Por Letícia Vedolin
Redatora (Correspondente Internacional)
O último fim de semana foi de cinema no norte da Alemanha. Participei do 58˚ Festival de Curtas de Oberhausen, que este ano comemorou os 50 anos do Manifesto de Oberhausen, um dos mais importantes para o cinema alemão do pós-guerra. Em meio à retrospectivas e homenagens aos precurssores do movimento, um dos paineis debateu internet, cinema e educação. O convidado era Kevin Lee, autor de Video Essays sobre cinema, uma forma de Edutainment na qual cinema é ensinado através de vídeos (na maioria das vezes) divertidos e envolventes.
Lee mostrou alguns de seus vídeos, assim como o projeto Film Studies in Motion, no qual, em parceria com a organização do Festilval de Oberhausen, são apresentados semanalmente videoessays atuais e programas produzidos para a televisão alemã a partir dos anos 70, com o objetivo de debater e ensinar cinema.
A ideia do debate foi mostrar a conexão entre o trabalho e Lee e o dos comentaristas de cinema da tevê alemã nos anos 70. Além da óbvia ligação entre o conteúdo, ambos análises de cinema, há semelhanças entre as características dos dois meios nas diferentes épocas. A televisão alemã dos anos 70 era pública e, segundo Lee, de certa forma independente de grandes níveis de audiência, assim como o conteúdo feito para internet não busca alcançar os mesmos números dos meios de massa. Tampouco havia grandes problemas quanto aos direitos de uso das imagens para a construção dos programas educativos sobre cinema, o que permitia a apropriação de trechos dos filmes sem a necessidade de permissão dos distribuídores. Igualmente acontece, na produção dos vídeos de Lee, que utiliza material sem permissão – seu canal no YouTube já esteve bloqueado, mas a maioria dos distribuidores fecha os olhos e considera seus Video Essays uma forma de mídia espontânea.
Interessante também, foi a diferença apontada por Lee, entre o que era produzido nos anos 70 e seu trabalho hoje. Apesar das senelhanças em quesitos econômicos entre o início da TV e o da Internet, as possibilidades oferecidas ao público por este, transformam a forma como assistimos a filmes e, em consequência, a forma como os analizamos. Como exemplo das mudanças trazidas pela interação proporcionada pela internet, Lee mostrou o curta The Sunbeam (1912), e uma variação produzida por um estudante, em que as cenas do filme são mostradas simultaneamente, de acordo com o tempo real em que acontecem. Uma versão assim só é possível hoje e altera o significado e forma da versão original.

