sentindo-se um estrangeiro, do outro lado do muro.

E quanto maior a animação, maior o constrangimento de quem está de figurante ali. Não condeno, pois já estive muitas vezes pra dentro do muro animado também. Sempre prestei atenção naquela pessoa ali ao lado, com cara de “chega logo, térreo, chega!”. Eu fico assim, ansioso pra cair fora, quando além da animação resolvem compartilhar coisas de deixar beata escandalizada.

Lembro da vez em que um grupo de moças resolveu falar da balada da noite anterior. Em menos de um minuto, do térreo ao décimo andar, fiquei sabendo que uma delas teve uma recaída, indo pro motel com o ex. E as outras empolgadíssimas, pedindo pra ela contar mais detalhes. Eu simplesmente não existia ali. Até cheguei a desconfiar se eu não tinha virado um espírito, desses não que perceberam a própria morte e ficam vagando por aí. Mas eu estava vivo, pois o meu chefe me lembrou minutos depois que era dia de entrega de relatório.

E tem também o povo que faz do elevador um puxadinho da sala de reuniões. Soltam informações que, se gravadas, poderiam render um belo material pra concorrência. Com o tempo, você fica acompanhando boa parte de uma negociação. Depois de uns dias, dá até vontade de perguntar se fecharam ou não aquele negócio.

Conheço gente que faz questão de não entrar no elevador ao perceber um papo muito animado ali. Preferem atrasar um pouquinho a passar alguns segundos de constrangimento. Não cheguei ainda nesse estágio. Afinal, vai que um dia eu ouço que precisam de alguém exatamente com o meu perfil, pagando 5 vezes mais o que recebo atualmente? Enquanto isso, vou aguentando heroicamente as últimas fofocas da Jandirene sobre o povo da contabilidade. “Nossa, vocês não têm ideia do que o Freitas aprontou hoje…” Isso aí, boiando do térreo ao décimo andar.

O caixa antipático

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Naquela padaria, a pior parte é na hora do pagamento. O homem do caixa, sempre com cara de bravo, sorriso zero, fala “próximo!” naquele tom de oficial nazista que está selecionando prisioneiros pra câmara de gás. Ele não espera o cliente entregar o dinheiro. Prefere puxar a nota subitamente, com energia. Arranca mesmo. Na mesma velocidade e firmeza de gestos, ele devolve o troco como se estivesse devolvendo uma ofensa. Toma!

“PRÓXIMO!!!”

“De nada!!!”, eu disse ao perceber que, mais uma vez, não sairia um simples “obrigado” dali. O cara olhou pra mim surpreso, interrompendo por alguns segundos aquele ar de homem máquina. Deve ter estranhado. “Como assim? Mais essa agora. Cliente sensível que valoriza atendimento cordial… Aiai…” E ficou por isso mesmo, vida que segue na manhã.

Apesar de não ter um comércio, acredito que a cordialidade deve ser uma peça fundamental em todo e qualquer negócio que tenha atendimento direto ao consumidor. Deu dinheiro na mão do caixa, passou o cartão na maquininha? Obrigado. Nem precisa dizer “volte sempre”, forçar um sorriso exagerado, essas coisas. Um olhar convincente pode funcionar bem. Basta se mostrar agradecido pelo fato do cliente ter escolhido o seu ganha pão pra comer o pão dele. Simples. Pois é, trata-se de um detalhezinho que, uma vez ausente, incomoda.

Existem os clientes que não dão bola alguma pra esse tipo de coisa. Deram o troco certo? A maquininha do cartão funcionou? O que vier é lucro. O caixa foi meio grosso? Não agradeceu? “Ih, rapaz… nem reparei. Deixa pra lá.” Indo um pouco além, é bem capaz que existam até os masoquistas que fazem questão de um mau atendimento:

