Buenos Aires

Casa Rosada

Casa Rosada

Buenos Aires é linda. Na primeira vez que pisei em solo porteño, em agosto de 2006, estava em um luto profundo. Achava difícil gostar de alguma coisa. Viajei com o coração na mão e, ao voltar para o Rio, tinha certeza que tinha deixado um pedaço dele lá. Era simplesmente impossível não se apaixonar por um lugar tão bonito e interessante. Não esquecia a cidade. Queria não só retornar para lá, mas passar alguns anos na Argentina, queria viver no país vizinho, queria ser uma carioca em terra estrangeira.

Nunca aconteceu. Só consegui voltar no último carnaval. O tempo não foi gentil com Buenos Aires. Não, não foi o tempo. Foi o último governo que maltratou a capital federal dos hermanos. Uma crise econômica avassala o país e isso está refletido nas ruas sujas da capital, nos inúmeros tapumes de obras inacabadas, nas testas franzidas e preocupadas de seus habitantes. Finalmente me deparei com o tão comentado mau humor argentino, mas acho que ele tem toda a razão de ser. E não, não é regra, ainda é exceção. Apesar de todos os pesares, ainda adoro Buenos Aires. Vale muito a pena visitar os vizinhos.

Aqui está um pequeno roteiro de alguns lugares visitados (e outros que eu quis visitar, mas não consegui) e algumas dicas sobre o câmbio. Ir com dólares é a melhor opção.

RESTAURANTES

Não vale a pena ir nos restaurantes que ficam em frente ao muro do Cemitério da Recoleta, um dos “points” noturnos de Buenos Aires. Fuja daqueles que tem baianos (é sério! baianos!) na porta te convidando para entrar, nos que oferecem caipirinhas de graça, nos que tentam te colocar numa mesa de qualquer jeito. Vale o passeio, mas não vale o jantar. São mais caros e a comida não é tão boa. Vou listar todos os restaurantes que visitamos e gostamos:

- RODI BAR. Fica na Recoleta. Foi uma dica inacreditável de um motorista de táxi (nem todos são antipáticos). Não tinha nenhum turista, só porteños. A comida era ótima e o preço era bem decente. Eles aceitaram dólar. O endereço deles é: Calle Vicente López, 1900, Recoleta. Telefone: 48015230.

- JUANA M. Foi uma dica de um casal de amigos (todos os dois críticos gastronômicos – ela, além de tudo, é chef). A comida tem um preço bom e achei que foi a melhor carne que comi em Buenos Aires. O endereço: Carlos Pellegrini, 1535. Essa rua é o nome da pista da esquerda da avenida Nove de Julho (a do Obelisco). O restaurante pareceu fechado logo que chegamos, mas é porque ele fica no subsolo. É grande, tem música ao vivo e vale mesmo a pena. Eles também aceitaram o pagamento em dólar. O câmbio foi o melhor da cidade. Link: http://www.juanam.com/

- LA BRIGADA. Visitei esse restaurante na primeira vez que fui em Buenos Aires, em 2006. Estava louca para voltar. Não achei a carne a mesma coisa, mas mesmo assim valeu a pena. O serviço é maravilhoso e a comida é boa. É bom ligar para fazer reserva antes. E o restaurante abre às 20h para o jantar. O endereço: Calle Estados Unidos, 465, San Telmo. Link: http://www.parrillalabrigada.com.ar/

- LA CABAÑA. Fica em Puerto Madero. Vale a pena chegar mais cedo e dar um passeio pelo cais, que é repleto de restaurantes. O La Cabaña é careiro, tem uma decoração linda, uma carne muito boa e o serviço também é ótimo. Só o bolso é que dói. O site: http://www.lacabana.com.ar/. O endereço deles é Calle Alicia Moreau de Justo, 380, Puerto Madero.

Tem um bar/pub que não conseguimos visitar e que todo mundo elogia, o NEW BRIGHTON. O link deles:http://www.thenewbrightonsrl.com.ar/inicio.html

Agora, outras dicas sobre a cidade:

1) CÂMBIO – Leve dólares. Se necessário for, faça o mínimo de câmbio no preço oficial (o Banco de La Nacion, que fica aberto 24h nos dois aeroportos, é uma boa pedida) para poder pagar os taxistas. O restante troque em restaurantes e lojas, que aceitam dólares a preços bem melhores. Não troque na rua, porque a circulação de pesos falsos é gigantesca. Muitos lugares também aceitam reais (e a um preço melhor do que o oficial também – costumavam oferecer 3 pesos, o oficial era 2,50).

2) TÁXIS – Muitos motoristas de táxi são rabugentos e detestam dar troco (bem parecidos com os do Brasil). Na verdade, todos os argentinos que eu encontrei odiavam dar troco. Existe a lenda de que quando os taxistas dão troco, é com dinheiro falso, mas eu não vi isso em nenhum momento. Na verdade, não vi nenhum taxista tentar nos enrolar. Alguns foram bastante mal educados, mas não há outro jeito. O preço da corrida é parecido com os do Rio, até um pouco mais barato. E lembre-se: tente dar dinheiro trocado (a melhor forma de trocar dinheiro é no comércio e em restaurantes).

3) CITYTOUR – Fazer um citytour ao chegar na cidade é uma boa alternativa para dar uma olhada geral e escolher o que se quer conhecer com calma, sem um bando de turistas te acompanhando. A primeira vez que fui lá, em 2006, não fiz o citytour e me arrependi. Dessa vez não deixei de fazer o passeio e foi ótimo. A cereja do bolo foi a guia, que também fez câmbio dos dólares a um preço bem melhor do que o oficial. Normalmente o citytour passeia pela Recoleta, Palermo, Centro, a Casa Rosada e La Boca. Dura mais ou menos três horas. Eles param na La Bombonera por alguns minutos. A visita é paga e nem dá tempo de visitar o museu. Se você gosta de futebol, vale a pena retornar depois, com a devida calma, o estádio. Em La Boca também fica o El Caminito (http://pt.wikipedia.org/wiki/Caminito).

