A gentileza infinita

Eu fui uma excelente aluna nas aulas de ingles. Mesmo. Adquiria novas palavras para o meu vocabulario facilmente, entendia as musicas, nao cometia muitos erros de ortografia e ate compreendi o Present Perfect na primeira aula.

Os meus colegas de sala diziam que eu era a melhor da sala. E no fundo, eu acreditava neles.

Ate o dia em que eu cheguei aqui. E descobri que a minha estrada rumo a fluencia ainda tem muitos quilometros a serem percorridos. Alias, quilometros nao: MILHAS.

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Eu sei que se estou falando de um homem, tenho que falar he, himself, his. Caso esteja falando sobre uma mulher, devo usar she, herself, her. Entao porque, meu pai do ceu, porque eu TROCO os conceitos o tempo todo? Tornou-se tao comum eu chamar minha mae de “he” e meu namorado de “she” que a minha roomate (companheira de quarto) nem se confunde mais.
Nao entendo. Eu SEI a palavra certa, mas na hora de utilizar, eu erro!

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As barbaridades.

Eu falo “I didn’t knew”,”I didn’t saw” ou seja, uso o passado duas vezes, em uma construcao absurda.
Nao consigo falar “thought” (pensamento, pensei, pensaste, pensou). Sempre sai “focked”.
Mil vezes, estou pensando em “Are you kidding me?” e falo “Thank you?”, com uma inexplicavel entonacao de pergunta.
Ah, e claro, eu nao sei cantar as minhas musicas favoritas. Por exemplo, Beatles.

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Escrever e um pesadelo. Eu levei horas escrevendo uma pagina, com a ajuda de duas ou tres ferramentas de traducao diferentes.

Eles tem aqui um servico lindo: Writing Center.
Digamos que voce tem um trabalho e nao sabe formatar do jeito que a ABNT pede; eles te ajudam. Aqui eles tem tres organizacoes que fazem a mesma coisa que a ABNT. Os meus professores pedem o formato MLA – Modern Language Association.
O Writing Center tambem te ajuda a levantar bibliografia pra pesquisa, estruturar o texto, corrigem sua gramatica, e te dao sugestoes de estilo.
A unica coisa que eles nao fazem eh pensar por voce.
Fico pensando que, se houvessem Writing Centers nas escolas e faculdades, talvez nao houvesse tamanha demanda por comprar trabalhos prontos na Internet…
Quando entreguei minha redacao para uma revisora, ela quase teve de refazer o texto inteirinho. Sempre do meu lado, perguntando: o que voce quis dizer com isso? Ah, entao use o Past Continuous. Posso tirar essa virgula? (Em ingles eles quase nao usam virgulas!) Posso colocar essa frase de outra forma, para evidenciar este ou aquele termo?
Depois de cinquenta minutos, ela tinha o meu texto em maos. E eu disse pra ela que estava com vergonha de entregar o texto pra professora, porque aquilo era muito melhor do que o que eu era capaz de escrever em ingles, e seria uma imagem falsa da minha habilidade.
E ela: Ah, imagina, o seu texto e otimo! Voce tem um estilo incrivel, tao vigoroso, com toques de humor. Eu so mexi aqui e ali.
Eu so nao abracei a moca porque tinha uma mesa no meio.

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Agora eu entendo a explicacao do Marcos Bagno (Preconceito Linguistico, A Lingua de Eulalia), sobre o portugues padrao nao ser a lingua nativa dos brasileiros. Agora eu entendo os meus colegas de sala que escreviam “errado”, falavam “errado”, escreviam “sonho de vausa” ou “eles tiverao muito trabalho”.
Eu sou como eles! Eu me sinto exatamente assim.
Eles eram estrangeiros, e os professores e livros e os colegas os tratavam como locais.
Nunca mais na minha VIDA eu vou corrigir a gramatica de ninguem. Fico morrendo de vergonha de pensar na minha mesquinharia.