- Não volto mais nessa padaria maldita! O pior atendimento que já vi na minha vida. Que nojo!
- Como assim? Comigo pelo menos foram extremamente simpáticos e atenciosos. Do balcão ao caixa, todos de uma cordialidade natural.
- É esse o problema. Eu gosto de locais que provoquem aquela tensão do mau atendimento, sabe? Atendente de cara feia pra anotar os pedidos, funcionários brigando direto entre eles, caixa devolvendo troco errado e sempre dando aquele suspiro profundo de desprezo e intolerância por todo e qualquer cliente… Isso sim que é vida, meu amigo! Nada a ver com esse… mundo fofinho da fantasia que encontramos aqui!
- Então tá, né? E o almoço, onde você sugere?
- Tem um lugar ótimo, aqui pertinho mesmo. Atendimento exemplar. Lá, perdi o número das vezes que eu vi o caixa sair na porrada com os clientes. Uma maravilha!!!

Uma vez que faço parte da ala dos clientes dodóis, por qual razão eu continuo insistindo na média com pão na chapa daquela padaria? Não seria mais simples demonstrar o meu repúdio de macho sensível não indo mais lá? De modo algum. Na minha opinião, eles fazem a melhor média da região. Leite e café na medida certa, tendo a espuminha por cima como a cereja do bolo. E o que dizer também do rapaz que me atende dizendo “o de sempre?” com uma simpatia fora do comum?

Outro lugar? Complicado, hein?

Antifresco’s

A comida está uma delícia, todos fechando os olhos a cada garfada, mastigando com um sorriso quase indecente. Eis que alguém, normalmente quem fez o prato, solta a célebre observação das salas de jantar:

- Amanhã vai ficar mais gostoso ainda, pois o tempero pegará melhor.

De fato, isso é comprovado pelos felizardos que reencontraram o mesmo prato no almoço do dia seguinte. O requentadão não costuma falhar. Sorte daqueles que conseguem repetir a mesma leva de uma panela muitas horas depois. Azar dos que dependem sempre das refeições de restaurantes e refeitórios, onde a sobra, pelo que sei, nunca fica pro dia seguinte. Comida fresca no almoço e na janta, sem chance pra conferir o auge do tempero adicionado no dia anterior. Muito triste isso.

Proponho então a criação de um restaurante justamente pro público refém da comida fresca. Nele, todos os pratos seriam preparados 24 horas antes, tudo de acordo com os melhores padrões de higiene. Estragar jamais. Um dia e nada mais. A comida sempre no, digamos assim, clímax do sabor.

- Olá, bem-vindo ao Antifresco’s. O de sempre?
- Não. O tutu de ontem fica pra uma próxima. Eu gostaria de variar um pouco. O que vocês sugerem pra hoje o que foi de ontem?
- Temos uma canjinha bem especial, como se a vovó tivesse feito na noite anterior.
- Me interessei. Pode ser. Ela não está fresquinha, certo?
- De modo algum. Requentadíssima, genuinamente de ontem.
- Ok então!
- Acompanha pão amanhecido?

Bem, sei que nem tudo fica uma delícia horas depois de preparado. No Antifresco’s, rezaria a lei do bom senso pro paladar. Comida pós 24 horas, apenas as que funcionam mesmo. Feijoada, por exemplo. Agora, tudo que fica murcho, sem chance. Endurecido, menos chance ainda. Ou vai me dizer que você gosta daquela tira de picanha esquecida na churrasqueira, durinha e pretinha? Eu, hein?

Meu orgulho e os dois e cinquenta

Respeito a minha fome nos finais de tarde. Por isso, resolvi comprar aquele pacotinho de Doritos na máquina da rodoviária. Umas três moedinhas me separavam dele, estufadinho e encostadão no espaço de número 11 da máquina. Simples. Duas moedas de um real e outra de cinquenta centavos, saldo computado, 1 e 1 apertado no teclado e vem pra mim, pacotinho, vem. O Doritos avançou alguns centímetros, mas, como se estivesse com medo de cair, empacou. Refugou que nem cavalo de competição olímpica que amarela diante do obstáculo. E ficou por isso mesmo. Dois e cinquenta de prejuízo, paciência, vida que segue, certo?

Errado.