4) MALBA – Se puder, visite o Malba, Museu de Arte Latinoamericana de Buenos Aires. Lá é a casa do Abaporu, da Tarsila do Amaral. O museu também é muito bonito. Se você tiver um smartphone da Samsung, compra um ingresso e ganha dois. Estudantes pagam meia. O link do Malba éhttp://www.malba.org.ar/web/home.php

5) MUSEO NACIONAL DE BELLAS ARTES – Outro museu que muita gente elogiou (e eu não consegui ir) foi o Nacional de Belas Artes. A entrada é gratuita e eles estão com uma exposição do Caravaggio. O link:http://www.mnba.org.ar/index.php

6) PARQUES (FLORALIS GENERICA, JARDIM JAPONÊS E EL ROSEDAL) Buenos Aires tem muitos parques e áreas abertas. Algumas são imperdíveis. A escultura Floralis Generica fica na Recoleta, na avenida Libertador. É uma flor feita com o mesmo material de aviões. Ela fica aberta durante o dia e se fecha à noite, quando fica iluminada (http://pt.wikipedia.org/wiki/Floralis_Generica). Outro passeio legal é o Jardim Japonês. É um parque bonito, florido e com lagos repletos de carpas. O link: http://www.jardinjapones.org.ar/. No dia em que visitei estava acontecendo uma palestra sobre mangá e fomos brindados com vários adolescentes vestidos a caráter e um campeonato de karaokê. Outra área aberta – e essa eu não consegui visitar – que dizem que é linda é o El Rosedal, que fica próximo ao Jardim Japonês, em Palermo. É um jardim cheio de rosas. O link: http://www.buenosaires.gob.ar/areas/med_ambiente/parque_3_de_febrero/rosedal/.

7) FEIRA DE SAN TELMO – A feira de San Telmo tem mais de um quilômetro e só acontece aos domingos e feriados. É bom ficar atento, porque como tem muito turista, o número de assaltos aumenta. Ainda assim, vale a pena: são várias coisas interessantes para olhar e comprar. Link: http://www.feriadesantelmo.com/

8) CAFÉ TORTONI – É um café super tradicional, o mais antigo da cidade. Jorge Luis Borges costumava frequentar. O endereço é: Avenida de Mayo, 825. O site deles: http://www.cafetortoni.com.ar/

9) LIVRARIA EL ATENEO – A livraria fica num antigo teatro. É linda e completamente apaixonante para quem adora livros. Tem outras da mesma rede na Calle Florida que não tem nem metade do charme. O endereço é Avenida Santa Fe, 1880. O link: http://www.elateneocentenario.com/.

10) ZOOLOGICO DE LUJAN. O zoo de Lujan fica a 70 km da cidade. Eu fui com guia e transfer e achei uma tremenda roubada. O lugar está muito maltratado. Estava um calor desgraçado, fiquei em pé o dia inteiro e ainda saí com pena dos bichos. Mas o que atrai todo mundo é a mesma coisa: você pode, literalmente, entrar na jaula dos felinos grandes (leões e tigres) e tirar uma foto ao lado do animal, com direito a cafuné em juba de leão. Eu acho que os coitados estão dopados, mas todos os funcionários juram que não. De qualquer modo, é impressionante. O Zoo te oferece fotógrafo a 60 reais. Dizem que as fotos ficam lindas. Eu não sei porque desisti de pegar as minhas na fila, que é um verdadeiro caos e estava lo-ta-da de gente. Link: http://www.zoolujan.com/

11) ZOO DE BUENOS AIRES. Fui no Zoo de Buenos Aires em 2006 e gostei muito. Você não entra na jaula com os bichos, mas o lugar era mais bonito, mais limpo, tinha uma infraestrutura melhor e foi muito mais divertido (e menos cansativo). Link: http://www.zoobuenosaires.com.ar/

12) TANGO. Em 2006 eu não visitei nenhum show de tango e me arrependi. Dessa vez não repeti o erro. Fui no El Viejo Almacen, a primeira casa de tango de Buenos Aires. Contratei o passeio no hotel, o que deu direito a transfer, jantar (razoável) e bebidas durante o show. Link: http://www.viejo-almacen.com.ar/. Existe um outro show que todos falam bem, o Señor Tango, mas ele era infinitamente mais caro e eu desisti. O link:http://www.senortango.com.ar/

13) CALLE FLORIDA e CALLE LAVALLE. É o centro comercial da cidade. Milhares de lojas, milhares de malandros atentos aos turistas desatentos, muita gente oferecendo câmbio a cada esquina. Eu não tive coragem de trocar, mas alguns brasileiros hospedados no mesmo hotel que eu o fizeram e não tiveram problemas. Falam que os preços que eles fazem são ótimos, mas o risco é bastante alto.

Pouco é sempre melhor do que nada

Três pequenas lições óbvias sobre guardar dinheiro que todo mundo deveria saber:

1) POUCO É MELHOR DO QUE NADA – Sempre achamos que se é para guardar pouco é melhor gastar, e acabamos sem economizar nada. Dois reais por dia são 60 reais ao mês, R$ 60 por mês são R$ 720 por ano. Sem juros. Se você achar uma aplicação ue renda 0,5% ao mês, em dez anos você terá quase R$ 10 mil. Em trinta anos, mais de R$ 60 mil.

2) QUANDO GUARDAR? – A maioria das pessoas sempre planeja a mesma coisa: guardar o que sobrar do salário. E como quase sempre se gasta tudo, não se consegue economizar nada. Se você quer guardar dinheiro, separe logo uma quantia quando você receber. E voltando para a regra número um, não importa se for pouco. Pouco sempre é melhor do que nada!

3) FOCO É FUNDAMENTAL – É mais fácil guardar dinheiro quando se tem um objetivo claro. Um carro, uma casa, uma viagem ou uma aposentadoria mais tranquila são exemplos clássicos. Mas não dê um passo maior do que a perna: quem abdica de coisas demais para economizar, tende a desistir no meio do caminho. Não caia nessa armadilha e guarde quanto você puder, sem exagerar.