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As pessoas daqui sao tao incrivelmente generosas comigo. Tem vezes que eu engasgo no meio da frase, incapaz de terminar meu pensamento, e eles esperam, oferecem sugestoes de construcao, nunca me corrigem, nunca, nunca, NUNCA.
Ninguem nunca sequer esbocou um sorriso. Nem quando, durante uma aula de desenho a mao livre, os professores pediram para darmos adjetivos que expressassem o sentimento de cada um dos tracos. Eles mostraram um Picasso, e eu queria dizer que o traco era “rispido”, e falei “rispid”. E a turma toda olhou pra mim tentando entender o que eu queria dizer.
E eu engasguei.
Is this a real word?” Eu perguntei. Essa palavra existe?
E durante uns dois minutos, a sala inteira e os professores tentaram descobrir o que eu queria dizer. Um dos colegas procurou ate no IPad dele. Eu fui ficando tao emocionada com aquilo que quase chorei, e a professora veio me dizer que eu nao precisava ficar embaracada, e me deu MAIS VONTADE DE CHORAR AINDA.
Terminei dizendo “rude”. Acho que nao vou conseguir explicar como o fato de eles nao me julgarem e ainda tentarem me ajudar a descobrir como me expressar foi importante pra mim.
(Rispido nao tem traducao exata, mas pode ser “ill-manered” ou “harsh”.)

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E a gente fica fazendo gracinha com os turistas gringos, que falam “um garrota” “um banana”.

Tu me acostumbraste

Hoje de manha, fui na feira de legumes organicos, vi gente vendendo galinhas e coelhos, linguica feita na fazenda, costela de carneiro, SABONETE DE LEITE DE CABRA. Eles dao provinhas de tudo, eu provei pao integral, torta de limao, biscoitos de blueberry, costela de carneiro, pimentao assado (delicioso!), geleia de abobora, e o cara dos saches de lavanda me deu um punhadinho pra colocar no bolso.
Eu esqueci minha camera, e nao tinha obrigacao, nem prazo, nem pressa, nem cobranca, nem pressao, nem necessidade nenhuma de fazer algo a nao ser prestar atencao no momento presente. Por isso este post nao tem fotos, apenas sensacoes.
Tinha um jardim com plantas nativas – Daniel Boone Native Gardens
Depois, do lado da feira, teve aula de ioga. A instrutora – Marion? Molly? Mandy? – era escandalosamente linda e desleixada, tinha aquele cabelo cor de mel, naturalmente ondulado, olhos verdes, corpo perfeito, e usava roupas velhas e surradas que caiam horrorosamente bem nela. Tinha voz de crianca e falava como uma, falou sobre o outono, a sucessao das estacoes, a danca da destruicao “daquele cara, o Deus Shiva”.
Eu fiz Ioga com as maos na grama, o que me possibilitou executar alguma sposturas com muito menos esforco e sem sobrecarregar meus pulsos, como costuma acontecer. A moca linda falava: faz de conta que voce quer deixar uma pegada no ceu!
O dia estava maravilhoso, era meio dia, o ceu estava tao azul, o sol brilhando, mas como aqui eh muito seco, a gente nao sua. O sol esquentava as minhas costas, o meu rosto, e quando eu fechava os olhos, eu realmente dava uma meditada, sentia o cheiro da grama. Uma abelha perfeitamente amarela e preta pousou no meu pe enquanto eu fazia a postura do guerreiro, eu olhei pra ela e pedi para que ela nao me machucasse, pois meu seguro provavelmente nao me ajudaria e eu teria que pagar pelos remedios. Ela voou pra outro lugar.
Fui pra casa com a cabeca leve, parei em um restaurante grego, comi alguma coisa que nao sei pronunciar, mas eram legumes enrolados em uma tortilha, e estavam otimos. De sobremesa, pedi uma baklava, e estava tao maravilhosa, o mel e as nozes e a massa folhada, que eu decidi nunca mais dispensar sobremesa nenhuma na minha vida.
Cheguei em casa flutuando, lavei minha roupa e sequei na lavanderia daqui do alojamento. Enquanto esparava a roupa secar, fiz hidratacao no cabelo, ajeitei as unhas, passei aspirador no quarto e arrumei as gavetas do armario.
Minha roomate chegou com um pedaco de bolo de aniversario de alguem, e nao precisei comprar jantar. Agora estou na sala de computadores, fazendo os meus deveres de casa sobre pinceis, esponjas, base e corretivo.
Os meninos estao jogando ping-pong. Alguem esta cozinhando arroz. O menino vietnamita esta tocando violao e cantando uma musica em ingles que, como sempre, fala sobre o quanto I Love You.
Sao apenas cinco semanas, mas eu ja amo esse lugar.

O melhor amigo do exilado

Estou morando nos Estados Unidos ate dezembro (por isso meu teclado nao tem acentos).

Apesar de estar morando no Sul (famoso por ser quente), a cidade fica numa regiao de montanha, entao o ventinho gelado faz a sensacao termica cair bastante.

Alem disso, aqui servicos de estetica, como manicure, custam muito caro, o que me levou a aprender a fazer minhas proprias unhas.