Aquela desfeita com a minha fome e bolso não poderia ficar impune.  A máquina de salgadinhos estava na sala de espera da empresa de ônibus. Logo, algum funcionário ali deveria me dar satisfações. Acenei pra uma moça uniformizada no azul calcinha padrão da companhia. Com o incômodo extra de estar bem perto do horário de embarque, não consegui falar em um tom indignado, pois percebi que a mulher estava grávida. Deve ser estratégia da empresa pra colocá-la ali. Quem consegue se exaltar com grávida? Ok, eu sei, muita gente. Bem, eu não. No meu mundo ideal, ela pegaria uma chavezinha do bolso, abriria a máquina e sob, aplausos da plateia, me entregaria o pacotinho de Doritos. E eu exclamaria um “UAU!!!” meio abobado, digno de usuário de facas Ginsu.

Claro que não foi assim.

Ela disse que eu deveria ir até a plataforma 16 de embarque e relatar o ocorrido pro responsável ali. Ok, mas e aí? Terei de volta o meu dinheiro? Vai demorar quanto tempo? “Olha, não sei como funciona o processo exatamente… “, disse a moça, na paciência das grávidas que estão na metade da gestação. Quase cinco minutos pro embarque, valeria a pena todo esse trabalho pra resgatar os dois e cinquenta? Deixa pra lá, né? Claro que não. Justiça pro meu bolso e estômago, ora essa.

Na plataforma 16, como o responsável não estava grávido, já fui no papo reto:

- Seguinte, a máquina de salgadinhos lá da sala de embarque roubou dois e cinquenta meu. O meu ônibus sai daqui a pouco. Como faço pra ter essa grana de volta em 5 minutos?

Recado entendido, ele pediu pra que um rapaz me levasse até o andar de cima, onde ficava o escritório da empresa. Mas e o meu ônibus? “A gente segura por aqui, se for preciso.”, disse o cara que não estava grávido. Tudo bem. Mas, pôxa vida, tudo isso por causa de um pacotinho de Doritos, dois e cinquenta? Me imaginei entrando no ônibus sob vaias dos passageiros, indignados por eu ser o culpado pelo atraso de três horas. Decidi assumir o risco e lá fui eu escada acima, pro primeiro andar. Felizmente, o escritório era pertinho. E mais felizmente ainda, uns dois minutos depois, o rapaz voltou com os meus dois e cinquenta.

Só isso?

Nada de preencher um formulário por meia hora justificando o meu pedido? Nada do coordenador entrar com um pedido junto ao subgerente que, por sua vez, acionaria o gerente regional para averiguar a viabilidade ou não de depositar os meus dois reais e cinquenta centavos na minha conta corrente em cinco dias úteis? Nada disso. Simples assim, ainda bem.

E embarquei no horário certo, com o estômago pensando no Doritos que tinha medo de altura e o bolso orgulhoso pelo não desfalque. Uma mixaria, de fato. Mas me conheço: não conseguiria deixar isso quieto de modo algum. Sem a restituição, eu provavelmente teria pesadelos com aquela máquina cínica, que gargalharia a cada moeda roubada de mim. Gargalhadas de assombrar, dessas de vilão, sabe?

Pois é, mais uma pequena grande bobagem do cotidiano. Gosto disso, fazer o quê?

Eu te amo, ok?

Pronto. A cena perfeita. Os dois estavam em um restaurante, numa mesa à luz de velas. Mais sugestivo do que aquilo, impossível. E a conversa ia muito bem, sintonia perfeita. Para completar o pacote de vez, só faltava um detalhe: a declaração. Assim, ele respirou fundo e mandou ver:

- Camila, eu te amo.
- Sei… Me passa o sal?
- Você ouviu o que eu disse?
- Sim, que você me ama. Hum… o sal, por favor?
- E você reage assim? Com essa indiferença?
- Ué, Paulinho. Como você queria que eu reagisse??? – ela se levanta para pegar o frasco de sal, impaciente.
- Ah, sei lá. Que demonstrasse alguma emoção.
- Que emoção, Paulinho? Agora eu sou obrigada a reagir da forma que você quer? Eu, hein?
- Mas, vem cá, quero saber uma coisa: você gostou ou não da minha declaração?
- Hum… Já sei, você queria que eu respondesse com lágrimas nos olhos, toda emocionada: “Ai, Paulinho, eu também te amo!!! Eu sempre te amei!” E, em seguida, que eu me atirasse nos seus braços, né?
- Olha, até que seria bom… Afinal, você é a mulher da minha vida e…
- Aiai, vocês, homens, sempre achando que qualquer declaraçãozinha vai derreter o nosso coração…
- E não derreteu nem um pouquinho o seu?
- Ih, meu filho, pra derreter isso aqui – ela aponta para o próprio decote – é preciso muito mais do que um simples “eu te amo”.
- Mas o meu “eu te amo” vem carregado de um monte de coisas.
- Como o quê, por exemplo? – ela se inclina em direção a ele, evidenciando mais ainda o decote.
- Bem, como… como… pôxa vida, me desconcentrei agora.
- Ih, tá vendo? Te peguei no flagra! Aposto que você se preparou durante dias só pra dizer “eu te amo” pra mim, acertei?
- Na mosca!
- Mas, então, e o resto? É só “eu te amo” e nada mais? Quais são as suas motivações? Como você tem certeza de que pode me fazer feliz? O que você teria que os outros não têm? Porque cargas d’agua eu deveria abrir mão de ficar com outras pessoas? O quê de tão especial você teria para que eu passasse a ignorar o resto dos homens que viessem a se interessar por mim? O quê?
- Eu? Bem… eu… te amo.
- Só isso, Paulinho? É esse o seu argumento??? Me desculpe, mas não me convenceu.
- Pôxa vida… e eu aqui, pensando que estivesse rolando algo entre a gente…
- E, de fato, estava rolando algo entre a gente, Paulinho! Mas, daí, me vem você estragar tudo!
- Eu estraguei? Como?
- Ora essa, com esse “eu te amo” seu. O clichê dos clichês! A declaração mais preguiçosa de quem quer conquistar uma mulher. Que decepção! Eu esperava mais de você, francamente!
- Hum… quer saber? Definitivamente, eu retiro o meu “eu te amo”. Devo ter confundido tudo. É isso.
- Ihhhh, mas vai desistir assim, tão fácil? Eu não era a mulher da sua vida até há pouco?
- Deus me livre de considerar uma pessoa feito você como a mulher da minha vida. Sai fora! “Chuta que é macumba”!
- Espera aí, Paulinho. Você me conquista e já cai fora? Que negócio é esse?
- Ué, desde quando eu conquistei você?
- Desde quando você me disse “eu te amo”, ora essa!
- HEIN???
- Paulinho, Paulinho… Como você é complicado, menino!

Ah, sim. Os dois viveram felizes para sempre.

Soluços de Natal

Espanto, perplexidade. Ninguém imaginaria que ele arrancaria a barba de Papai Noel na frente da criançada, em plena meia noite. Não se importando com a choradeira geral, ao invés de brinquedos, tirou um papel do saco de presentes, de onde começou a ler um manifesto que pregava contra o espírito materialista do Natal. Levou o primeiro soco quando ia citar Marx.

Já no pronto socorro, entre um ponto e outro, teve a certeza que, se tivesse ganho aquele autorama uns vinte anos atrás, a história poderia ter sido outra.

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E no abrir dos presentes:

- Oba! O que eu queria!!! Uma bazuca israelense!!!
- Uau!!! Uma boneca inflável pornô!!! Uhuuuu!!!
- Caramba! Um ornitorrinco albino! Que legal!

Tanto o pai quanto a mãe concordaram que a culpa não era do Papai Noel, coitado. Pedidos feitos, pedido atendidos. Simples. Talvez fosse o caso de controlar um pouco mais o acesso da criançada à internet e TV a cabo. Principalmente na época do Natal.

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Quem apostou contra, teve um Natal mais feliz no bolso. Imaginaram que dessa vez seria diferente. Ele preferiria o presente mesmo, o conteúdo, contrariando aquela rotina que vinha desde os tempos de bebê. Mas para o espanto geral, como sempre, ele ficou maravilhado
com o papel de presente, rejeitando o resto:

- Olha só.. . com celofane âmbar.. . demais! Fantástico!!!