Ao mestre, com muita porrada, mas com carinho

Há alguns anos rolou um boato de que o Teodoro, um dos meus melhores professores na Universidade Federal Fluminense, havia morrido. Eu embarquei nesse boato, e na hora fiquei com aquele entimento horrível de que Julio Cortázar nos fala em um conto de “Todos os fogos o fogo”, o de que alguém morreu e você não se despediu, não estava lá, não sabia, nem ficou sabendo, e jamais ouvirá o som da ficha caindo. Mas o Barcímio Amaral, jornalista niteroiense e ex-editor de A Notícia nos bons tempos, me corrigiu: Anthonio Teodoro de Barros estava vivo e muito bem, sim senhor. De onde você tirou esse boato?, meio que me perguntava o Barcímio. Pois eis que hoje Teodoro morreu de novo. Mas infelizmente é verdade. Eu queria muito que não fosse, mas acho que desta vez é verdade – já me falam até que o enterro será no Cemitério São João Batista. Sim, morreu de verdade, se é que existe outro jeito de morrer. O velho rabugento e genial sucumbiu aos milhões de Marlboros fumados quase ininterruptamente, e nos deixou. É por gente como o Teodoro que fico pensando que Professor é a profissão mais importante do mundo – ninguém marca tanto a vida dos outros como um professor. E no caso do Teodoro isso é incontestável – era uma figura marcante, um frasista incorrigível.

Jornalista clássico, era o editor de Última Hora quando o homem pisou na lua pela primeira vez.Teodoro inventou o jornalismo on-line mas ainda no papel: a cada movimento da Apolo 11 e dando como manchete. Quando a aeronave chegou mais perto, a manchete do primeiro clichê foi “ESTÃO NA ÓRBITA” ou algo assim. No dia seguinte, Apolo 11 pousa na lua, e a manchete é “POUSARAM”. E horas depois, quando Neil Armstrong deu seu pequeno passo e o grande salto para a humanidade, a manchete de Teodoro não podia ser mais sucinta e exata: “PISARAM”. Teodoro, na minha época de UFF, era um dos poucos professores titulares da Comunicação Social. Era corrosivo, ácido, com aqueles menos comprometidos com o trabalho. Quando se falava em um professor de redação jornalística, Teodoro já dizia que a gente deveria levar capim para a sala de aula a fim de comprar a simpatia do professor. Era um sacana incorrigível. Quando trabalhei com ele em um house-organ da UFF, pegava as fotos que fazíamos e dizia, na lata: – As fotos estão abaixo da crítica. E estavam. Teodoro pertencia ao mundo dos professores que preparavam para o mundo real. Para aquele mundo em que, a exemplo do genial diálogo de “Além da Linha Vermelha”, de Terrence Malick, “não há mais nada além de nós e esta rocha”. Todas as críticas e porradas do Teodoro eram críticas e porradas que nós teríamos no mundo daqui de fora, na famosa selva do jornalismo (na expressão de Luiz Antonio Mello). Aliás, foi ele quem me indicou para A Notícia em 1993, onde procurei exatamente o Barcímio. – Vai lá fazer polícia, meu filho. Vai cobrir presunto. Depois de entrevistar mãe de suicida, presidente da República para você será pouco. Nunca entrevistei um presidente, no máximo ministros. Mas na época tive essa sensação de confiança que o Teodoro me passou. E sempre que ele me encontrava, eu já em A Notícia, ele me perguntava, com todo o jeito grosseirão mas amigável de sempre: – E aí? Tem feito muitas matérias sangrentas naquele pasquim? Eu tenho quase certeza de que a última vez que vi Teodoro foi em algum dia de 1997. Eu estava no JB e apresentei, neste dia, meu projeto experimental sobre o Pasquim. A monografia de conclusão de curso. Teodoro me deu 7,5 e eu digo que foi merecido – muito atolado com o trabalho, não me dediquei adequadamente à monografia. Na banca havia ainda a minha orientadora Marialva Carlos Barbosa e o professor Dante Gastaldoni. Teodoro não aliviou em nada. E ele sabia que nenhuma porrada que ele me desse iria abalar nossa amizade – porque de alguma maneira, ao estilo dos mafiosos de filmes, acho que nenhuma amizade morre se tiver nascido da gratidão. E Teodoro morreu um dia depois de a gente agradecer a todos os professores do Brasil. E no mesmo ano em que morreu Neil Armstrong, cujo pisão em solo lunar lhe rendeu uma manchete grande na Última Hora. E na última hora, digo: obrigado, Teodoro.

AT THE ZOO

Não quero que leiam este texto como um arrazoado de ambientalista ou ecochato ou coisa do tipo. Mas como uma angústia pura e simples, uma sensação incômoda, sem ideologia ou doutrina agregadas, um pânico puro e simples. Falo de uma das coisas mais básicas de uma infância, que é ir ao zoológico. Depois de umas três décadas, fui ao zoô do Rio este fim de semana sem ser a trabalho – como repórter, fui umas 30 vezes entre 1994 e 1998.  Desta vez, fui no domingo, dia da semana cantado por Raul Seixas em “Ouro de tolo” (eu devia estar contente porque eu tenho um domingo para ir com a família no jardim zoológico dar pipoca aos macacos/Mas que sujeito chato sou eu que não acha nada engraçado, macaco, praia, jornal, tobogã eu acho tudo isso um saco).

A primeira sensação foi a de prazer por acordar cedo num domingo. E estou falando sério. Comecei a entender a arte de levantar mais cedo para ficar mais tempo sem fazer nada. O motivo era especial: a gente ia encontrar com a família de um afilhado da Marcele, o Guigui, que ainda não completou um ano de nascimento. Um motivo ótimo, que realmente valeria qualquer esforço. Claro, o zoológico estava absurdamente lotado, às 9h30 de um domingo, era difícil até andar. Mas a gente abstraía, porque estar com os amigos valia todo o esforço, claro.

Entramos no zoológico e fomos avançando, passando pelo serpentário, indo adiante pelos locais onde ficavam jacarés e hipopótamos, e um pequeno pasto de girafas e avestruzes, que batizei de A Gaiola dos Pescoçudos. Antes, sentimos a tradicional angústia por ver pássaros engaiolados. Ver um gavião preso numa gaiola é uma verdadeira tetraplegia da natureza. Quase senti necessidade de saber de algum crime praticado pelo gavião para que fosse justificada essa pena.

