Eu fui uma excelente aluna nas aulas de ingles. Mesmo. Adquiria novas palavras para o meu vocabulario facilmente, entendia as musicas, nao cometia muitos erros de ortografia e ate compreendi o Present Perfect na primeira aula.
Os meus colegas de sala diziam que eu era a melhor da sala. E no fundo, eu acreditava neles.
Ate o dia em que eu cheguei aqui. E descobri que a minha estrada rumo a fluencia ainda tem muitos quilometros a serem percorridos. Alias, quilometros nao: MILHAS.
*****
Eu sei que se estou falando de um homem, tenho que falar he, himself, his. Caso esteja falando sobre uma mulher, devo usar she, herself, her. Entao porque, meu pai do ceu, porque eu TROCO os conceitos o tempo todo? Tornou-se tao comum eu chamar minha mae de “he” e meu namorado de “she” que a minha roomate (companheira de quarto) nem se confunde mais.
Nao entendo. Eu SEI a palavra certa, mas na hora de utilizar, eu erro!
*****
As barbaridades.
Eu falo “I didn’t knew”,”I didn’t saw” ou seja, uso o passado duas vezes, em uma construcao absurda.
Nao consigo falar “thought” (pensamento, pensei, pensaste, pensou). Sempre sai “focked”.
Mil vezes, estou pensando em “Are you kidding me?” e falo “Thank you?”, com uma inexplicavel entonacao de pergunta.
Ah, e claro, eu nao sei cantar as minhas musicas favoritas. Por exemplo, Beatles.
******
Escrever e um pesadelo. Eu levei horas escrevendo uma pagina, com a ajuda de duas ou tres ferramentas de traducao diferentes.
Eles tem aqui um servico lindo: Writing Center.
Digamos que voce tem um trabalho e nao sabe formatar do jeito que a ABNT pede; eles te ajudam. Aqui eles tem tres organizacoes que fazem a mesma coisa que a ABNT. Os meus professores pedem o formato MLA – Modern Language Association.
O Writing Center tambem te ajuda a levantar bibliografia pra pesquisa, estruturar o texto, corrigem sua gramatica, e te dao sugestoes de estilo.
A unica coisa que eles nao fazem eh pensar por voce.
Fico pensando que, se houvessem Writing Centers nas escolas e faculdades, talvez nao houvesse tamanha demanda por comprar trabalhos prontos na Internet…
Quando entreguei minha redacao para uma revisora, ela quase teve de refazer o texto inteirinho. Sempre do meu lado, perguntando: o que voce quis dizer com isso? Ah, entao use o Past Continuous. Posso tirar essa virgula? (Em ingles eles quase nao usam virgulas!) Posso colocar essa frase de outra forma, para evidenciar este ou aquele termo?
Depois de cinquenta minutos, ela tinha o meu texto em maos. E eu disse pra ela que estava com vergonha de entregar o texto pra professora, porque aquilo era muito melhor do que o que eu era capaz de escrever em ingles, e seria uma imagem falsa da minha habilidade.
E ela: Ah, imagina, o seu texto e otimo! Voce tem um estilo incrivel, tao vigoroso, com toques de humor. Eu so mexi aqui e ali.
Eu so nao abracei a moca porque tinha uma mesa no meio.
*******
Agora eu entendo a explicacao do Marcos Bagno (Preconceito Linguistico, A Lingua de Eulalia), sobre o portugues padrao nao ser a lingua nativa dos brasileiros. Agora eu entendo os meus colegas de sala que escreviam “errado”, falavam “errado”, escreviam “sonho de vausa” ou “eles tiverao muito trabalho”.
Eu sou como eles! Eu me sinto exatamente assim.
Eles eram estrangeiros, e os professores e livros e os colegas os tratavam como locais.
Nunca mais na minha VIDA eu vou corrigir a gramatica de ninguem. Fico morrendo de vergonha de pensar na minha mesquinharia.
*******
As pessoas daqui sao tao incrivelmente generosas comigo. Tem vezes que eu engasgo no meio da frase, incapaz de terminar meu pensamento, e eles esperam, oferecem sugestoes de construcao, nunca me corrigem, nunca, nunca, NUNCA.
Ninguem nunca sequer esbocou um sorriso. Nem quando, durante uma aula de desenho a mao livre, os professores pediram para darmos adjetivos que expressassem o sentimento de cada um dos tracos. Eles mostraram um Picasso, e eu queria dizer que o traco era “rispido”, e falei “rispid”. E a turma toda olhou pra mim tentando entender o que eu queria dizer.
E eu engasguei.
“Is this a real word?” Eu perguntei. Essa palavra existe?
E durante uns dois minutos, a sala inteira e os professores tentaram descobrir o que eu queria dizer. Um dos colegas procurou ate no IPad dele. Eu fui ficando tao emocionada com aquilo que quase chorei, e a professora veio me dizer que eu nao precisava ficar embaracada, e me deu MAIS VONTADE DE CHORAR AINDA.
Terminei dizendo “rude”. Acho que nao vou conseguir explicar como o fato de eles nao me julgarem e ainda tentarem me ajudar a descobrir como me expressar foi importante pra mim.
(Rispido nao tem traducao exata, mas pode ser “ill-manered” ou “harsh”.)
*****
E a gente fica fazendo gracinha com os turistas gringos, que falam “um garrota” “um banana”.