Entao, meu elixir cura-tudo tem sido a pomada Bepantol. A bayer nao me deu dinheiro nem amostra nenhuma pra escrever, eu falo porque gosto mesmo.

Cuticulas doendo? Bepantol.
Labios rachando? Bepantol.
Olheiras? Uma camada de Bepantol sobre elas antes de dormir.
Abas do nariz ardendo? Bepantol liquido.
Fissuras no couro cabeludo? Uma tampinha de bepantol dissolvida no xampu de um banho e a coceira melhora.

Eu ando com bepantol em um frasco spray na bolsa. Um dos meus amigos de intercambio, um rapaz chines, cortou o dedo na lata de cerveja. Eu dei uma espirrada e ele ficou com um certo medo, mas o remedio nao arde, nao cheira mal, nao mancha e, sabe-se la por meio de qual tecnologia, FUNCIONA.

Nao sei nem dizer se tem Bepantol pra vender aqui, e se precisa ou nao de receita medica. Mas estou usando o meu com muito ciume, bem pouquinho de cada vez, pra ver se ele dura ate o final do ano.

Trilha sonora de um casamento

Eu penso em casamento. Tenho fascínio por imagens de noivas, e não adianta fazer de conta que isso não é importate pra mim.

Mas isso não quer dizer que eu seja convencional. Eu penso em casar no Teatro Amazonas, o único templo que faz sentido, a meu ver.

Para eu entrar, tocaria “Candeia de Estrelas”, do Célio Cruz; nos meus sonhos mais delirantes, o próprio Célio canta.

“Candeia de estrelas
para enfeitar a rua
quando o meu amor passar…”

Na hora dos padrinhos, Robertão:

“Você meu amigo de fé
meu irmão, camarada…”

Não sendo católica, não faço questão de cerimônia religiosa. Mas Deus pode estar presente, pois eu gosto dele. Será que o Gil pode ajudar?

“Se eu quiser falar com Deus
Tenho que ficar a sós
Tenho que apagar a luz
Tenho que calar a voz…”

Então, eu faria meus votos de amor para a pessoa que eu escolhi; numa interpretação apaixonada e livre, cantada por mim mesma, sem nenhum Móvel Colonial de Acaju.

“Por você aprenderia esperanto
e traria Gorbatchev pruma série de palestras
na casa da minha tia
enquanto beberíamos chá
na casa da minha tia
fofocando sobre a Perestroika!”

A dança dos noivos…

“Sunday morning
rain is falling
Steal some covers, share some skin
Clouds are shrouding us in moments unforgettable
You twist to fit the mold that I am in”

E a saída pra uma noite de festa!

“A luz de um grande prazer
é irremediável neon
quando o grito de prazer
açoitar o ar – Reveillon!”

P.S.: Obviamente, tudo vai mudando de acordo com as músicas mais queridas do momento. :D
P.P.S.: Não, não tenho previsão de casamento.

Compositores que poderiam permanecer apenas como tal

Há alguns artistas que são principalmente intérpretes de composições próprias. Mas, na minha opinião, alguns poderiam apenas ceder suas músicas para a interpretação de outros artistas, e obteríamos com isso resultados mais interessantes.

Vamos ao Top 5:

5 – Ivan Lins

Suas músicas são lindas, inteligentes, poéticas. Mas bem que ele podia deixar apenas a Simone cantando.

4 – Milton Nascimento

Tenho fascínio pelo Milton, e como ele consegue criar um universo com regras próprias nas canções que faz. Fica tudo com gosto de filme de época, é impressionante. Mas falta aquele amigo que chegue com ele e diga: Miltão, não precisa gravar mais, já deu.

3 – Fábio Jr

Rei da rima rica, das letras românticas. Eu achava que detestava as músicas, mas após ouvir o álbum “Fábio por Elas” descobri que não gosto é do fraseado dele. Caso não cantasse mais, eu diria: Brigadú!

2 – Chico Buarque

Tá certo, Chico é deus, não cabe debate sobre o assunto. Mas se eu fosse rainha do mundo, meu primeiro decreto seria obrigar a Bethânia a gravar a obra completa do Chico. Porque as músicas dele na voz dela são patrimônio do Brasil.

1 – Nando Reis

Semelhante ao Chico Buarque, com a diferença que Cássia Eller precisava muito voltar pra nós e continuar cantando as músicas dele.

Bonus Track – Um compositor que deveria cantar mais vezes

Michael Sullivan fez quase todas as músicas que você e eu amamos e conhecemos através dos outros. Mas quando canta, também faz um belo trabalho.