Quando chegamos ao setor onde ficam presos os felinos, é que a angústia aumentou. Um cartaz, muito bem-pensado, aliás, informava aos visitantes que aqueles bichos tinham horários diferentes de dormir, e que muitas vezes era possível que eles estivessem muito parados. E pedia, em vão, que as pessoas não berrassem e evitassem que as crianças perturbassem os tigres, leões e onças. Acredite: aquelas crianças no zoológico enlouqueceriam um T-Rex, quanto mais um leão.  Olhei para as jaulas, e apenas o tigre siberiano estava em plena atividade, andando em círculos numa jaula com uma espécie de mini-piscina a seu dispor. O calor era tanto que a água devia estar quente, por isso o tigre não devia estar lá se refrescando. Senti nos olhos do tigre que um ventilador na jaula quebraria o galho. Nem precisava ar-condicionado.

Nas outras jaulas, uma leoa, um leão, uma onça e dois tigres tentavam dormir (a única atividade possível na jaula) enquanto as crianças berravam alucinadas para que eles NÃO dormissem. E os pais referendando, na frente da jaula e até na saída do zoo: “Porra, a gente paga seis reais e os bichos estão lá dormindo”. Acho que o cara que disse isso deve ter visto Madagascar antes de vir ao zoológico e acreditava que o leão iria fazer uma performance. Será que eles não confundem zoológico com o circo. Qual é o ponto, afinal?

Me lembrei dos primeiros anos de vida, da infância, em que “zoo” me remetia a um lugar feliz, onde bichos moravam, e não eram prisioneiros. Não me ocorria que a natureza não constrói grades. Uma das primeiras músicas que ouvi na vida, inclusive, foi At the Zoo, de Simon & Garfunkel (embedada no topo do texto):

 

The monkeys stand for honesty
Giraffes are insincere
The Elephants are kindly but they’re dumb
Orangutangs are skeptical of changes in their cages
And the zookeeper is very fond of rum

Zebras are reactionaries
Antelopes are visionaries
Pigeons flocked in secrecy
And hamsters turn on frequently
What a gas! You gotta come and see

Até hoje não entendo muita esta letra que diz que zebras são reacionárias, mas o fato é que a palavra zoo sempre ficou muito impressa em minha mente como um lugar de felicidade e contato com a natureza.

Depois deste domingo, passei a acreditar que um museu de cera com estátuas de bichos é mais natural do que animais cercados por grades. Não sei se quero voltar ao zôo.

Fica pronto em três minutos

Espero que o vídeo do garoto Nissil Ourfail (pena, o WordPress não permite embedar vídeos) seja um viral do macarrão instantâneo. Sério. Tipo, daqui a uns sete ou oito dias aparece um vídeo novo dizendo “Our fail”, erramos, na verdade o vídeo não era sobre um bar mitzwah, e sim sobre um macarrão que pode ser consumido por todas as culturas. Vamos sonhar com isso. Porque prefiro que seja um viral profissional, pensado, planejado, do que acreditar que está todo mundo enlouquecendo com um vídeo de “minhas férias” feito por um garoto de 12 anos. Como escreveu bem o Inagaki, se existisse o Youtube na minha infância, eu teria pago muito mais micos do que o Nissin – que, a meu ver, é tão somente um garoto que adora os pais e é adorado pelos mesmos brincando com um rito de passagem.

Talvez a causa deste fenômeno Nissin seja a quantidade excessiva de memes ou de vídeos do tipo “Luíza foi ao Canadá”. Sim, modismos e gírias que antigamente eram impostos semestralmente pela novela das sete, hoje acontecem semanalmente no Youtube, compartilhados aos milhares pelo Facebook. Vejam bem, não estou dizendo que o vídeo não é divertido. Sim, é divertido. Até mesmo rio quando ele fala que é legal ir à Praia da Baleia (e o ilustrador usou a imagem de uma baleia, já que a da praia não diria nada). Não consegui – por sorte – lembrar de quem é a infernal música, mas calculo que seja de alguma boy band teenager aborrescente. Mas é apenas uma brincadeira feita por um garoto de 12 anos. Basicamente, é isso. Não me sinto na obrigação de compartilhar com meus seguidores – sempre com um risinho no rosto e com um comentário jocoso – um conteúdo que não passa de um garoto celebrando o fato de que os pais vão torrar uma fortuna numa festa.

Nissin é uma criança. Crianças têm, em geral, péssimo gosto. Basta ir a qualquer festa de criança dos dias de hoje e constatar que TODAS as músicas que tocam são de artistas que costumamos malhar o dia inteiro nas redes sociais – Luan Santana, Eu quero tchu (sei lá de quem é isso), Oioioi (sei lá de quem é isso 2), Vitor e Léo, Exaltasamba, Molejão, etc. Além do gosto musical ruim, crianças gostam de roupas ruins, jogos ruins, livros ruins (vampiros, mágicos, engolidores de raios). E, sinceramente, acho no máximo digno de um “ouuum” feminino qualquer gracinha cometida por adolescentes no Youtube – com exceção, claro, do vídeo-mito Coca-cola com Mentos.

Não estou xingando quem riu do Nissin. Só estou me espantando com a capacidade que a internet teve de nos deixar pouco seletivos na hora de rir. E olha que esse comentário está partindo de quem já riu por causa do Bozo (quando era o Charles Myara). Os derivados que vêm depois, as óbvias entrevistas na Ana Maria Braga, Fátima Bernardes, Luciana Gimenez, Luciano Huck, tudo isso é um porre. É como se a gente tivesse admitido de vez que para ter fama não é necessário fazer porra nenhuma de relevante – a não ser um vídeo que as pessoas queiram compartilhar porque acharam kitsch.

Sei que meu texto é tão mal-humorado que ninguém vai querer compartilhar. Mas já que a ranzinzice chegou, aproveito para lembrar: não teve absolutamente nenhuma graça as milhares de menções posteriores a “Luiza no Canadá”. Só serviu para, realmente, promover o tal conjunto de prédios. Ora, se a regra para se vender, para ser viral, para querer compartilhamento, é apenas pensar em uma coisa muito escrota, tenho medo sincero do que estar por vir.

Não quero ver um viral do Imosec. Por favor.