Não havia mais nada a fazer. Se nem a Angelina Jolie como presente o convencia, melhor desistir, pra sempre.

E pela primeira vez, o presente não ficou pro irmão, recém-casado.

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Curiosa e apaixonada. Será que finalmente estava sendo correspondida? No meio da ceia de natal chegou a digitar no celular o número dele. Mas não apertou o botãzinho verde. Decidiu controlar a ansiedade. Calma, mulher! Entre uma garfada e outra, aquilo martelando nas idéias: ele, ele, ele…

Mas afinal, o que acontecera entre os dois, horas antes, ao se despedirem? Ao desejar Feliz Natal, o beijo dele atingiu um canto da boca dela. Lado esquerdo, quase no meio.

Seria um sinal? Um acidente?

Ou simplesmente, um presente de natal?

O Contestador Maluco

Contestador Maluco

A internet está cheia de figuras que vestem a fantasia do Contestador Maluco. Quem? Oi? Trata-se daquela pessoa que faz questão de defender o seu ponto de vista em tudo quanto é caixa de comentários. Odeia novela e acabou de ver alguém no Facebook elogiando o capítulo do dia anterior? Hum… isso não pode ficar assim, decide o Contestador Maluco, com aquela coceirinha nos dedos. Coitado do teclado. E lá vai ele – plec! plec! plec! – na missão de trazer alguma luz à pobre alma corrompida pela novela das oito.

“Sou uma pessoa de opinião”, defende-se, apesar de quase nunca ser convidado a debater.

Tenho dificuldades em reconhecer a importância do Contestador Maluco. Pra mim, na grande maioria das vezes, ele cumpre um papel humorístico. “Não, peraí. Não acredito que esse cara ficou nervosinho por tão pouco. Deve estar brincando, só pode ser. Toda essa revolta só pra dizer que não simpatiza com gente que não dá bom dia em elevador?” Aí, dou risada.

Ainda bem que o Contestador Maluco só é assim na internet. A única qualidade dele é justamente essa, de não levar a fantasia pro mundo off line. Tem gente que cobra coerência do figura, na linha do “quero ver se tem coragem pra ser assim longe do computador!”. Deus me livre! Fico imaginando a tortura que seria com ele na vida real sendo o mesmo do Facebook, Twitter, blogs e outros:

- Parece que vai chover.
- Discordo! – reage o Contestador Maluco.
- Olha as nuvens no horizonte, rapaz! Todas carregadas. O tempo quente e abafado de hoje, essas coisas…
- Parabéns! Eu não sabia que você era especialista em meteorologia.
- Calma, foi só um comentário.
- Olha, é como eu olhar pra alguém espirrando e sugerir que é virose. Ridículo. Seria uma ofensa pros médicos.
- Peraí. Você está me dizendo que ofendi os metereologistas?
- Deixa de ser cínico. Você sabe que ofendeu sim. Pra quê isso?
- O que você tem a ver com a classe dos meteorologista?
- Diretamente, nada. Mas, sinceramente, admiro quem estudou pra se especializar em algo. Acho que você não faz ideia da importância que tem um diploma e…
- Ok, melhor parar o papo por aqui…
- Ei, você está me censurando? É isso? Ditadura? Não posso mais expor a minha opinião? Hein? HEIN??? DITADOR!!!

E você? Concorda também que o Contestador Maluco deve continuar desse jeito apenas na internet? Não? COMO ASSIM???

Sócrates, aquele do autógrafo

socrates

Nunca dei importância para autógrafos. Sempre foi assim, exceto uma vez, em 1989, quando vi o Sócrates pertinho de mim, num posto de estrada. Pensei se valeria a pena interromper o jantar dele por causa de um autógrafo. Chato isso, pensei. Mas não teve jeito, botei na cabeça que eu deveria sair dali com o rabisco do Magrão no papel. Questão de honra.