Uma reflexão sobre o Ultimate Fighter

Senhor Galante é um lutador. Em diversos aspectos, na vida e na profissão: ele é capoeirista e está se preparando para ser instrutor de Kung Fu.

Eu sou a rainha da cabecice. Eu sou muito ligada ao raciocínio e à lógica. Não quer dizer que eu seja superdotada ou sábia: sou só cerebral mesmo. Até os meus sentimentos, fico querendo explicar – e por isso eu tenho um blog!

Nós dois conversando no ônibus, ele me falou muito animado sobre um reality show de uma determinada rede de Televisão. Os participantes são lutadores (não sei dizer de qual modalidade, não entendo do assunto), e eles ficam em uma casa sendo filmados o dia inteiro, sob as orientações de dois lutadores mais famosos. Não colocarei links.

Meu comentário: ah, que bacana, eles vão receber orientações do “mestre”, tem um lance de treinamento. Deve ser tipo ter a chance de assistir a um simpósio. (Reparem na minha cabecice. Eu sei que eu sou chata.)

Ele prosseguiu, me explicando que a participação do público seria telefonar pra escolher dois atletas para combater, e o perdedor seria eliminado, até só um deles ganhar um prêmio e um patrocínio.

Eu refleti uns segundos e fiz uma cara que deve ter sido horrenda, pois ele perguntou se eu estava me sentindo mal.

E eu, que não sei ficar calada quando seria o melhor a fazer, disparei:

- Mas que horror! É como no Coliseu, escolha o gladiador para que eles se enfrentem até a morte! Cruzes, que coisa de mau gosto, horrenda, animalesca! É a humanidade se mantendo no primitivismo do estímulo à agressividade! Que nojo, me deu até enjôo no estômago! Ao menos a morte é figurada, mas a banalização do sentimento humano é…

E eu só parei depois de já ter ferido profundamente o coração do meu lutador.

Desumana sou eu, e não os atletas, que seguem regras de disciplina, ética e dignidade.

Orkuttes ou Lattes Book?

Estive atualizando meu currículo Lattes, e fiquei fascinada com essa ferramenta.

Eu fico envergonhada do meu Lattes, pois ele é um resumo fragmentado de mim. Especialista em Administração Pública, Estudante de graduação em Teatro, Funcionária pública, nenhum trabalho publicado, organizadora de dois eventos de Educação Tutorial. Dá a impressão que eu atiro pra todos os lados, mas na verdade o que eu queria é ser considerada Multitarefa. :D

Como eu estive atualizando uns dados no meu Lattes, detectei algo estranho: se você vai inserir alguma atividade artístico-cultural, você precisa ser um dos autores. Ora, ser atriz em uma peça de teatro não equivale a ser autora da obra! Acho que ser atriz em uma peça teatral equivaleria a comparecer a um congresso como participante. A não ser em alguns casos de direção coletiva…ih, complicou.

Apesar de a Plataforma Lattes não dispor de recursos de rede social, ela de certa forma funciona como um Orkut (ai, Eva, que coisa mais 2003) da classe acadêmica.

Por exemplo, quando sai resultado de concurso, todo mundo vai fuçar no Lattes pra ver quem é o professor. E os comentários começam: “Ela trabalhou no exterior!” “Ele orientou trocentos TCC´s!” *

Você pode pesquisar quem estuda ou leciona na Universidade tal, quem pesquisa determinado tema, quem orientou quem, quem fez parte de quais bancas… Outro dia eu estava procurando alguém que, como eu, fosse formado em administração e pesquisasse Teatro, Cultura e Arte. Achei alguns economistas, todos com livros publicados, só pra me fazer sentir minúscula. :D

Visitei os Currículos Lattes de dois professores particularmente queridos, que me ministraram aulas na Graduação e na Especialização da UFAM, e fiquei embasbacada com a experiência profissional e acadêmica deles. Deu até vontade de assistir aulas com eles de novo!

* TCC – Trabalho de conclusão de curso, também conhecido como Monografia, também chamado de Inferno, Pesadelo, O Horror, Rito de Passagem….

Natal tem todo ano

Eu sou apaixonada pelo Natal. Sempre fui, procurando nos arquivos deste blog de dezembro, sempre tem texto sobre o Natal.