 

 

PS: Adorei este texto da Rosana Hermann sobre o mesmo tema

Sempre brilhará

Mago da Fender

Me lembro dos tempos em que o chamavam de “Mago da Fender”. Bobagem da mitologia em torno desse grande músico

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Apenas os que me conhecem ou conheceram muito de perto têm a dimensão do que significou para mim a notícia de que Celso Blues Boy havia partido. A notícia chegou de um jeito que permitia aos incrédulos ainda torcer por ser mero boato. A confirmação, cheia de detalhes, veio rápida, em menos de uma hora. E em meio às viagens no tempo feitas por coração e mente, a surpresa: Celso escondia o câncer que tinha na garganta (provavelmente consequência de milhares de cigarros que fumava e colocava entre as cordas da guitarra, perto das cravelhas) e, pasmo, leio que ele simplesmente se recusou a fazer o tratamento que poderia prolongar sua vida.

Eu queria muito poder saber o que Celso pensou na hora em que tomou a decisão. Porque ao longo da vida, desde a adolescência, me acostumei a saber o que Celso sentia após uma perda, uma dor, um amor ao acaso, uma frustração, enfim, após as coisas que são comuns a uma vida muito bem-vivida. Como não poder saber o que Celso pensou sobre esta perda final – a própria vida?

Fui, seguramente, a mais de 30 shows de Celso Blues Boy. Nos lugares mais variados: Circo Voador, Morro da Urca, Teatro Ipanema, Teatro Cândido Mendes, Hard Rock Café (grande show), Teatro Carlos Gomes (com Sartori, ex-jogador de basquete, nos teclados e a lenda Mimi Lessa na guitarra-base), incontáveis lugares. Nunca fui a um show do Celso em dúvida sobre se seria bom ou não. E em diversas fases, diferentes, da vida, estavam lá o Blues Boy e os Stones. Adolescente, recém-órfão de pai, e eu lá estava, cantando “Porque chorar não vale mais a pena”, no refrão de “Tempos difíceis”. Ainda muito jovem, apaixonado, “sentindo calor, tremendo de frio”, pensando no quarto escuro em que “ela” deveria estar, entre vinhos e rosas, inebriada e feliz. Já quase com 30 anos, vivendo os versos “toque qualquer coisa/no meio da noite/um outro amor na longa estrada”, que ele cantava em Blues Motel. Seu primeiro disco, “Som na guitarra”, rodou na minha vitrola até furar. Acho graça até hoje na dedicatória do disco – “a todo o circo da Fórmula 1” (Celso adorava o Vasco e as corridas). Ao pensar que Celso faria seu 105º show no dia 23 de outubro, no Circo Voador (casa em que praticamente nasceu), a sensação é de que me tomaram algo.

Uma vez o Noites Cariocas deixou de ser Noites Cariocas e o Morro da Urca promoveu um evento chamado Guitar Series, que se hoje estaria fadado ao fracasso, naqueles anos 1980 quase 90 até que tinham lá seu espaço. Vitor Biglione e Ricardo Silveira tocaram. Até que um fim de semana foi lá o Celso. Comprei – pela primeira vez, já que eu sempre subia pelo morro – o ingresso com alguns amigos e fomos lá, um grupo de quatro pessoas, ver o cara. Havia nós quatro e mais umas 12 pessoas, espalhadas pela Concha Acústica em um silêncio meio constrangedor. Celso entrou, olhou, ficou meio cabreiro e mandou:

- O que importa é que vocês estão aqui.

E começou “Tempos difíceis”, com raiva, com emoção. Ia dando o melhor show de sua vida, até que em um intervalo um menino de uns oito anos, negro, sorridente, gritou da plateia (eu nem tinha visto a criança ali):

- Rock and roll! Rock and roll.

Celso viu, desceu para a plateia emocionado, pegou o menino no colo e subiu. E tocou “Fumando na escuridão” com o menino no colo, sei lá como, o garoto segurando no pescoço dele e ele detonando a guitarra. Naquele tempo podia até ser proibido fumar na frente de crianças, mas não acho que fosse proibido tocar “Fumando na escuridão” na frente de crianças. Esta cena eu nunca esqueci.

Celso falava sobre coisas reais abstraídas. Um estilo de vida real, mas que sabíamos não ser o adequado para a sobrevivência. Sabemos hoje que neste mundo competitivo, capitalista, de força, de marketing e selva da sobrevivência, estes valores não sobrevivem – viver em função de paixões, música, porres homéricos, muito som e a angústia do blues. Mas, enfim, se vivia disso, sem saber do quanto era arriscado. Celso viveu assim, e talvez seu gesto final, de não querer tratar do câncer da garganta, tenha tido um sorriso do tipo “sim, valeu a pena”. Celso nos disse o tempo todo que a vida vai além de sucesso, de competição, e que às vezes tudo o que você precisa é de uma boa garrafa e um som tocando, para espantar seus demônios. Como ele canta em “Damas da noite”, música em que homenageou as putas (“Com quem fugimos, da solidão”), “Eu quero taças erguidas/essa mesa é o nosso lar”. Celso não tinha raízes.

Nunca saberei se essa falta de raízes o fez abrir mão do tratamento. Não chamaria isto de suicídio, mas é como se o cálice tivesse  se quebrado e ele tivesse constatado que já havia bebido demais. Bebido vida demais.

Abrindo neste instante uma garrafa de vinho, mas não brindarei ao Celso. Brindarei àquele garoto gritando “rock and roll” no show vazio. Ele vai se  sentir muito mais homenageado. Porque chorar não vale mais a pena, Blues.  Você sempre brilhará.

Have a wonderful life

Esta é uma carta de duas pessoas que comemoraram 10 anos de namoro no domingo 29 e sete anos de casamento nesta segunda. Sim, os donos do blog. Nessa carta também está um pouco da gente. Mas se destina a um jovem casal que assinou os papéis e disse o sim diante do padre.

Casamento P & R

Caixinha bacana que os padrinhos ganharam de presente

“Queridos P e R

Horas depois que vocês se casaram, já na madrugada de domingo, era nosso aniversário de namoro. Que, por sinal, é véspera do aniversário de casamento. No caso do namoro, acho que era data mais especial do que casamento, pois se tratava de nossa primeira data redonda: 10 anos.