Vencida a timidez dos primeiros minutos, me aproximei dele, que reagiu de modo bem simpático. Me fez sentir bem, demonstrando que a minha presença ali era muito bem-vinda, longe de ser uma intromissão. Gente fina. Fui embora satisfeito, tendo em mãos o único autógrafo que eu já pedira na vida. Claro que nos dias seguintes mostrei o meu pequeno souvenir pros amigos da vizinhança e do colégio. “O Sócrates? Uau…”

Não tenho ideia aonde foi parar aquele papelzinho. Desconfio que o perdi em questão de poucos dias mesmo. Pode ser também que em uma dessas arrumações de armário – que faço a cada cinco, dez anos – eu não tenha julgado aquilo tão importante assim a ponto de ser guardado. Deixa pra lá.

É essa a lembrança mais forte que tenho do Sócrates. O cara era uma espécie de herói pra garotada, boa parte disso por causa da seleção de 1982. Ele estava no fim da carreira quando o encontrei, jogando pelo Santos, já sem muito brilho no campo. Mas o carisma continuava intacto, o suficiente pra que um moleque avesso a pedido de autógrafos abrisse uma exceção.

Fiquei especialmente chateado com a morte dele, sobretudo por conta desse episódio banal. Imagino a tristeza dos amigos mais próximos, que devem ter uma tonelada de boas memórias, geradas entre goles intermináveis de cerveja e outras biritas.

Descanse em paz, barbudo do autógrafo.

Tableteiro sem Tablet

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Dias atrás, estive em um evento que sorteou vários iPads. Arrisquei a minha sorte em cinco tentativas. Otimista, tive a certeza que eu ganharia em alguma delas. Uma de cinco, razoável. Aquele filminho passou na minha cabeça cinco vezes, sempre com o mesmo roteiro. O meu nome era anunciado, com todos ao redor lamentando num coro de “ahhhh…”, enquanto eu abria caminho pela multidão, soltando um vitorioso “sou eu! sou eu!”. Filme arquivado, os ganhadores devem ter roubado minhas vibrações positivas. Impostores.

Nunca vi dono de iPad meter o pau no trocinho. É que nem Paris, todo mundo que conhece se encanta. Logo, deve ser bom ter um. Melhor ainda se conquistado num sorteio banal. Estou longe de investir perto de dois mil reais na compra de um tablet, por mais bacana que ele seja. Pra mim é grana pra burro.

Parcelar? Fora de cogitação, pois já tem coisas demais marcando presença na fatura mensal do meu cartão de crédito. A passagem da viagem que fiz recentemente pra Europa, por exemplo. Isso sim é fundamental pra mim, parcelável. Quanto aos iPads, Samsung Tabs, Motorola Xooms e outros, não quero lembrar todo mês, durante um ano, que continuo comprando um tablet. Prefiro olhar pro negócio e lembrar que um simples sorteio me deu aquilo.

Sou um aficcionado por aparelhinhos da modernidade. Faço bom uso deles. Esse texto que você está lendo foi integralmente digitado em um smartphone, publicado graças ao 3G que me permitiu acessar o painel de edição deste blog. Adoro fuçar as possibilidades que cada trequinho oferece, sobretudo aquelas que compreendem publicação e leitura. Textos, vídeos, imagens, áudio, tudo vindo da internet. Tudo indo pra internet. Acho isso fascinante, bem mais que joguinhos. É o bom e velho diálogo, sem fios, em uma outra plataforma, conectado.

E fico aqui com a certeza de que seria uma delícia tudo isso em um tablet também. Não se trata de status por ter algo. Bobagem. É questão de dar um passo adiante naquele processo que se iniciou uns 15 anos atrás, quando consegui ter o meu primeiro computador. Lembro de ter achado o máximo aquela nova possibilidade, de conseguir passar meus textos do papel, escritos à caneta, pra documentos do Word, guardado dentro daquela caixa. Ou do disquete. A admiração continua a mesma hoje em dia, só que residindo em um tablet agora.

É isso, acho que mereço ganhar um. Ou então, ter dinheiro sobrando pra isso. Em breve, by tablet.