Mas esse ano tá diferente. É que eu ando muito cansada, muito ocupada, muito estressada mesmo. O ano não deu a pausa natural de dezembro, eu continuo tendo aula na faculdade, continuo trabalhando (MUITO MAIS DO QUE O NORMAL). Não teve aquela pausa pra olhar pros lados e “olha só, luzinhas e enfeites”.

Tem sim, luzinhas e enfeites, por todos os lados. Mas eu ando tão nervosa com isso. Tudo é da China, entendem? Qual a graça de papai noel de plástico da china? Nenhuma. Qual o encanto de pisca-pisca de led da China? Zero!

Algum funcionário da prefeitura de Manaus teve a bela ideia de fazer árvores de natal de PET. Ugh… Reciclagem é legal, mas não basta cortar as garrafas, gente, há que buscar a harmonia, há que esforçar-se na estética.

No mais, o que eu continuo gostando do Natal não são as comidas nem os presentes, não é o plástico verde e vermelho. Eu continuo achando formidável essa ideia etérea de um Deus-Menino. Celebrar o nascimento de uma criança, e pensar que afinal, todo nascimento de todas as crianças mereciam ser comemorados, com luzinhas e presentes, caso fosse possível.

Eu amo o Natal, amo tanto. Mas não o associo a consumo e despesas, em momento algum.

Coisas muito grandes pra esquecer

Nós dois sentados em um sofá na Universidade.
Sexta-feira, seis e meia da tarde.
Eu com restos de maquiagem vermelha no rosto, os pés pintados de preto, cansada depois de uma pequena apresentação didática.
Você com um compromisso em alguns minutos, trabalho pra fazer.
Eu tinha um sanduíche de queijo na bolsa.
Nós dividimos. Conversamos sobre alguma coisa simples e tola, não lembro mais o quê.
Você me abraçou, eu pus a cabeça no seu ombro, segurei sua mão.
Eu te desejei tanto… um calor subindo pro rosto, mas sabia dos seus compromissos e da minha necessidade de ir para casa. O conforto do seu corpo, a alegria de uma semana particularmente ruim estar terminando tranquilamente.
Você disse que estava “tão feliz”. Eu disse que aquele era um momento tão bobo que nem lembraríamos depois. Perguntei: “Tem algum modo de fazer esse momento parar?” Você disse: “Batendo uma foto!”
Eu ri, disse que não era bem isso que eu tinha em mente. Mas depois refleti, e percebi que era mesmo a melhor maneira de fazer aquele momento durar pra sempre.
É uma das nossas melhores fotos. Escrevo para não esquecer.

Senhor Galante e Menina Eva

Mais um texto para um senhor Galante, porque ele merece

E você veio, me encontrou devastada e árida, e ainda assim você me abraçou, me ouviu e me fez ouvir suas histórias engraçadas de jogador de videogame.

E você encarou minhas ressalvas esquisitas, namorar escondido da mãe de uma baita mulher adulta, o medo de ser vista em público, eu chorando por causa de um ex-namorado particularmente difícil, na sua frente.

E você me acompanhava no caixa eletrônico, na loteria, na loja da tortas que nós adorávamos e no Clube do DVD, no shopping e na rua do Bate-Palma, e eu, no meio da minha miopia, tive que enxergar que você era bom bom bom demais, bom como as pessoas das histórias que eu gosto de ler, bom como os personagens do filme que eu penso em realizar.

E você sendo bom do jeito que você é, me conquistou e é tão gostoso te ver de verdade e saber que você não desistiu de tentar. Eu percebo que as coisas boas eu guardo pra comentar contigo, os textos que leio e os gatinhos engraçados da internet, a notícia boba do jornal e a discussão sociológica da formação social do Brasil segundo Darcy Ribeiro, de quem eu só li um livro e ainda tento resumir pra ti, como se eu fosse a única fonte de saber, a sua biblioteca de alexandria – mas é claro que eu não sou – e quando você vem perguntar as coisas Eva de que época era o Racine Eva o neoclassicismo Eva o Realismo, e eu não sei, e digo que não sei,

e você faz a mesma pergunta de outro jeito, se recusando a ficar sem resposta, e eu corro pra internet pra ver se o Google me diz algo, eu faço isso por sua causa, porque você é um homem bom, bom, bom do jeito que todos deviam ser.

E ontem eu percebi que cada dia do seu lado é um dia completamente novo, que as fronteiras da rotina podem ser diluídas com o amor, esse amor bonitinho que nasceu no meio dos escombros, que me fez voltar a ser uma pessoa, que me trouxe pra perto de mim mesma, e que no meio disso tudo me apresentou você, tão bom tão bom, tão bom pra mim.