Rimos um pouco das últimas três frases que o Gustavo disse a vocês.  Vocês não vão lembrar, já que estavam todos saturados de espumante e o som estava muito alto. Recordemos então. Eram três “regras simples” para um bom casamento (como se alguém pudesse saber isso):

1-   Alguém sempre tem que ceder. Veja se você consegue ceder antes

2-   Nunca durmam brigados. Criem a Lei do Beijo de Boa-Noite.

3-   Tenham duas TVs.

Casamento, definitivamente, não é a parte fácil da coisa. O amor, um de nós aqui certa vez escreveu, é uma mistura caótica de sonhos e hormônios. Mas além disto tem um algo a mais, algo que Nick Hornby definiu como “lar” no seu filme “Alta fidelidade”.  “It’s a mystery of human chemistry and I don’t understand it, some people, as far as their senses are concerned, just feel like home”

Sim, algumas pessoas nos soam como o lar, um lar que ficou perdido e de repente a gente reencontra.

Mas nem sempre há harmonia no lar. É preciso entender que estes momentos podem perder a harmonia, mas o amor tem que ser lembrado. Amor sobrevive acima de tudo, surgiu antes de tudo e ficará depois de tudo. Apaixonar-se, porém, é, como disse Jorge Luis Borges, ter uma religião em que o Deus erra.

 

Como não errar? Impossível. Sempre erraremos, errantes. Mas acima de tudo, o importante é errar e continuar. O desafio é grande, mas em geral, na vida, tudo que demanda grande esforço vale a pena ser buscado.

Segue para vocês uma pequena lista de coisas que nos fizeram bem. Quando for dica para o homem fazer, colocaremos “Homem”, quando for para a mulher, colocaremos, “Mulher”, mas a maioria, esperamos, servirá para os dois. Igualzinho àquele plano de ter duas TVs.

 1-   Alguém sempre tem que ceder. Veja se você consegue ceder antes

2-   Nunca durmam brigados. Criem a Lei do Beijo de Boa-Noite.

3-   Tenham duas TVs.

4-   Ceda o controle remoto. Se não for possível, vai ver TV na outra TV

5-   Mulher, o Flamengo é muito importante. Não desdenhe, não despreze, não veja como algo menor. Juca Kfouri está certo: o futebol é a coisa mais importante entre as coisas menos importantes. Ou seja, o Flamengo não é mais importante que você, porque você está entre as coisas que mais importam na vida do homem.

6-   Homem, levante da cama. Para apagar a luz, para pegar o copo d’água, para desligar a torneira que pinga. Mulheres têm emoções diversas, têm medos ocultos, têm cansaços que os homens jamais terão. É missão do homem, sim, levantar da cama.

7-   Importe-se. Tenha acima de tudo carinho com o outro.

8-   Uma vez por mês ou a cada dois meses, tomem um porre. Juntos. Sem mais ninguém perto.

9-   Uma vez por ano, tomem um banho inconseqüente de chuva e voltem para casa ensopados.

 10-Tenham muita consideração com os pais de vocês. Todos. Vocês são muito especiais para eles. E se a vida seguir o curso normal, um dia vocês terão que amparar um ao outro numa hora triste. Melhor que nessa hora não haja arrependimentos, e sim saudade verdadeira

 11- O outro não sabe que você está tendo um dia ruim. Se o outro ligar, não descarregue nele. Ele vai te amparar, cedo ou tarde, por causa desse dia ruim

12-  Vejam o filme “Alta Fidelidade”

13- Joguem na megasena e sonhem

14-  Aprendam um instrumento. Pode ser violão.

15- Comemorem todas as datas. Não achem que é besteira. Se o outro acha uma data importante, ache também.

16- O que é importante para um, passa automaticamente a ser importante para o outro. A isto alguns chamam de respeito. Outros chamam de carinho. Não importa o nome – é necessário

17-  Dancem e se beijem durante a dança pelo menos uma vez por semestre

18- Um fim de semana por mês, façam algo diferente na cozinha. E com o que sobrar, façam guerra de comida.

19- Assistam séries, mesmo as que têm claques chatas

20- Vejam o filme “A Felicidade não se compra”

Cartaz de "It's a wonderful life"

Cartaz de “It’s a wonderful life” (em português, A felicidade não se compra)

21- Mulher, não reclame da toalha molhada em cima da cama

22- Homem, não reclame da calcinha pendurada

23- Entendam que estas reclamações comezinhas dos itens 21 e 22 são clichês dos mais bobos. Vocês são especiais demais para ficarem falando o que todo mundo fala

24- Uma vez a cada bimestre, gastem um dinheiro absurdo no cartão de crédito fazendo algo muito diferente

25- Façam longas caminhadas.

26- Brinquem. Nem que seja de videogame. Joguem. Nadem, façam mergulho.

27- Andem de mãos dadas.

28- Não tenham bichos agora. Vocês precisam primeiro estimar muito um ao outro. Bichos, só depois dos filhos.

29- Se tiverem bichos, tenham pelo menos um cachorro e deem um nome de gente, tipo Sebastião, John Lennon ou Paul McCartney. Ou até Ringo.

30- Atenda o celular. Se não puder atender, esclareça depois com uma mensagem. O outro vai sempre achar que você não atendeu por estar deitado numa poça de sangue.

31- Dancem “One more kiss”, do filme Blade Runner ou “My melancholy blues”, do Queen, pelo menos uma vez por ano. No inverno. Com vinho.

32- Façam viagens. Viagens urbanas, novas cidades, de celular desligado, sem email, sem facebook. Só viagens. Encontrem casais amigos, do Rio, mas em outras cidades – a Nora Ephron costumava dizer que disso ela teria saudade

33- Aliás, pensem sempre no que lhes dará saudades

34- Lavem a louça. Os dois. Podem se revezar nisso. A roupa não. Paguem alguém para fazer isso.

35- Sejam meio ridículos de vez em quando. Sem medo. Sem noção. Relaxa a musculatura.

36- Não tenham um gato.

37- Não tenham perfil em redes sociais juntos, email juntos ou nada parecido. Vocês sempre terão a chance de serem um só. Mas dois faz gol, e um é goleiro.

38- Pensem no que você realmente ganha ao ter razão numa discussão com o outro. Ganha-se algo?

39- Uma vez a cada semestre, pelo menos, bebam a frozen margarita do Joe & Leo’s. Serve a do Hard Rock Café. Ou a do Puebla, da Cobal do Humaitá

40- Tenham dois computadores. Pode ser um laptop e um desktop. Mas tenham dois

41- Alguém chegar tarde não é motivo de briga. Muita gente faz bobagem e chega cedo. Aprendam a arte da paciência.

42- Não existe crédito ou débito. Você não ganha crédito por perdoar. Você não faz bobagem por ter perdoado. Você perdoa por uma razão simples: você quer continuar.

43-  Façam listas. De músicas, de filmes, de livros.

44- Durmam no sofá. E você, que ficou acordado, leve com carinho quem dormiu no sofá para a cama

45- Esteja sempre pronto para a missão mais importante, que é cuidar do outro. É uma missão difícil e que exige muito. Você precisa cumprir.

46- Seu maior arrependimento na vida sempre será o arrependimento de dizer que se arrependeu de ter casado. Nunca diga que se arrependeu disso.

47- Aguentem firme. As coisas melhoram. O dia acaba. Outro começa. Pode ser melhor. Aguentem firme. Vai melhorar.

48-  Não durmam com fome.

49- Vocês não precisam dormir em conchinha. Ninguém aguenta isso.

50- Não deixem o Natal separar vocês. Criem. Inovem. Mas mesmo que tenham que passar o Natal separados, não se sintam separados na decisão.

51- Durmam de TV ligada. Coloquem o timer. Não esqueçam de colocar o timer!

52- A regra mais importante: criem suas próprias regras, caso nenhuma destas funcione!

 

 

 

 

 

O gordo é o novo fumante*

Essa é a ilustração da matéria da SUPER, que é muito legal. Estamos colocando o link no fim do texto

 

Lá pelos idos de 2008, quando eu ainda trabalhava com atendimento ao público, uma cliente idosa me perguntou se eu estava grávida. Quando recebeu a resposta negativa, em vez de ficar sem graça – como, acredito, a maioria das pessoas normais reagiria – a senhora levantou da cadeira, pegou na minha barriga e disparou aos berros: “então o quê é isso?”.

Aquilo, claro, era gordura. A cliente mal educada ainda voltou no dia seguinte, trazendo indicação de médico “porque uma menina bonita e nova como você não pode ser gorda desse jeito”. Apesar de toda a raiva e da vontade praticamente irresistível de mandá-la catar coquinho no mato, engoli em seco, coloquei um sorriso amarelo no rosto e prossegui com o atendimento. Gente sem noção existe em todo o lugar e se tem uma coisa que eu aprendi na vida, é que se eu retrucar da mesma forma, me torno exatamente igual ao que eu não quero ser.

Emagrecer não é fácil. Essa frase, que parece tão óbvia para tanta gente, deve ser um verdadeiro mistério para uma quantidade cada vez maior de pessoas sem noção. Por que são incontáveis a quantidade de vezes que eu já escutei “só é gordo quem quer”, “para emagrecer basta fechar a boca” e outras tantas baboseiras parecidas. Eu já fui magra. Eu era uma criança magra, passei boa parte da adolescência brigando com a balança e fazendo horas de exercício para manter a forma e lá pelos 23 anos de idade não consegui mais.

Queria muito aprender como não recuperar o peso perdido. Se eu fizesse a conta de quanto eu já emagreci na vida, provavelmente o número se aproximaria dos 100 kg. Perdi muitas vezes 5kg, outras tantas 10kg, uma vez consegui emagrecer 20kg em um mês e em outra, 25kg. No desespero de caber no vestido de noiva apelei para a sibutramina. Em outra vez, mais ou menos um ano depois do casamento, apelei novamente para o remédio para tentar recuperar a forma. Foi a última vez que emagreci com a ajuda de medicamentos. Depois disso já fiz vários tipos de dieta, frequentei sessões semanais de grupos de ajuda, corri quilômetros e quilômetros. O ponto que eu quero chegar com todas essas descrições chatas é: se emagrecer não fosse difícil, não existiriam gordos.

*Roubei o título de uma reportagem sobre o preconceito contra os gordos que está na Revista Superinteressante desse mês. Vale a pena dar uma olhada.

One more cup of coffe

 

One more cup of coffe for the road

Café, a bebida infernal mais divina do mundo

Dizer que é viciado em café, convenhamos, não é nenhuma genialidade ou constatação que emocione o próximo. Pelo menos seis entre 10 jornalistas são adictos em cafeína. E não só jornalistas como qualquer outra profissão que tenha como ingrediente indissociável o tal do estresse. Claro, sempre acharei curioso o paradoxo: as profissões mais estressantes utilizam o café – que certamente não é a bebida mais relaxante do mundo. Em resumo, nós apagamos fogo com gasolina.

Me lembro sempre de uma tirinha do Garfield no qual o famoso gato chato diz que “não falo com ninguém antes da minha primeira xícara de café”. Eu abro sempre uma exceção para a Marcele, claro. Mas fora a Marcele, não consigo interagir com nenhum ser humano antes de beber o precioso líquido.

A parte “adicto” desse meu relacionamento com o café é quando acaba o pó. O desespero é equivalente a de um viciado em drogas quando chega ao fim o efeito da última dose – e a próxima ainda não foi comprada. Contemplar o pote de café vazio é como bater na cara da minha própria estupidez: afinal, só eu bebo café lá em casa. A outra metade da população residente chama café de “bebida dos infernos”. Logo, se acaba o café, é porque eu dei fim ao pó e simplesmente deixei para resolver depois a compra de mais.

Numa dessas crises de abstinência, saí correndo de casa, tendo tremores e suores frios, e cheguei até a padaria. Na gôndola, apenas o Café Capital. Ora, lembrei da velha musiquinha: “Depois de um café Capital/Bom mesmo é café Capital outra vez”. A publicidade comigo funciona assim, na base do grude: se uma música gruda no meu cérebro de forma infernal, isto significa que cedo ou tarde eu vou consumir o produto, como se estivesse dizendo, “ok, ok, eu compro, mas parem de tocar essa merda”.  Bebi o café Capital em casa achando que eu estava bebendo o legítimo café de rodoviária – só depois que eu lembrei, o legítimo é o Palheta.

O Palheta é o café que a gente bebe no boteco em copo de cerveja, daquele pequeno. Antes do café ser servido, num bule nas mãos de um português meio grosso, é despejada dentro do copo uma colherzinha. E alguém te entrega aquele açucareiro digno de uma formiga faminta, aquele que tem que sacudir para sair uma tonelada de açúcar completamente de repente. Este, sim, é o café Palheta. Mas é tão bom que parece dizer: não tentem isso em casa.

Tudo isto foi para dizer que o café Capital tem mais gosto de província do que de capital. No desespero, por estar bebendo um café com gosto de lama frita, pedi à Marcele que comprasse um pacote no shopping (ela estava no shopping). Só que o único lugar em um shopping onde há café em pacote é o Starbucks. E o café de pacote do Starbucks – apesar de tudo o que é feito lá ser muito bom – também não é lá essas coisas. Esqueci que americano não é bom bebedor de café. Os caras preferem um café aguado, em copos enormes, aqueles que os policiais de filmes consomem com um donut enorme.

Certas coisas não podem ser mudadas. Café é Pilão. É o café do avô da Marcele, é o café da minha mãe, é o meu café.  É um café simples e eficiente. Não é o Nespresso – aliás, coloco no Catálogo de Seqüestráveis o sujeito que se dispõe a pagar quase R$ 500 por uma cafeteira que ainda exige apenas um tipo de café e um tipo caro pra cacete. Pilão é o café com a quantidade certa de cafeína para um dia de trabalho. Nem mais, nem menos. Sei que é quase impossível você acreditar, mas não ganhei nem um grão de Pilão para falar bem deste café – até porque é daquelas empresas orgânicas que nem sentem mais necessidade de investir em marketing e propaganda. Ganhar dinheiro para falar bem do café Pilão em blogs é quase tão difícil quanto receber verba do Polvilho Granado ou da pomada Minancora.

Café é o máximo. Pena que aqui em casa apenas 50% da população aprove.

Os outros 50%, em compensação, defendem o Toddynho com unhas e dentes.

Paulinho de todos os cantos

Paulinho da Viola, o gênio da resignação contida

Paulinho da Viola, o gênio da resignação contida

Gênero, em música, é algo que muitas vezes impõe limites a coisas que não têm limites. Pensei isto na noite deste sábado, 7 de julho, ao ver o show de Paulinho da Viola no Vivo Rio. Pensei que Paulinho da Viola é catalogado, sempre, como “samba”. E ponto. Nada contra. Mas a obra de Paulinho é, para mim, algo tão vasto e monumental quanto a de Chico Buarque. A métrica, as rimas, as histórias contadas nas poesias dele, tudo compõe uma obra com um processo de criação que engloba Pixinguinha, Villa-Lobos, Cartola, um pouco de Nelson Cavaquinho e um tanto de Jacob do Bandolim (que com seu Zimbo Trio e com Elizeth Cardoso gravou talvez o maior disco ao vivo da MPB no Teatro João Caetano). Paulinho é uma maravilha do Rio de Janeiro, um artista monumental que dá orgulho a uma cidade – é nascido e criado em Botafogo, se identificou com Madureira, torce pelo Vasco (ok, vá lá), e tem na cabeça uma cidade sem rancores. A cidade de Paulinho é do passado sem ser saudosista, é também do tempo de hoje mas com grande memória. E seus tipos humanos desfilam, gloriosamente derrotados, vibrando de dor e ressentimento.

Ontem, quando o violão baixinho e a voz idem começaram os primeiros versos de Coisas do mundo, minha nêga, me senti um privilegiado. Como brasileiro, mesmo – por ter um Paulinho da Viola. Um orgulho que o americano sinta, talvez, com relação ao meu ídolo Bob Dylan, quem sabe. Faltou, é verdade, Para ver as meninas, samba belíssimo que a Marisa Monte gravou, mas estavam lá Dança da Solidão, Coração Leviano, Mora na filosofia, Não me leve a mal, Sinal Fechado (magistral), Argumento e, emocionando a todos, fazendo gente chorar por todos os cantos (com trocadilho), Foi um rio que passou em minha vida.

Particularmente emocionante ver dois dos filhos de Paulinho no palco: João Rabello (filho dele com a irmã de ninguém menos que Raphael Rabello, um gigante do violão, que perdemos em 1995) e Bia Farias, cantora de primeiríssima linha. João simplesmente deu um show digno do tio, e em seu momento solo fez o Vivo Rio ficar completamente calado. E Bia foi perfeita, em um dueto com o pai espetacular.

Uma noite simplesmente perfeita no Vivo Rio.

A voz de Paulinho junto com sua poesia têm a marca da resignação silenciosa. Comovem e encantam ao mesmo tempo, sem despertar pena ou compaixão, e sim deixar maravilhado o ouvinte. Ontem ele não cantou uma das minhas favoritas – na verdade, dificilmente cantará ao vivo Um certo dia para 21, uma crônica sobre um preso em liberdade condicional (ou fugitivo, acho mais provável) que vive momentos de amor e liberdade, momentos efêmeros, passageiros, de doce alienação. Até que ele lembra que ele era o 21, tinha o nome marcado, não era um homem comum.

A letra é maravilhosa, como tudo o que o Paulinho da Viola faz. Segue abaixo:

 

Um certo dia para 21

Foram para mim
Horas diferentes
Quando eu me senti
Em plena liberdade
Tudo o que eu trazia
No meu pensamento
Era ter você
Só por um momento
E muito mais você me deu
E me fez passar um tempo precioso
Esquecido
Que eu só andava
Pelas noites mais escuras
Me escondendo do perigo

Só depois quando acordei
Aí que eu me lembrei que era o 21
E andava procurado
Tinha meu nome marcado
Não era um homem comum
Mas ficou aquele dia
Que me deu tanta alegria
Me marcando muito
Mais que a ferro e fogo
Às vezes meu amor fico pensando
Se a vida não tivesse
Me dado esse jogo

  

 PS – Tentei postar aqui no blog vídeos do Youtube, mas incrivelmente o WordPress não “incorpora” vídeos, apenas dá o link. Inacreditável, esse WordPress.